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Entre a culpa e a reconciliação: a honestidade em Irmão Urso

A história acompanha Kenai, um jovem que, após um ato impensado, é transformado em urso pelos espíritos da natureza. Nessa nova forma, ele embarca em uma jornada inesperada ao lado de Koda, um filhote de urso que, sem saberem ainda, está relacionado diretamente com a ação imprudente de Kenai e, mesmo assim, se torna seu companheiro e irmão de coração. 

No filme, a honestidade de Kenai ao revelar para Koda que foi ele quem matou a mãe do personagem é um dos momentos mais marcantes e emocionantes da narrativa. Essa cena simboliza não apenas o peso da culpa que Kenai carregava, mas também sua coragem em assumir a responsabilidade por seus atos diante de alguém que já considerava como um irmão mais novo.  

 A honestidade é um belíssimo atributo, mas pode ser um sacrifício de alto custo. À princípio, essa atitude pode parecer questionável, afinal de contas, falar a verdade não traria a mãe do Koda de volta, mas intensificaria profundamente a sua dor por saber quem a matou. Outro ponto importante é o de que Kanai poderia simplesmente cuidar de Koda, mesmo após descobrir que era o assassino de sua mãe, com a justificativa de que ele ainda não era consciente de suas atitudes, levando a irmandade como uma sina, apenas. Kenai poderia usar a realidade como cobertura e se esconder às sombras de uma tal proteção aos sentimentos do Koda. Mas ele conta.

 Kenai escolheu perder não só o afeto, naquele momento, ele escolheu viver completamente isolado dentro da pele de um urso. E a solidão seria um alívio comparado à opressão da sua mente. Porque o peso da honestidade do Kenai não diz respeito apenas ao quão solitário ele poderia ficar para o resto da sua vida, mas sobre o quão cruel aquele urso foi enquanto homem. A Disney, é claro, dá um final de redenção para o Konai. Contudo, o enredo, criado como uma lição infantil, nos lembra de que, na vida real, continuamos mentindo pelo medo da consequência, dos desafetos e da rejeição. 

Fomentamos frequentemente o pensamento que a desonestidade diz respeito apenas a nós, quando não é. É também sobre negar ao outro o direito de escolha, de decidir o que fará pela possibilidade de sermos contrariados na nossa vontade. Quando mentimos, não somos só moralmente errados, naquele momento, é como se fôssemos deuses criando um falso cenário, manipuladores criando uma jogatina do qual o outro não pode vencer. Afinal de contas, como alguém poderia dar o próximo passo se as peças certas estão no nosso bolso? 

É muito fácil sermos honestos quando isso custa pouco, mas é quando perdemos muito que as virtudes são realmente colocadas a prova. No filme, esse ato de sinceridade mostra que a verdadeira fraternidade não se sustenta em ilusões, mas na capacidade de enfrentar verdades difíceis. Kenai entende que só poderia honrar o laço com Koda se fosse transparente, mesmo correndo o risco de perder sua confiança.

O gesto de Kenai nos lembra que assumir a responsabilidade por nossos atos é essencial para o crescimento humano. A verdade pode ser dura, mas é ela que possibilita a construção de vínculos genuínos e a superação de erros. Nesse sentido, a honestidade não é apenas uma virtude moral, mas um caminho para a liberdade interior e para a reconciliação com o outro.

Título: Irmão Urso (Brother Bear)

Direção: Aaron Blaise e Robert Walker

Roteiro: Tab Murphy, Lorne Cameron, David Hoselton, Steve Bencich e Ron J. Friedman

Direção de Arte: Produção da Walt Disney Animation Studios

Ano de lançamento: 2003

País de origem: Estados Unidos

Duração: 83–85 minutos 

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