Dumplin’: padrões estéticos precisam ser desafiados por mulheres grandes

Descubra quem você é e seja você de propósito.
Dolly Parton

Dumplin’ é um filme lançado em 2019 pela Netflix, sob direção de Anne Fletcher, inspirado no livro de mesmo nome escrito por Julie Murphy. O longa narra a jornada da jovem Willowdean Dickson (Danielle Macdonald), apelidada por sua mãe de dumplin’ (“fofinha”) devido ao seu peso. Ela precisa lidar com o luto pela morte de sua tia Lucy, com quem passou a maior parte da sua vida, e aprendeu a ter autoconfiança e a amar a cantora Dolly Parton. Contudo, com a ausência da tia e com o interesse por seu colega de trabalho, Will passa a enfrentar inseguranças relacionadas ao seu corpo.

Tia Lucy e Willowdean quando criança. Fonte: https://bit.ly/2ZRI0fm

A mãe de Willowdean, Rosie Dickson (Jennifer Aniston) é uma ex miss e celebridade na pequena cidade do Texas onde vivem, na qual os concursos de beleza são a grande atração anual. Will despreza o engajamento de sua mãe e a intensa preparação das garotas da cidade, porém, inspirada pelo legado de sua tia e pelas desavenças com a mãe, Will e mais três amigas decidem participar do concurso como uma tentativa de arruiná-lo.

Pessoas grandes, literalmente

Antes de ser uma trama fofa e envolvente, Dumplin’ é um filme político. Por exemplo, afirmar que Willowdean é gorda pode causar estranheza para alguns olhares, pois isso pode ser encarado como uma ofensa pela maioria das pessoas. Seria melhor chamá-la de gordinha? Fofinha? Acima do peso?  Existem muitos eufemismos para a gordura. Essa reprovação demonstra o quanto a gordura corporal é um fenômeno que sofre pressões, tentativas de controle, de repressão, reprovação e exclusão. Desse modo, falar da gordura como ela é, e não como um sinônimo de algo ruim é uma questão de respeito, primeiro com as pessoas gordas, e segundo com a fantástica narrativa do filme.

Até onde eu sei, um corpo de biquíni é um corpo usando um biquíni.
Willowdean

Fonte: https://bit.ly/2ZRI0fm

A reprovação do corpo gordo não é um evento novo, suas origens remontam o período helenístico. Na Grécia Antiga, devido à cultura de os homens irem aos ginásios para se exercitar e exibir a virilidade havia um grande interesse por dietas e guias de exercício Desse modo, não ter um corpo torneado dentro dos padrões esperados para a idade, não praticar exercícios regularmente, ou ter acúmulo de gordura era visto como uma ofensa à sociedade, pois denotava falta de interesse pelas questões públicas (GOLDHILL, 2007). Na Antiga Medicina grega, a gordura corporal também foi descrita por Hipócrates como algo negativo, uma categoria patológica advinda do desequilíbrio dos humores (MORTOZA, 2011).

O corpo era considerado propriedade pública e deveria ser exposto aos olhares, comentários e avaliações, sendo o cidadão que não tinha interesse em fomentar avaliações positivas em relação ao corpo, um assunto de interesse público, tornando a gordura questão política. Visão que está impregnada no imaginário ocidental até os dias atuais (ROSSATTO et al., 2016 apud GOLDHILL, 2007). Atualmente o corpo magro exposto na mídia e em peças publicitárias se tornou o objetivo de consumo, e as dietas, guias de exercícios continuam sendo requisitadas, além dos procedimentos estéticos e cirúrgicos; evidenciando a lipofobia e transformando por consequência, o corpo gordo em um símbolo de falência moral, pois carrega o estigma do desleixo, preguiça e falta de vigor. Esses fatores podem ser compreendidos como códigos culturais da nossa época (VASCONCELOS; SUDO; SUDO, 2004).

Na rotina da cidade texana, as garotas correndo em grupo, vestidas de rosa, em preparação para o desfile denotam claramente o significado e o peso desses códigos culturais na subjetividade feminina. Will sofre quando as pessoas se surpreendem negativamente ao saber que a filha da grande miss da cidade é gorda, corporificando esse símbolo de falência moral, que sua mãe também reforça.

Fonte: https://bit.ly/2ZRI0fm

O corpo gordo, visto como desviante, viola as normas em um estado condenável social, física e psiquicamente, sendo os indivíduos que transgridem a regra da busca pelo emagrecimento, considerados outsiders ou estranhos ao modelo social (VASCONCELOS; SUDO; SUDO, 2004).  Will e suas amigas assumem esse papel de forma explicita quando entram no concurso de beleza, uma vez que o código vigente para beleza nesses concursos era sinônimo de magreza, necessariamente.

Corpo todo, corpo gordo, corpo livre

As raízes da gordofobia são profundas e causam inúmeras consequências. Ela modela e limita comportamentos, e está até mesmo na mentalidade das pessoas gordas, na crença de que o próprio corpo não merece ser vivido, sob a possibilidade de fugir dele emagrecendo (PAIM, 2019). À medida que a gordura é considerada uma impureza, o corpo gordo é considerado como um “corpo sujo” que deve ser limpo, para tanto, os critérios socioculturais privilegiam que, através do processo de individualização e culpabilização do sujeito, a experiência de vida seja em torno de balanças e espelhos, sob pena de constrangimento social (MATTOS; LUZ, 2009).

A morte de Lucy, para Will, também representou a perda de uma fonte de resiliência para lidar com a gordofobia. Com as investidas afetivas de seu colega de trabalho Bo, Will sente dificuldades em lidar com o contato físico. Uma das causas disso é a crença de que alguém com a aparência dentro dos padrões, como Bo, não poderia se relacionar com alguém como ela. Essa crença é reforçada quando uma das candidatas a miss convida Bo ao baile da escola. Para Paim (2019), o contexto afetivo-sexual é mais um em que a gordofobia acontece, pois quando ocorre a comparação com os corpos socialmente aceitos, as pessoas gordas se percebem como indesejáveis, fadadas à solidão. Porém, tanto o gosto por determinados tipos de corpos, quanto a repulsão à própria imagem são elementos aprendidos, ensinados e incorporados socialmente.

Fonte: https://bit.ly/2ZRI0fm

A pós-modernidade tem como características o enfraquecimento de ideologias e laços afetivos, e a valorização da aparência e as modificações corporais, para as quais são ofertadas um grande número de possibilidades. Essas opções, no entanto, tornam o indivíduo cada vez mais responsável pela própria aparência, fazendo da individualidade outra característica da nossa época. A responsabilidade e as dificuldades em controlar os critérios relacionados à aparência são, portanto, causadores de um grande mal-estar (MARCELJA, 2016).

Contrariar esses critérios foi, possivelmente, a peça chave para a jornada de Will rumo à autoaceitação. Ao conhecer os amigos de sua tia e o “clube” em homenagem à cantora Dolly Parton, Will teve a oportunidade de contrariar a lógica do individualismo pós-moderno, sendo acolhida e empoderada através da ajuda de pessoas que também vivenciam realidades de exclusão. O apoio, a união e o encorajamento possibilitaram a participação de Will e suas amigas no desfile, que se transformou também em um espaço de fala e protesto.

Se quiser o arco-íris, vai ter que passar pela chuva.
Dolly Parton

Fonte: https://bit.ly/2ZWBGDe

As questões relacionadas à gordura são tratadas no filme de forma ampliada, focando nos vários âmbitos da vida de Will, denotam a delicadeza da narrativa de Dumplin’. O que poderia ser só mais um filme adolescente tratando questões sérias de forma gordofóbica, se revela uma narrativa envolvente que aborda questões políticas e filosóficas de maneira contundente, e ao mesmo tempo leve. A grande questão não se trata de ser “fofinha” ou não, ser gorda ou não. A grande questão se trata do que isso significa para quem fala ou escuta esses termos, e Dumplin’ ilustra muito bem esse significado: luta, poder e liberdade.

FICHA TÉCNICA DO FILME:

DUMPLIN’

Título original: Dumplin’
Direção: Anne Fletcher
Elenco: Danielle Macdonald, Jennifer Aniston, Luke Benward, Odeya Rush;
País: EUA
Ano: 2019
Gênero: Drama, comédia

REFERÊNCIAS:

GOLDHILL, Simon.  Amor, sexo & tragédia: Como os gregos e romanos influenciam nossas vidas até hoje. Rio de Janeiro: Carlos Zahar Ed., 2007. 2016. Disponível em: < http://zip.net/bstJr8 > Acesso em 01 maio 2019.

MATTOS, Rafael da Silva; LUZ, Madel Therezinha. Sobrevivendo ao estigma da gordura: um estudo socioantropológico sobre obesidade. Physis,  Rio de Janeiro ,  v. 19, n. 2, p. 489-507,    2009 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312009000200014&lng=en&nrm=iso>. access on  01  May  2019.

MARCELJA, Karen Grujicic . Gordura e Feminilidade Apontamentos sobre Beleza e Inclusão na Cultura Contemporânea: Apontamentos sobre Beleza e Inclusão na Cultura Contemporânea. São Paulo: Ppgcom Espm, 2016. 15 p. Disponível em: <http://anaiscomunicon2016.espm.br/GTs/GTPOS/GT9/GT09KAREN_MARCELJA.pdf>. Acesso em: 03 maio 2019.

MORTOZA, A. S. A Obesidade Como Expressão de Questão Social: Nutrição e Estigma. Brasília, 2011.

PAIM, Marina Bastos. Fat Bodies Deserve to Be Lived. Revista Estudos Feministas, v. 27, n. 1, 2019. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-026X2019000100804&script=sci_arttext&tlng=pt>.

ROSSATTO, Isaura de Bortoli et al. O Corpo Masculino Perfeito: influências greco-romanas clássicas no ideal moderno. 2016. Disponível em: <https://encenasaudemental.com/post-destaque/o-corpo-masculino-perfeito-influencias-greco-romanas-classicas-no-ideal-ocidental-moderno/>. Acesso em: 01 maio 2019.

VASCONCELOS, Naumi A. de; SUDO, Iana; SUDO, Nara. Um peso na alma: o corpo gordo e a mídia. Revista mal-estar e subjetividade, v. 4, n. 1, 2004. Disponível em: < https://www.redalyc.org/html/271/27140104/>. Acesso em: 01 maio 2019.