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Coraline e o mundo secreto: filosofia das formas e Psicanálise do Desejo

O filme Coraline, de 2009, narra uma história que, sob aparência de fantasia infantil, toca em assuntos filosóficos e dilemas psicológicos intrinsecamente humanos. A história se inicia com a mudança da família de Coraline para um casarão isolado. O ambiente envolta do chamado “Castelo Rosa” é úmido e enlameado. A casa é antiga, sua decoração está desmanchando e a maioria dos cômodos têm desordem. Seus pais estão em constante dedicação ao trabalho, e a relação de cuidado para com a filha é deixada em segundo plano. O novo lar de Coraline não é apenas lúgubre, mas uma representação do caos se declinando lentamente sobre sua vida e varrendo para longe suas expectativas.

 No correr do filme, a menina encontra um “Outro mundo” muito semelhante ao seu, mas que causa choque e estranheza inicial. Apesar disso, o Outro mundo vai se revelando aos poucos como uma realização de tudo aquilo que a personagem sente falta em sua vida cotidiana, como um espelho invertido criado pelas ilusões de alguém que ouvia suas queixas e estava atento às lacunas profundas do seu coração. Neste lugar recém encontrado, há uma iluminação acolhedora, a sua casa está bem decorada, seus pais estão felizes e à disposição. Há cuidado, encanto e, principalmente, há ordem. E ordem, segundo o psicólogo contemporâneo Jordan Peterson (2019) “é um lugar em que o comportamento do mundo se iguala às nossas expectativas e nossos desejos; o lugar em que todas as coisas acontecem como queremos”. Contudo, a beleza nesse lugar ideal é como faróis brilhantes que atraem a jovem para uma armadilha predatória mortal que ela nem imagina.

 Inicialmente, a protagonista não sabe se está vivendo de fato essa experiência ou se tem apenas sonhado. Platão, em sua teoria das Formas, afirma que o mundo sensível é apenas uma cópia imperfeita de um mundo inteligível, eterno e perfeito. Essa mesma confusão, apresentada no filme, nos faz intuir junto com Coraline que finalmente surgiu algo mais elevado a se alcançar, um ideal platônico na forma de família perfeita, pais atenciosos, comidas deliciosas, cores vibrantes e atrações centradas nos próprios desejos da personagem. Mesmo com a atmosfera suspeita e os claros alertas recebidos diretamente da realidade, como quando o sr Bobinsky repassa a informação de que ela não deveria voltar ao outro mundo, a protagonista retorna, pois a realidade é frustrante demais para ser suportada.

Coraline se coloca em risco pelo desejo de continuar sonhando, relativizando as estranhezas e se voltando para a utopia. Já o gato, figura ambígua e misteriosa que sonda tudo e transita entre a realidade e a fantasia, afirma audazmente que “eu não sou outro nada, eu sou eu”. Ele não é uma caricatura criada para agradar a personagem, ele é uma âncora que consegue se manter íntegro frente aos encantos forjados, demonstrando a todo momento que sabe mais do que nós, não fazendo questão de ser um salvador, mas, talvez, de revelar o caminho seguro por onde tem andado. Ademais, já no ponto crítico do enredo, revela o porquê da farsa criada pela vilã não se estender para além do ambiente da casa de Coraline, pois, segundo ele, qualquer outra parte daquele mundo estaria vazia, já que a vilã só teria criado aquilo que impressionaria Coraline, mostrando quão refinado era a armadilha que todos havíamos caído. 

Quando encontra as primeiras vítimas da falsa mãe, elas dizem a Coraline que foram espionadas, “Ela (a vilã) viu que não éramos felizes, então nos atraiu com tesouros e guloseimas (…) ela dava tudo que queríamos e, ainda sim, queríamos mais”. Lacan (1988), descreve que o sujeito é marcado por uma falta estrutural, um vazio que nunca pode ser plenamente preenchido. Nesse sentido, o outro mundo seria um objeto lacaniano que desperta o desejo com a promessa de satisfação e completude. Porém, Lacan insiste: o objeto nunca entrega o que promete. A “Outra mãe” de Coraline representa o engano do desejo, apesar de apresentar tudo que a protagonista quer, exige em troca sua identidade, sua antiga realidade e, por fim, sua própria vida.

Ficha técnica:

Título: Coraline (no Brasil: Coraline e o Mundo Secreto; em Portugal: Coraline e a Porta Secreta)

Ano de lançamento: 2009

Direção: Henry Selick

Roteiro: Henry Selick (baseado no livro homônimo de Neil Gaiman)

Direção de arte: A produção foi realizada pelo estúdio Laika, com cenários e personagens criados em stop-motion; a direção de arte é creditada ao próprio Henry Selick e à equipe de design do estúdio, responsável pela estética artesanal e sombria do filme.

País de origem: Estados Unidos

Duração: 100 minutos

Referências: 

PETERSON, Jordan B. 12 regras para a vida: um antídoto para o caos. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Alta Books, 2019.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

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