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O Que Ficou Para Trás: trauma, narrativa e imigração

O horror, enquanto gênero cinematográfico, frequentemente serve como um espelho deformado das ansiedades sociais e psicológicas. Ele utiliza o fantástico para dar forma a medos que, de outra maneira, permaneceriam abstratos ou indizíveis. Nesse panteão, o filme O Que Ficou Para Trás (His House, 2020), dirigido por Remi Weekes, se destaca de maneira singular. A obra transcende os artifícios do susto fácil para operar, simultaneamente, como um visceral filme de terror e como um profundo estudo clínico sobre o impacto psíquico da migração forçada.

A narrativa acompanha Bol e Rial, um casal de refugiados do Sudão do Sul que, após uma travessia traumática pelo mar, recebe asilo condicional no Reino Unido. Eles são alocados em uma casa decrépita e recebem regras estritas de assimilação: devem provar que são “bons” imigrantes, gratos e adaptáveis. Contudo, a casa que deveria ser um santuário se revela habitada por uma presença maligna, um “Apeth” ou “bruxo da noite”, que os atormenta com visões de sua filha falecida, Nyagak.

A história de Bol e Rial é visceralmente centrada em um trauma de primeira geração. O horror não emerge de um passado familiar distante, mas da travessia violenta, da escolha trágica feita no barco superlotado e da consequente morte de Nyagak. O modo como esse evento singular atravessa suas vidas, suas práticas culturais e os sistemas institucionais que os cercam revela dimensões complexas, que ultrapassam a dicotomia simples entre vítima e algoz, ou entre sanidade e loucura.

O núcleo traumático pertence inteiramente a Bol e Rial. A assombração não é um legado herdado, mas uma dívida contraída. Ainda que o sofrimento do casal vá, inevitavelmente, produzir consequências relacionais e familiares duradouras caso tivessem outros descendentes, a fonte concreta do horror no filme é um episódio limítrofe, uma escolha moralmente devastadora vivida diretamente pelos protagonistas. O Apeth não é um fantasma do passado familiar; é o cobrador de uma dívida pessoal.

Dessa forma, torna-se mais fecundo e clinicamente relevante ler o filme através de uma lente sistêmica e narrativa. A obra ilumina o que acontece quando a imigração é entendida como uma colisão de realidades construídas. Seguindo a premissa construcionista de que a realidade é um produto social, O Que Ficou Para Trás opera em pelo menos dois regimes de conhecimento distintos e incompatíveis, que disputam o sentido da experiência do casal.

O primeiro regime é o sistema institucional britânico. Este é o mundo dos assistentes sociais, como Mark, dos profissionais de saúde e dos vizinhos. É um sistema secular, burocrático e, em sua essência, patologizante. Dentro dessa lógica, o sofrimento de Bol e Rial é imediatamente enquadrado como sintoma psiquiátrico: Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT), psicose, alucinações de luto ou, simplesmente, a dificuldade de adaptação cultural.

A falha de tradução entre esses mundos é explícita. Na cena da avaliação médica, o médico sequer olha para Bol enquanto diagnostica seu sofrimento como derivado de “dentes ruins”. Na entrevista com o assistente social, a angústia é lida como ingratidão. A avaliação clínica legitima uma narrativa de patologia individual e impõe uma solução clara: a assimilação. Para serem aceitos, para “pertencerem”, eles precisam apagar quem são e se tornarem “legíveis” para o sistema de acolhida.

O segundo regime é o sistema cultural de Bol e Rial: a cosmologia Dinka, a figura do Apeth e as obrigações espirituais com os mortos. Para eles, ou ao menos inicialmente para Rial, as aparições que assombram a casa não são meras alucinações ou metáforas do luto. O Apeth é uma entidade real, uma presença moral que exige reconhecimento e reparação pela transgressão cometida para garantir a sobrevivência.

Nesse regime, o problema não é psicológico, mas ético e espiritual. O Apeth não quer tratamento; ele quer justiça. A casa está assombrada não porque Bol e Rial estão “doentes”, mas porque eles carregam uma dívida moral que precisa ser paga. A solução, dentro dessa cosmologia, não é esquecer, mas sim realizar o ritual adequado de luto e reparação.

O conflito central do filme, portanto, é a luta de Bol e Rial entre essas duas ordens simbólicas divergentes. A casa se torna o território físico onde essa guerra de narrativas acontece. O horror emerge precisamente da impossibilidade de reconciliar essas duas “realidades”.

Bol, desesperado para ser aceito, adota a primeira narrativa: a da assimilação radical. Ele tenta se tornar o “bom” imigrante que o sistema exige. Em cenas que materializam essa tentativa de adaptação, Bol queima seus pertences antigos, incluindo fotos de Nyagak. Ele força Rial a usar talheres, proíbe que ela fale sua língua nativa e tenta cantar músicas de torcidas de futebol inglesas. Ele tenta, ativamente, apagar sua história para se tornar “legível” e “curado” aos olhos do sistema de acolhida.

Essa tentativa falha catastroficamente. Ao negar sua própria cosmologia, Bol não apenas ignora que o trauma e o sentido atribuído a ele não residem apenas em memórias individuais, mas também dá ao Apeth mais poder. A casa, como metáfora de sua psique, começa a apodrecer por dentro. A negação não cura a ferida; apenas a infecta.

Rial, por outro lado, inicialmente se agarra ao segundo regime, o cosmológico. Ela entende a lógica do Apeth e aceita a narrativa da dívida. Ela se recusa a usar talheres, senta-se no chão para comer e mantém viva a memória de sua cultura. Contudo, essa submissão também é uma armadilha. A narrativa do Apeth oferece a ela uma troca tentadora: entregar Bol à entidade em troca de ter Nyagak de volta. Submeter-se completamente a essa narrativa significa aceitar a culpa como identidade definitiva, aprisionando-a em um passado sem futuro.

É aqui que a ótica da terapia narrativa, desenvolvida por Michael White e David Epston, oferece uma clareza clínica notável. A terapia narrativa postula que as pessoas organizam suas vidas através de histórias ou narrativas. O sofrimento psíquico emerge quando as pessoas ficam presas em “narrativas dominantes” que são problemáticas, opressoras ou “rasas”.

O filme ilustra perfeitamente essa dinâmica. Bol e Rial estão presos entre duas narrativas dominantes opressoras. A primeira é a narrativa institucional britânica: “Vocês são refugiados traumatizados e doentes; esqueçam seu passado, assimilem-se e sejam gratos para serem curados”. Essa narrativa os reduz à condição de vítimas passivas e patológicas.

A segunda é a narrativa dominante do Apeth: “Vocês são assassinos que roubaram um lugar; vocês são culpados e devem pagar com suas vidas”. Essa narrativa os reduz à condição de perpetradores absolutos, indignos de viver. Ambas as histórias, embora opostas, são igualmente “rasas” porque reduzem a complexa e trágica experiência de sobrevivência a uma única morfologia explicativa, sem espaço para nuances, agência ou um futuro.

Uma das técnicas centrais da terapia narrativa é a “externalização do problema”. White e Epston sugeriam que “a pessoa não é o problema; o problema é o problema”. Ao externalizar, o terapeuta ajuda o cliente a ver o problema (seja ele a “Culpa” ou a “Anorexia”) como uma entidade separada de sua identidade. O Que Ficou Para Trás faz isso literalmente: o Apeth é a externalização da culpa, da dor e da dívida moral. O casal não é reduzido ao que lhes acontece; o problema ganha corpo, nome e voz.

As cenas de conflito doméstico articulam esse impasse narrativo. A casa permanece assombrada porque nenhuma das soluções (a negação de Bol ou a submissão de Rial) consegue reescrever a história de forma integradora. Ambas são tentativas fracassadas de encontrar o que White e Epston chamariam de “resultados únicos” (unique outcomes), momentos em que os clientes conseguem agir de forma que contradiz a narrativa dominante do problema.

O clímax do filme oferece, então, uma poderosa forma de “re-autoria” (re-authoring) narrativa. A re-autoria é o processo de co-construir uma nova narrativa, mais “espessa” (thick description), que inclua os “resultados únicos” e permita uma nova identidade.

Isso acontece quando Bol, finalmente, confronta a verdade. Ele confessa a Rial a escolha que fez: no caos da travessia, para salvar a si mesmo e a Rial, ele permitiu que Nyagak (que na verdade não era sua filha, mas outra criança que se agarrou a eles) fosse jogada ao mar. Ele nomeia o trauma. Em vez de erradicar o problema (como tentou pela assimilação) ou sucumbir a ele (como o Apeth exigia), Bol encontra uma nova relação com o passado.

Ele reconhece o Apeth, reconhece a dívida, mas se recusa a ser definido pela narrativa de culpa absoluta. Ele escolhe viver com a lembrança, mas recusa a identidade de “assassino”. Ele oferece a própria carne ao Apeth, mas Rial intervém, escolhendo o presente (Bol) em vez da promessa do passado (Nyagak). Juntos, eles enfrentam a entidade. Essa posição corresponde ao re-autoramento, e é visualmente simbolizada quando Bol reconhece Nyagak não como um fantasma vingativo, mas pelas lembranças que havia tentado apagar.

A cena final é a materialização dessa nova narrativa. O assistente social retorna e encontra a casa reparada, embora visivelmente remendada. Os fantasmas, como Bol explica, ainda estão ali. “Nós vivemos com eles”, diz Rial. Eles não “curaram” o trauma no sentido médico de erradicá-lo. Eles o integraram. Eles co-construíram uma história espessa o suficiente para conter a dor da perda, a culpa da sobrevivência e o direito a um futuro.

Clinicamente, O Que Ficou Para Trás convida a mudanças profundas na prática terapêutica, especialmente no trabalho com populações migrantes e traumatizadas.

Primeiro, o filme demonstra a violência da “escuta patologizante”. Há uma necessidade urgente de uma prática clínica que não desvalorize cosmologias e sentidos culturais ao enquadrá-los imediatamente como superstição, delírio ou patologia. Ainda que avaliações médicas e intervenções psicossociais sejam necessárias, tratá-las como as únicas vozes legítimas conduz à invalidação, ao isolamento e ao fracasso terapêutico, como visto na trajetória inicial de Bol.

Segundo, o filme ressalta a imensa utilidade de técnicas que externalizam o problema e promovem re-autorias narrativas. A intervenção eficaz não seria forçar Bol a “aceitar a realidade” (a realidade britânica), nem validar a cosmologia Dinka como a única verdade. Seria permitir que a história complexa do sujeito seja contada em suas múltiplas camadas, reconhecendo a culpa, a perda, a dor da sobrevivência e a agência em meio a escolhas impossíveis, sem reduzir o sujeito a nenhum desses registros isolados.

Em suma, O Que Ficou Para Trás não apenas dramatiza um trauma extremo de forma assustadora. Ele problematiza fundamentalmente como as sociedades recebentes, e, por extensão, os sistemas de saúde mental interpretam, diagnosticam e tentam “consertar” feridas profundas que pertencem a outras ordens simbólicas.

O filme desloca a questão do tratamento para a questão da compreensão e do sentido. Não se trata apenas de curar sintomas com medicação ou assimilação, mas de reconhecer e possibilitar novas narrativas que honrem o passado sem condenar o futuro. Dessa forma, a obra permanece como um convite ético e clínico poderoso: um chamado para repensar intervenções, integrar saberes, validar sentidos e co-construir narrativas que permitam aos sobreviventes viver com o que ficou para trás, sem que isso signifique ser eternamente definido por aquilo.

Ficha técnica completa

Título His House (Original)
Ano produção 2020
Dirigido por Remi Weekes
Estreia 30 de Outubro de 2020 ( Brasil )
Duração 93 minutos
Classificação  18 – Não recomendado para menores de 18 anos
Gênero Drama Terror Thriller
Países de Origem Reino Unido

Sinopse

Depois de sentir os horrores do Sudão devastado pela guerra, um casal de refugiados tentam recomeçar a vida em Londres mas encontram algo ainda mais assustador, e não é deste mundo, em sua nova casa.

 

Referências

BOWEN, Murray. Family Therapy in Clinical Practice. New York: Jason Aronson, 1978.

BERGER, Peter L.; LUCKMANN, Thomas. A construção social da realidade: tratado de sociologia do conhecimento. 26. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

WEEKES, Remi. His House (O Que Ficou Para Trás). Reino Unido: Netflix, 2020. Filme.

WHITE, Michael; EPSTON, David. Narrative Means to Therapeutic Ends. Adelaide: Dulwich Centre Publications, 1990.

 

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