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Quando o afeto transforma: uma leitura psicossocial de Lilo & Stitch

O filme Lilo & Stitch é famoso e conhecido mundialmente, consolidando-se como uma das maiores animações da Disney. A obra não se destaca apenas por apresentar uma narrativa divertida e interessante para as crianças, mas também por abordar temas importantes, como luto e perda, relações familiares, amadurecimento precoce, aceitação das diferenças e o papel do serviço social na proteção infantil.

Nos momentos iniciais do filme, somos apresentados a Lilo, uma garotinha de 6 anos, esperta e com comportamento peculiar. Diante da interação que a personagem tem com outras crianças da sua idade, entende-se que Lilo sofre bullying, rejeição e exclusão por parte das suas colegas, que a chamam de esquisita por apresentar um comportamento diferente das demais. Em dado momento, Lilo acaba se irritando com um insulto que uma de suas colegas fez consigo e acaba a agredindo fisicamente. Logo em seguida, o professor responsável pela turma senta-se para conversar com Lilo e, diante da fala dele, percebe-se que a menina vem apresentando problemas de comportamento já há algum tempo.

Ao analisar o comportamento de Lilo, inicialmente podemos interpretá-lo apenas como indisciplina e rebeldia. Porém, nos momentos seguintes do filme, é revelado que a garotinha perdeu ambos os pais recentemente em um acidente de carro, enfrentando por um processo de luto. Sua irmã mais velha, Nani, de 19 anos, torna-se a responsável legal de Lilo e se esforça muito para conseguir manter a casa e cuidar de sua irmã mais nova; porém, as duas têm diversos conflitos.

O luto é uma experiência que acarreta muito sofrimento em quem o vivencia. São vários os sentimentos que podem surgir durante esse processo: raiva, tristeza, solidão e angústia. O comportamento apresentado por Lilo durante o filme evidencia que a garotinha está passando por esse processo difícil, tentando assimilar e aceitar que seus pais não estão mais presentes em sua vida e que tem somente sua irmã agora. Considerando que Lilo tem apenas 6 anos de idade, ainda estando em desenvolvimento e formação cognitiva, esse processo torna-se muito mais complexo, pois ela perdeu os pais, suas maiores referências de afeto, amor e cuidado, podendo gerar sentimento de desamparo e abandono.

Do outro lado, há Nani, a irmã mais velha, mas que tem apenas 19 anos e precisa assumir uma enorme responsabilidade muito cedo, sendo obrigada a amadurecer precocemente e a assumir os cuidados pela irmã mais nova. Nani, além de já estar passando por seu próprio processo de luto, pois, assim como Lilo, também perdeu os pais, precisa assumir o papel de provedora da casa. A rotina de trabalho e o cuidado com Lilo causam grande sobrecarga, tanto física quanto emocional. O comportamento de Lilo, recorrentemente se metendo em encrencas, dificulta muito as coisas.

Em meio a isso, entra o personagem Stitch, um experimento criado pelo cientista alienígena Dr. Jumba Jookiba com a finalidade de ser invencível e destruir tudo o que toca. Em meio a uma fuga das autoridades alienígenas, Stitch acaba no planeta Terra e, para manter o disfarce e fugir da polícia intergalática, passa-se por um cachorro e vai parar em um canil. Nessa trama, Nani decide levar Lilo a um canil para adotar um bichinho de estimação e lhe fazer companhia, já que a menina estava se sentindo muito solitária. Lilo escolhe Stitch para ser seu bichinho de estimação; apesar da estranheza do “cachorro” e de suas óbvias diferenças em relação a um cachorro “normal”, é exatamente isso que atrai Lilo a escolhê-lo.

Em análise à escolha de Lilo, pode-se compreender que justamente as diferenças de Stitch fazem com que Lilo sinta-se mais compreendida, pois ele, assim como ela, foge dos padrões de “normalidade” que são impostos aos dois.

O comportamento inicial de Stitch diante de Lilo e dos habitantes da Terra ocorre de maneira caótica e destrutiva, algo compreensível, considerando que o ser alienígena é, literalmente, um bebê que acabou de ser criado e não conheceu nenhuma forma de carinho e afeto. Entende-se que sua criação teve como objetivo levar a destruição e o caos por onde passa, muitas vezes colocando a vida de Lilo em risco e fazendo com que Nani não tenha a estabilidade financeira necessária, pois é demitida constantemente devido às enrascadas em que os dois se metem. Isso acaba deixando Nani em uma posição complicada com o conselho tutelar, que está averiguando a situação de perto para garantir que Lilo esteja segura e recebendo os devidos cuidados que uma criança deve receber.

O filme também nos fornece uma visão do trabalho do Serviço Social. Vemos que Nani ama a irmã e se esforça muito para cuidar dela; porém, um lar seguro para uma criança não envolve somente parentes e responsáveis amorosos, mas uma série de responsabilidades que garantam a integridade física e mental da criança.

Ao decorrer do tempo que passa com as duas irmãs, Stitch vai aprendendo sobre relações de afeto, amizade e pertencimento, afeiçoando-se verdadeiramente a Lilo e entendendo o significado de família, reconhecendo que Lilo e Nani são sua família e que seu desejo passa a ser cuidar e proteger, não mais causar o caos e a destruição.

Como é característico das produções da Disney, a obra apresenta um final feliz, conseguindo transmitir não só uma história divertida e empolgante, como também várias mensagens importantes e emocionantes a respeito das relações, dos processos de luto e do pertencimento. Lilo, com seu comportamento muitas vezes indisciplinado, buscava compreender seus sentimentos e lidar com a repentina ausência dos pais; Nani lidava com seu próprio luto ao mesmo tempo em que aprendia a lidar com sua nova realidade de cuidar e ser responsável por uma criança, entendendo que tal tarefa vai muito além de conseguir prover um teto e alimentação; já Stitch aprende que o amor, o afeto e o cuidado podem ser transformadores e capazes de ressignificar seus comportamentos e sua maneira de ver o mundo.

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