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O eco de quem fica: amor, luto e criação em Look Back

Assistir Look Back, dirigido por Kiyotaka Oshiyama, foi para mim mergulhar em um tipo de melancolia que não abre espaço para muitas interpretações, ela simplesmente cai sobre nós. O luto e a sensação de onipotência sentida por Fujino foram terrivelmente compreendidos por mim, o filme traduz de maneira visceral esse movimento psíquico de acreditar, ainda que por um segundo, que poderíamos ter evitado o pior, como se a tragédia dependesse exclusivamente de nós. Essa onipotência infantil, tão presente em quem vive perdas traumáticas, é filmada com uma precisão emocional que não deixa escapatória, não há fantasia capaz de apagar o que aconteceu. 

O filme trabalha essa ausência de fuga com uma honestidade rara. A fantasia e a imaginação, que poderiam funcionar como um espaço de reparação ou de consolo, não são libertadoras aqui. O mundo criado pelos desenhos não protege Fujino, não a anestesia, não devolve aquilo que foi perdido. É justamente o contrário do que ela e Kyomoto faziam juntas, quando o ato de desenhar era existir juntas. Depois da tragédia, a imaginação deixa de ser um território compartilhado e se transforma em abismo, um lembrete de que, sozinha, Fujino não pode escapar da realidade.

A existência das duas parecia encaixar-se de modo tão orgânico que, quando Kyomoto se torna ausente, o que se quebra não é apenas a parceria, mas a própria estrutura interna que Fujino usava para se enxergar. Oshiyama cria isso com delicadeza, a forma como Fujino observa seu próprio trabalho perder sentido não é só luto pela amiga, mas também luto pelo “eu” que existia apenas na presença dela.

Look Back entende profundamente esse momento de ruptura, quando somos obrigados a reconhecer que o mundo não gira ao redor da imagem idealizada que fazemos de nós mesmos. O modo como Oshiyama constrói a passagem do tempo, o silêncio, a culpa, o desespero, mostra que é preciso quebrar algo dentro da gente para que possamos amar o outro como outro, e não como extensão de quem somos.

E isso é o mais bonito do filme. Não a dor em si, mas o gesto íntimo de libertação que o tempo possibilita. Fujino não supera Kyomoto, não esquece o que aconteceu, não “cura” sua dor… ela simplesmente aprende a existir de forma menos amarrada ao narcisismo inicial, mais aberta ao mundo, mais permeável ao amor que nasce da perda, e não apesar dela. Look Back transforma a melancolia em passagem, não em prisão. E é isso que torna tudo tão profundamente humano. É lindo!

Ficha técnica do filme

Título: Look Back
Título original: ルックバック (Look Back)
Direção e Roteiro: Kiyotaka Oshiyama
Baseado no mangá de: Tatsuki Fujimoto
Estúdio: Studio Durian
Distribuição: Avex Pictures
Música: Haruka Nakamura
Ano: 2024
País: Japão
Duração: 60 min
Elenco (vozes):Yuumi Kawai – Fujino
Mizuki Yoshida – Kyomoto

 

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