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Paprika e a travessia do desejo: uma análise psicanalítica dos sonhos

Ao analisar o filme Paprika (2006), de Satoshi Kon, percebo que sua construção estética e narrativa oferece um campo interessante para pensar a linguagem dos sonhos na perspectiva psicanalítica. A possibilidade ficcional de acessar os sonhos por meio do dispositivo DC Mini dissolve, gradualmente, a fronteira entre o onírico e a vigília. Isso dialoga diretamente com aquilo que Freud (2019) compreende como função dos sonhos: uma via de acesso ao inconsciente, na qual desejos, restos diurnos e material recalcado reaparecem reorganizados pelo trabalho do sonho.

Ao observar sequências como o famoso desfile de bonecos, objetos e símbolos desconexos, reconheço ali uma expressão visual dos mecanismos freudianos de condensação e deslocamento, aqueles que Freud nomeia como “mestres artesãos” da formação onírica. Essa justaposição absurda e caótica reforça a concepção de que o sonho é deformação, montagem e compromisso psíquico.

Mas é quando leio o filme pensando em Lacan que a coisa realmente ganha outra camada. Lacan (1998) dizia que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e Paprika parece ter sido montado exatamente a partir dessa concepção. Nada ali funciona como símbolo fixo, tudo está em movimento, deslizando, se repetindo, se transformando em outra coisa. Os cenários mudam sem aviso, um corredor vira um circo, que vira um parque e assim sucessivamente.

A personagem Paprika, alter ego de Chiba dentro do sonho, é a personificação do desejo. Paprika é Chiba e não é Chiba. A forma como Paprika pode ser fada, sereia, detetive ou quem mais precisar ser é uma aula visual de metáfora lacaniana. O filme parece não ter medo de mostrar o inconsciente como ele é: fragmentado, poético e completamente rebelde às regras do senso comum.

O desejo, no filme, aparece de todos os jeitos e atravessa cada personagem. Em Tokita, ele surge como uma vontade exagerada de união total com o outro, em Chiba, aparece na liberdade e espontaneidade que Paprika representa, e, no Presidente, se manifesta como uma resistência intensa a tudo que é novo. Em sintonia com Sidarta Ribeiro (2019), que vê sonho e desejo quase como sinônimos, o filme deixa claro que o que se sonha é, inevitavelmente, o que insiste em nós. No mundo onírico, nada fica guardado para sempre. 

E, então, chega a parte em que tudo desanda. Os sonhos começam a invadir a realidade. A cena é tão caótica que parece um pesadelo coletivo, uma espécie de “e se o inconsciente resolvesse sair andando pela rua?”. A perda das bordas entre sonho e vigília mostra o risco do excesso de sentido.

Dessa forma, vejo Paprika como um filme que não apenas representa sonhos, mas que incorpora o próprio funcionamento da linguagem onírica. O filme evidencia a divisão subjetiva e torna visível tanto a potência quanto o risco presentes no discurso onírico quando as fronteiras simbólicas se desfazem. 

No final, percebo que Paprika é mais do que uma obra sobre sonhos, é um convite para entrar no próprio modo como o inconsciente fala. Um convite para testemunhar a beleza e o perigo de um mundo onde a linguagem se desprende das amarras do real. E, acima de tudo, um lembrete de que o sonho, como dizia Lacan, não vem para ser decifrado como um enigma fechado, mas para ser lido como acontecimento de linguagem, sempre vivo, sempre em movimento.

REFERÊNCIAS:

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos (1900). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

LACAN, Jacques. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Tradução de M. D. Magno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.

RIBEIRO, Sidarta. O oráculo da noite: a história e a ciência do sonho. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

Ficha técnica do filme

Título: Paprika
Título original: パプリカ (Papurika)
Direção: Satoshi Kon
Roteiro: Seishi Minakami (baseado no romance de Yasutaka Tsutsui)
Ano: 2006
País: Japão
Gênero: Animação, Ficção científica, Psicológico
Duração: 90 minutos
Estúdio: Madhouse
Música: Susumu Hirasawa

Imagens: Pinterest

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