(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

Kiznaiver e o paradoxo da dor como fundamento da humanidade

Compartilhe este conteúdo:

Kiznaiver é um anime que se propõe a discutir o que significa sentir dor e como isso nos conecta uns aos outros. A história se passa em Sugomori City, uma cidade experimental criada artificialmente para servir como laboratório social. À primeira vista, ela parece comum, mas, na verdade, é o palco de um grande experimento: o Projeto Kizna, que conecta jovens através de um sistema capaz de compartilhar tanto dores físicas quanto emocionais. Essa ideia funciona como metáfora para a busca de uma empatia radical baseada na ideia de que, se todos pudessem sentir o que o outro sente, talvez a violência e os conflitos desaparecessem.

Os sete personagens, ao longo da trama, descobrem que não estão dividindo apenas cortes, quedas ou ferimentos. Eles passam a compartilhar também dores muito mais profundas, como rejeição, solidão, insegurança, traumas de infância e medos que normalmente ficariam escondidos. Essa partilha os obriga a confrontar sentimentos que cada um tentava evitar, e é justamente nesse processo que surgem vínculos intensos, mas também tensões psicológicas violentas. O anime mostra que dividir a dor pode aproximar, mas também expõe fragilidades que podemos não estar prontos para enfrentar.

Entre todos os personagens, Katsuhira Agata é o mais emblemático. Ele foi uma das primeiras crianças usadas nos experimentos do Projeto Kizna e, como consequência, perdeu a capacidade de sentir dor física. Essa condição não é apenas biológica, mas também psicológica, Katsuhira vive em um estado de apatia, incapaz de reagir emocionalmente ao mundo ao seu redor. Sua trajetória simboliza o dilema central da obra de que, sem dor, não há empatia; sem empatia, não há humanidade. Ao decorrer do enredo, ele aprende que sentir, mesmo que doa, é essencial para dar sentido à própria existência.

A filosofia do projeto é expressa em uma frase que se torna quase um manifesto dentro da obra: “Porque não conhecemos a dor do outro, se pudéssemos compartilhar nossa dor e sofrimento com os outros, não aconteceria brigas.” Essa ideia traduz uma utopia que é possível que haja um mundo onde a empatia seria tão intensa que não existiria espaço para violência ou egoísmo. Mas o anime também mostra o lado ambíguo dessa proposta. Compartilhar dor pode unir, mas também pode sufocar, gerar ressentimento ou revelar verdades que não queremos encarar. O Projeto Kizna, nesse sentido, é uma crítica à tentativa de criar soluções artificiais para problemas humanos complexos. A empatia não pode ser forçada por tecnologia; ela precisa ser cultivada de forma genuína. O anime nos provoca a pensar se realmente seria possível viver em um mundo sem conflitos apenas compartilhando o sofrimento ou se, na verdade, é a vulnerabilidade que nos torna humanos.

Ficha técnica: 

Título: Kiznaiver

Direção: Hiroshi Kobayashi

Roteiro: Mari Okada

Produção: Masahiko Ōtsuka, Yōsuke Toba, Masayuki Nishide

Direção de arte: O anime foi produzido pelo estúdio Trigger, responsável pela direção artística e visual

Ano de lançamento: 2016

País de origem: Japão

Episódios: 12 no total

Tempo médio por episódio: 24 minutos.

Compartilhe este conteúdo:
Sair da versão mobile