Dores físicas causadas pela mente: Psiquiatra esclerece as principais dúvidas sobre a Psicossomática

O aspecto principal de transtornos somatoformes é a apresentação repetida de sintomas físicos juntamente com solicitações persistentes de investigações médicas

A Psicossomática estuda as relações mente-corpo com ênfase na explicação psicológica da patologia somática, uma transcrição para a linguagem psicológica dos sintomas corporais (FREUD, 1913). A Psicanálise continua sendo uma psicologia em função do inconsciente, um método de investigação da mente e uma atividade terapêutica. O que constitui Freud um profissional engajado e percursor da interdisciplinaridade.

Além da doença psicossomática instalada por meio de um transtorno neurótico e uma lesão orgânica, existem considerações em base de sintomas de origem psicogênica estudados por meio de um grupo de neuroses dentro da classificação de transtornos mentais ou de comportamentos, conhecidos como transtornos somatoformes. O aspecto principal de transtornos somatoformes é a apresentação repetida de sintomas físicos juntamente com solicitações persistentes de investigações médicas, com repetidos achados negativos e de reasseguramentos pelos médicos de que os sintomas não tem base física. Estes transtornos são acompanhados de sintomas relacionados a qualquer parte de sistemas do corpo, comumente sensações gastrintestinais, cutâneas anormais, queixas sexuais e menstruais são também comuns como a depressão e a ansiedade. O curso do transtorno é crônico e flutuante e com frequência está associado a rompimento duradouro do comportamento social, interpessoal e familiar.

Para falar mais sobre o assunto, segue a entrevista com Camila Campitelli, que possui graduação em Medicina pelo Instituto Tocantinense Presidente Antônio Carlos (ITPAC) e Residência Médica em psiquiatria pela Universidade de Brasília (UNB). Também tem especialização em Psiquiatria e em Saúde Mental e Atenção Psicossocial. Camila trabalha atualmente nos Centro de Atenção Psicossocial (CAPS II) e Hospital Geral de Palmas. É também Supervisora do Programa de Residência Médica em Psiquiatria da Universidade Federal do Tocantins- UFT.

 

(En)Cena – Qual a diferença entre doença psicossomática e transtorno somatoforme?

Camila Campitelli – Existe uma associação, que habitualmente usamos quando falamos de doenças psicossomáticas e relacionamos com transtornos somatoformes. Nos transtornos somatoformes, por exemplo, tem-se uma dor, mas não se tem uma origem orgânica daquela dor. Tem-se uma perda de movimento, mas não se tem um correspondente neurológico para aquela perda de movimento. Ela se divide em algumas categorias que são os transtornos somatoformes que se classificam, conforme o CID 10: Transtorno de somatização somatoforme indiferenciado, transtorno hipocondríaco, transtorno neurovegetativo somatoforme, transtorno doloroso somatoforme persistente, outros transtornos somatoformes e transtornos somatoformes não especificados. Tem alguns critérios para diagnosticar um transtorno, sendo necessário um ou mais sintomas somáticos que sendo feito uma avaliação apropriada, os sintomas não são explicados por uma condição médica em geral, ou essa condição médica não é suficiente para explicar os sintomas e nem é explicado por outro transtornos, além de estar presente por 6 meses. Tem que ter a doença e o prejuízo em decorrente a essa relação.

 

(En)Cena – A angústia está relacionada à psicossomática, no entanto, existe alguma outra causa que leve a este transtorno?

Camila Campitelli – Costuma ter algumas situações de tensão, de estresse emocional ou algum outro fator mais desencadeante. Então se tem situações emocionais onde a pessoa não consegue lidar com aquilo e tem que achar um correspondente no corpo. É diferente quando falamos de transtorno fictício, por exemplo, onde a pessoa provoca uma lesão em busca de um cuidado médico, geralmente é uma ferida que a pessoa manipula, ou um sangue que é colocado na urina, o intuito é psicológico, o benefício é estar doente e o cuidado e toda relação que se tem em estar doente. E ele é provocado, teve um paciente que pegava um pedra e batia no tórax e chegava no hospital com dor. Procurou-se a causa, mas nada era condizente com aquela patologia. Depois de um tempo, conhecendo melhor o paciente e dialogando com ela, a paciente afirmou que batia com a pedra no seu tórax. Já no transtorno somatoforme a pessoa sente uma dor (se fala em dor, pois é mais comum), não necessariamente ela provoca aquilo, só que a equipe médica não consegue identificar algo orgânica para aquela dor. Nesse caso, o próximo passo é a estrutura emocional, o diálogo com perguntas do tipo: Como está a relação em casa?  Aconteceu alguma coisa marcante? Quando que dói mais? Dói mais se está em casa? Piora quando tem mais pessoas ou quando não pessoas? Em que local dói mais? Procura saber como é o manejo desta pessoa que está sofrendo, mas muitas vezes, não consegue falar e por isso usa o adoecer do corpo para que equipe medica consiga representar.

 

(En)Cena – E sobre o diagnóstico e o prognóstico do paciente? Quem ou qual o grupo de pessoas que estariam mais vulneráveis a ter doenças psicossomáticas?

Camila Campitelli – É basicamente um diagnóstico clínico, usam-se exames para excluir a organicidade naquela questão. Se investiga aquela patologia, procura toda uma correlação onde deveria estar aquela alteração, mas não se consegue identificar.  Geralmente são pessoas que, para se fechar um diagnóstico, geram custos altos para o serviço de saúde pública e para a família, pois ela acessa o serviço diversas vezes devido as queixas e as dores, fazendo exames cada vez mais caros para se identificar a causa, submetendo-se até as cirurgias, muito comum em dores abdominais. Aí aparece outra questão que é a sequela desses procedimentos. São tipos de pacientes que quando percebem que aquela equipe médica está chegando ao diagnóstico de doença psicossomática, ela procura outras unidades e setores de saúde. Por isso é importante a comunicação e a relação estreita com a psicologia para ajudar a entender toda a dinâmica do paciente e não ficar centrado apenas na dor orgânica.

 

(En)Cena – Quais as principais Comorbidades?

Camila Campitelli – De forma geral são mais sintomas depressivos e quadros ansiosos.

 

(En)Cena – Sobre tratamento, o que poderia dizer que tem maior resultado atualmente?

Camila Campitelli – A psicoterapia para a pessoa entender toda essa dinâmica, para que ela consiga entender essa doença.  Não tem como dizer que a pessoa não tem nada, pois ela sente a dor. Ela não tem nada orgânico, mas tem toda uma demanda psicológica que ela precisa de ajuda para compreender do que se trata e conseguir lidar com aquilo e não se submeter a outros tratamentos como a cirurgia, por exemplo, que pode trazer consequências muito mais graves que aquela dor que ela está sentindo no momento. Também é muito importante o suporte da família.

 

(En)Cena – No dia a dia da sua atuação, tem se deparado com muitos pacientes com doenças psicossomáticas? Conhece dados que mensuram o aumento dos números de casos nos últimos anos? E qual a faixa etária predominante?

Camila Campitelli – Não tenho números exatos, mas esses casos são muito mais comuns dentro de hospital geral ou ambulatorial do que em consultórios particulares, pois a procura é pelo cuidado físico.  Há uma maior prevalência entre as mulheres. Não é apenas a faixa adulta que sofre com doenças psicossomáticas.  Há casos de crianças que, por exemplo, foram vítimas de violência. Geralmente casos mais graves começam com vômitos e dores.

 

(En)Cena – Como o paciente reage quando percebe que é uma doença psicossomática?

Camila Campitelli – Geralmente é um diagnóstico difícil, é um diagnóstico por exclusão através de exames e até cirurgias, até se chegar ao transtorno somatoforme. Tem que haver um cuidado ao relatar isso para o paciente, explicar bem como se chegou até esse diagnóstico e como se dará o tratamento. Por isso, é tão importante o trabalho em equipe e o suporte psicoterápico.

 

(En)Cena – Gostaria de comentar sobre algum caso em especial, que foi mais difícil, mais angustiante ou mais intenso de cuidar?

Camila Campitelli – Teve duas pacientes que chamaram bastante atenção. Uma chegou a fazer três a quatro cirurgias por dores abdominais e mais tarde foi diagnosticada com transtorno somatoforme e o outro caso foi transtorno fictício, o paciente procurou o hospital várias vezes, sempre com sintomas diferentes, mas acabou confessando que se machucava com uma pedra.

 

*Entrevista realizada como requisito da disciplina de Psicologia da Saúde do curso de Psicologia do Ceulp/Ulbra sob a orientação da Profa Me Izabela Almeida Querido.

 

REFERÊNCIAS:

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