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Adolescência: uma construção histórica sobre crescer

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Hoje, é comum falar da adolescência como se ela fosse uma fase evidente, natural e igual para todos. Em geral, ela é associada a mudanças corporais, instabilidade emocional, conflitos familiares, busca por identidade e maior necessidade de pertencimento. Essas transformações existem e não devem ser negadas. No entanto, compreender a adolescência apenas como resultado da puberdade ou como uma etapa universal de crise reduz a complexidade desse período. A forma como uma sociedade nomeia, interpreta e trata seus adolescentes também é construída historicamente, variando conforme os modos de organização da família, da escola, do trabalho, da ciência, da cultura e das políticas públicas (Frota, 2007).

Para compreender essa construção, é preciso lembrar que as fases da vida nem sempre foram reconhecidas da mesma maneira. Em diferentes períodos históricos, a passagem da infância para a vida adulta esteve relacionada à entrada no trabalho, ao casamento, à participação na vida comunitária ou a determinados rituais sociais. Com o fortalecimento da escolarização, das transformações familiares e das práticas modernas de cuidado e proteção, a adolescência passou a ser mais claramente diferenciada da infância e da vida adulta. Isso não significa que antes não existissem sujeitos jovens em processo de crescimento, mas que os sentidos atribuídos a esse momento da vida foram se modificando ao longo do tempo (Schoen-Ferreira; Aznar-Farias; Silvares, 2010).

A própria Psicologia participou desse processo ao transformar a adolescência em objeto de estudo, descrição e intervenção. Ao longo do século XX, essa fase passou a ser analisada a partir de mudanças físicas, cognitivas, emocionais, sociais e morais, o que contribuiu para reconhecer sua importância no desenvolvimento humano. Porém, essa mesma tradição também ajudou a consolidar certas imagens simplificadas do adolescente, frequentemente visto como alguém naturalmente rebelde, instável ou problemático. O problema não está em reconhecer que a adolescência envolve mudanças intensas, mas em transformar essas mudanças em explicações automáticas para todos os comportamentos adolescentes.

É nesse ponto que se torna importante compreender a adolescência como construção social. Bock (2007) critica as concepções que tratam esse período como uma fase naturalmente marcada por conflitos universais, sem considerar as condições concretas em que cada adolescente vive. Quando a adolescência é explicada apenas pela idade ou pelas alterações hormonais, corre-se o risco de apagar desigualdades sociais, relações familiares, experiências escolares, gênero, raça, território, trabalho, violência, cultura digital e possibilidades reais de participação. Desse modo, não existe uma única adolescência, vivida da mesma forma por todos. Existem adolescências, no plural, atravessadas por contextos diferentes e por oportunidades também desiguais.

Compreender historicamente a adolescência muda a forma como famílias, escolas, profissionais e políticas públicas se relacionam com os adolescentes. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente define adolescente como a pessoa entre 12 e 18 anos e reconhece crianças e adolescentes como sujeitos de direitos, em condição peculiar de desenvolvimento (Brasil, 1990). Essa definição jurídica não encerra o debate, mas ajuda a lembrar que a adolescência não é apenas uma fase biológica ou psicológica: é também uma categoria social, histórica e política. Olhar para o adolescente a partir dessa perspectiva significa deixar de vê-lo como um problema em formação e reconhecê-lo como sujeito em desenvolvimento, cuja trajetória depende não apenas de suas mudanças internas, mas também das condições que a sociedade oferece para que ele cresça, participe, pertença e construa sua própria história.

Referências

BOCK, Ana Mercês Bahia. A adolescência como construção social: estudo sobre livros destinados a pais e educadores. Psicologia Escolar e Educacional, Campinas, v. 11, n. 1, p. 63-76, 2007.

BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Brasília, DF: Presidência da República, 1990.

FROTA, Ana Maria Monte Coelho. Diferentes concepções da infância e adolescência: a importância da historicidade para sua construção. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 7, n. 1, p. 147-160, 2007.

SCHOEN-FERREIRA, Teresa Helena; AZNAR-FARIAS, Maria; SILVARES, Edwiges Ferreira de Mattos. Adolescência através dos séculos. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 26, n. 2, p. 227

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