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Gênero e saúde mental

As relações entre gênero e saúde mental constituem campo complexo e fundamental para a compreensão das diferenças epidemiológicas observadas entre homens e mulheres na prevalência, manifestação e tratamento de transtornos mentais. Dados epidemiológicos consistentemente demonstram que mulheres apresentam taxas aproximadamente duas vezes mais elevadas de transtornos depressivos e ansiosos em comparação a homens, enquanto homens apresentam maior prevalência de transtornos relacionados ao uso de substâncias e transtornos de personalidade antissocial. Estas diferenças não podem ser adequadamente compreendidas apenas através de explicações biológicas ou hormonais, mas devem ser analisadas considerando construções sociais de gênero, relações de poder, divisão sexual do trabalho, experiências diferenciadas de violência e discriminação e padrões distintos de socialização e expressão emocional. O conceito de gênero, diferentemente de sexo biológico, refere-se a construções socioculturais sobre o que significa ser homem ou mulher em determinado contexto, incluindo papéis, expectativas, normas e relações de poder que moldam experiências, oportunidades e vulnerabilidades relacionadas à saúde mental.

A sobrecarga feminina decorrente da dupla ou tripla jornada de trabalho constitui fator importante na compreensão das taxas mais elevadas de depressão e ansiedade entre mulheres. Em contextos onde desigualdades de gênero são acentuadas, mulheres frequentemente acumulam responsabilidades de trabalho remunerado, trabalho doméstico e cuidado de filhos e familiares, com limitado compartilhamento dessas tarefas por parceiros masculinos. Esta sobrecarga crônica, associada a menor reconhecimento e valorização do trabalho de cuidado, gera estresse persistente que impacta negativamente a saúde mental. Adicionalmente, mulheres no mercado de trabalho enfrentam barreiras específicas incluindo discriminação salarial, teto de vidro que limita ascensão profissional, assédio sexual e moral, e dificuldades de conciliação entre vida profissional e familiar, particularmente em contextos de políticas públicas insuficientes de apoio à maternidade e cuidados infantis.

A violência de gênero, incluindo violência doméstica, abuso sexual e assédio, constitui determinante fundamental da saúde mental feminina. Estatísticas alarmantes indicam que uma em cada três mulheres no mundo experimentará violência física ou sexual em algum momento da vida, predominantemente perpetrada por parceiros íntimos. No Brasil, feminicídios, estupros e outras formas de violência contra mulheres persistem em níveis elevados, refletindo uma cultura machista e patriarcal que naturaliza controle e violência masculina sobre mulheres. As consequências da violência de gênero para saúde mental são profundas e duradouras, incluindo desenvolvimento de TEPT, depressão, ansiedade, baixa autoestima, sentimentos de culpa e vergonha, dificuldades nos relacionamentos interpessoais e maior risco de suicídio. Mulheres que experienciaram violência sexual ou doméstica apresentam probabilidade significativamente maior de desenvolver transtornos mentais em comparação a mulheres não expostas a estas formas de violência.

Eventos específicos do ciclo reprodutivo feminino apresentam vulnerabilidades particulares para a saúde mental. A depressão pós-parto afeta aproximadamente 10% a 15% das puérperas, caracterizando-se por sintomas depressivos que surgem nas primeiras semanas após o parto e podem persistir por meses se não tratados adequadamente. Fatores de risco incluem história prévia de depressão, falta de suporte social e familiar, complicações obstétricas, dificuldades financeiras e gravidez não planejada. A síndrome pré-menstrual e o transtorno disfórico pré-menstrual afetam uma proporção substancial de mulheres em idade reprodutiva, caracterizados por sintomas físicos e emocionais que surgem na fase lútea do ciclo menstrual e interferem significativamente no funcionamento. A menopausa e período perimenopausa também constituem fases de vulnerabilidade aumentada para sintomas depressivos e ansiosos, relacionados tanto a alterações hormonais quanto a fatores psicossociais, como envelhecimento, mudanças na identidade e papéis sociais.

Masculinidades hegemônicas e normas tradicionais de gênero exercem impacto importante sobre a saúde mental masculina, frequentemente negligenciada em análises que enfatizam vulnerabilidades femininas. Uma socialização masculina que valoriza estoicismo, autossuficiência, controle emocional, competitividade e agressividade, enquanto desencoraja expressão de vulnerabilidade, busca de ajuda e demonstração de emoções consideradas “femininas”, como tristeza e medo, contribui para dificuldades de identificação e manejo de sofrimento psíquico entre homens. Homens apresentam menor propensão a reconhecer sintomas de transtornos mentais, buscar ajuda profissional e aderir a tratamentos, contribuindo para subtratamento e agravamento de quadros clínicos. Paradoxalmente, embora mulheres apresentem maior prevalência de transtornos depressivos, homens apresentam taxas mais elevadas de suicídio consumado, diferença frequentemente atribuída ao uso de métodos mais letais, menor busca de ajuda prévia e maior impulsividade.

O impacto do uso problemático de álcool e outras drogas apresenta diferenças de gênero importantes. Homens apresentam maior prevalência de transtornos por uso de substâncias, refletindo tanto aspectos biológicos quanto socioculturais, incluindo maior aceitação social do consumo masculino e associação entre consumo de álcool e construções de masculinidade em muitas culturas. Contudo, mulheres que desenvolvem problemas relacionados a substâncias frequentemente enfrentam maior estigma e julgamento moral, barreiras específicas para acesso a tratamento, incluindo responsabilidades de cuidado de filhos, e risco aumentado de violência e exploração em contextos de uso. Adicionalmente, mulheres tendem a apresentar progressão mais rápida de uso ocasional para dependência (fenômeno denominado “telescoping”) e maior vulnerabilidade a consequências médicas adversas do consumo de álcool.

A perspectiva de gênero na saúde mental exige reconhecimento de que existem não apenas diferenças entre homens e mulheres, mas também diversidade significativa dentro de cada grupo. Experiências de saúde mental são moldadas pela intersecção de gênero com outras dimensões de identidade e posição social, incluindo raça/etnia, classe social, orientação sexual, identidade de gênero, idade e deficiência. Mulheres negras, por exemplo, enfrentam discriminação de gênero e racial simultaneamente, com impactos sinérgicos sobre saúde mental. Pessoas transgênero e não-binárias apresentam vulnerabilidades específicas relacionadas à discriminação, violência transfóbica, processos de transição de gênero, e frequentemente acesso inadequado a cuidados de saúde respeitosos e competentes. Serviços de saúde mental sensíveis ao gênero devem reconhecer estas especificidades, oferecendo cuidado culturalmente competente, livre de discriminação, e atentos às necessidades particulares de diferentes grupos.

Referências:

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ZANELLO, V. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.

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