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O Impacto da Inteligência Artificial na Prática Clínica: entre a eficiência algorítmica e a subjetividade humana

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A contemporaneidade é marcada pela onipresença de algoritmos de Inteligência Artificial (IA) em quase todas as esferas da atividade humana, e a Psicologia, enquanto ciência e profissão, encontra-se em um momento de profunda transição. Na prática clínica, a incursão tecnológica ultrapassou a barreira dos sistemas de gestão e avançou sobre a triagem diagnóstica, a análise de padrões comportamentais em grandes bases de dados e o uso de Large Language Models (LLMs) para o suporte terapêutico imediato. Este fenômeno exige uma reflexão que vá além da funcionalidade técnica, atingindo o cerne da ética profissional: a manutenção da aliança terapêutica em um mundo mediado por máquinas.

A fundamentação teórica da psicologia humanista e psicanalítica sempre privilegiou o encontro intersubjetivo – o espaço de fala e escuta entre dois sujeitos – como o elemento catalisador da cura. No entanto, o advento de IAs generativas trouxe a possibilidade de assistentes virtuais de saúde mental que operam de forma ininterrupta, oferecendo uma acessibilidade sem precedentes, mas que levanta o questionamento sobre a profundidade do vínculo. Segundo a perspectiva de Barker (2024), embora essas ferramentas possam oferecer suporte imediato em crises de baixa complexidade, elas carecem intrinsecamente da capacidade de simbolização, transferência e contratransferência, elementos que Freud estabeleceu como centrais no processo analítico.

O risco reside em uma possível mecanização do cuidado, onde o sintoma é tratado como um erro de processamento a ser corrigido por um algoritmo de otimização, ignorando a subjetividade e a história singular do sofrimento humano. Além disso, a integração de IA na clínica envolve a análise de Big Data, onde algoritmos de predição são capazes de identificar sinais de depressão ou ideação suicida em postagens de redes sociais antes mesmo de o paciente buscar ajuda profissional. De acordo com os preceitos de Bioética aplicados à tecnologia, conforme discutido por Beauchamp e Childress (2013), surge o dilema da autonomia: até que ponto o psicólogo pode confiar em um diagnóstico gerado por uma “caixa-preta” algorítmica cujos critérios de decisão são opacos e, por vezes, enviesados por dados de treinamento que não refletem a diversidade cultural do paciente.

A transparência algorítmica torna-se, portanto, um imperativo ético e técnico. Outro ponto de expansão relevante é a automação da correção de testes psicológicos, que permite ao clínico desonerar-se da tarefa mecânica do cálculo quantitativo para se dedicar integralmente à análise qualitativa. Conforme aponta Pasquali (2013), a psicometria ganha precisão com a tecnologia, reduzindo o erro humano, contudo, a interpretação clínica permanece sendo uma prerrogativa humana insubstituível. A tecnologia deve ser o meio de viabilizar o cuidado, enquanto o bem-estar subjetivo e a dignidade humana permanecem como a finalidade última da práxis psicológica, garantindo que o avanço digital não resulte em um retrocesso na humanização do atendimento.

Referências
BARKER, T. The Ethics of AI in Mental Health: a clinical perspective. Cambridge: Cambridge University Press, 2024.
BEAUCHAMP, T. L.; CHILDRESS, J. F. Princípios de Ética Biomédica. 7. ed. São Paulo: Loyola, 2013.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA (CFP). Resolução nº 11/2018: Regulamenta a prestação de serviços psicológicos realizados por meios tecnológicos. Brasília, 2018.
PASQUALI, L. Psicometria: Teoria dos testes na psicologia e na educação. Porto Alegre: Artmed, 2013.

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