(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

Jovens empreendedores e a ansiedade pelo futuro

A imagem que vendem do jovem empreendedor é a de um visionário de 22 anos que, de moletom, levanta milhões e vira capa de revista. A realidade, no entanto, não é bem assim.

O ecossistema de startups glorifica o sucesso precoce em um mundo de influenciadores milionários jovens, alguns até mesmo crianças. Não basta ter uma ideia; você precisa ser o “próximo sucesso” antes dos 30. Essa pressão, amplificada por feeds de LinkedIn e Instagram cheios de “sucessos” milionários, é um gatilho direto para a síndrome do impostor. A régua é o extraordinário, e qualquer coisa abaixo disso parece fracasso.

Ao mesmo tempo, o jovem empreendedor raramente começa com grandes investimentos ou facilidades. Ele começa com uma série de dificuldades financeiras acompanhadas de instabilidade e insegurança no mercado de trabalho. 

A Realidade Nua e Crua dos Números

Quem ajuda a colocar números nessa ansiedade é o Global Entrepreneurship Monitor (GEM). Pense nele como o “Censo” mundial do empreendedorismo. Desde 1999, ele é o principal estudo que, em vez de só medir quantas empresas existem, vai mais fundo e pergunta por que as pessoas decidem abrir um negócio.

E é aí que a maquiagem cai.

A pesquisa mostra consistentemente que uma fatia enorme do empreendedorismo jovem no país é motivada por “necessidade”, não por “oportunidade”.

Traduzindo em bom português: muita gente não abre um negócio para “mudar o mundo”; abre porque não tem emprego e precisa pagar as contas. Eles não estão escolhendo um sonho; estão fugindo do desemprego.

A Tempestade Perfeita para a Ansiedade

Essa motivação, misturada com a pressão pelo sucesso, cria o cenário perfeito para a deterioração da saúde mental.

Primeiro, o Risco Total. O jovem empreendedor por necessidade não tem a segurança de um salário fixo. O risco financeiro não é apenas da empresa; é pessoal e imediato. Se o negócio falha, o aluguel não é pago.

Segundo, o medo de falhar. O mesmo relatório GEM aponta o “medo de falhar” como um dos principais inibidores culturais no Brasil. Para quem já começou por necessidade, esse medo não inibe; ele paralisa. Cada decisão carrega o peso de ser aquela que vai quebrar o negócio.

Por último, o Isolamento. A “cultura do hustle” exige que o líder aparente ser uma pessoa totalmente confiante. Admitir medo, exaustão ou que as contas simplesmente não vão fechar é visto como fraqueza. O jovem empreendedor fica isolado, tentando gerenciar o próprio pânico enquanto projeta uma imagem de sucesso para investidores e clientes.

O resultado é uma geração de fundadores que trocou a segurança da CLT pela sonhada liberdade, mas acabou prisioneira de um ciclo de ansiedade constante, onde o futuro não é uma oportunidade empolgante, mas uma ameaça diária.

Referência: Pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (2022).

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