(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

Lembrar até não doer mais

Compartilhe este conteúdo:

Há um costume antigo entre nós: transformar o esquecimento em virtude. Como se seguir em frente exigisse amputação. Como se maturidade fosse sinônimo de silêncio. Como se a única prova de força, depois de uma perda, fosse a capacidade de agir como se nada tivesse acontecido. E então o mundo oferece seus métodos: beber para apagar, trabalhar para não pensar, beijar outras bocas para calar um nome, deitar em outros corpos para ver se o corpo antigo desocupa a memória. Trocam-se os cenários, os perfumes, os lençóis, os interlocutores, mas a dor, essa artesã insistente, continua voltando para casa. Porque há lembranças que não aceitam ser expulsas; elas apenas mudam de lugar dentro de nós e, quando reprimidas, aprendem a nos governar pelas sombras. O senso comum, no fundo, fez do esquecimento uma indústria. Consome-se energia, talento, tempo e gente em nome da fantasia de não sentir. 

Há canções demais ensinando o atalho, e quase nenhuma ensinando a travessia. Canta-se a bebedeira, a distração, o excesso, a substituição, como se viver fosse apenas uma sucessão de anestesias elegantes. Mas a verdade é menos sedutora e mais severa: aquilo que tentamos sufocar sem elaborar não morre; apenas perde o nome e ganha o corpo. Vira insônia. Vira irritação. Vira cinismo. Vira medo de recomeçar. Vira dureza onde antes havia delicadeza. Talvez por isso a insistência em esquecer produza, paradoxalmente, mais lembrança. A mente, quando proibida de tocar a ferida, não a abandona; ela a rodeia. Retorna a ela por obsessão, por angústia, por ruminação. 

A psiquiatria e a psicologia descrevem a ruminação como esse giro repetitivo sobre sentimentos negativos, suas causas e consequências, um movimento que aprofunda sofrimento, deforma a leitura do presente e torna o futuro mais desesperançado. Ou seja: não é que lembrar cure automaticamente; o problema é que evitar sentir costuma piorar o que já dói, porque a fuga mantém a dor em estado de combustão. 

Mas eu não falo aqui de ruminar. Não proponho esse retorno estéril, esse mastigar infinito de uma perda sem linguagem e sem passagem. Há diferença entre ruminar e atravessar. Ruminar é girar dentro da mesma cela; atravessar é caminhar, ainda que por dentro da noite. Ruminar é alimentar a ferida sem escutá-la; atravessar é olhar para ela até que revele sua anatomia, sua medida, seu fim. Uma coisa é ser capturado pela memória; outra, muito diferente, é convocá-la ao campo da consciência para que ela deixe, enfim, de mandar sozinha.

É por isso que talvez a pergunta necessária não seja “como esquecer?”, mas “como lembrar sem continuar sendo destruído?”. E a resposta pode surgir justamente aí: lembrar até não doer mais. Lembrar até não doer mais não é cultuar a perda. Não é transformar sofrimento em identidade. Não é fazer da própria ferida um altar, nem viver de joelhos diante do passado. É recusar a superstição de que o não dito desaparece por conta própria e admitir que certas dores exigem presença. Que algumas histórias precisam ser contadas muitas vezes não por sua beleza, mas porque ainda estão vivas demais. Falar, às vezes, não reabre o corte, apenas drena o pus. Nomear não é insistir no desastre, é começar a retirar dele o poder de nos definir.

Freud, em um de seus textos, propôs uma distinção que ainda nos serve: muitas vezes a pessoa não se lembra diretamente do que a feriu; ela repete. Repete em atos, em escolhas, em relações, em sintomas, em cenas que parecem novas, mas obedecem ao mesmo núcleo antigo. Em vez de recordar, encena. Em vez de elaborar, revive. E o trabalho psíquico mais difícil não é descobrir intelectualmente o que aconteceu, mas suportar o processo de “atravessar” a resistência até que o vivido possa deixar de ser repetição cega e se transforme em reconhecimento.

Talvez seja isso que tantas pessoas tentam evitar quando correm para outras bocas, outros copos, outros ruídos: não a lembrança em si, mas o trabalho que a lembrança exige. Porque lembrar de verdade dá trabalho. Lembrar de verdade é sentar diante do que nos feriu sem o heroísmo performático de quem diz “já superei” e sem a autocomiseração narcísica de quem faz da dor um trono. É coisa mais humilde e mais dura: reconhecer. Reconhecer o que houve. O que se perdeu. O que era ilusão. O que era amor. O que era dependência. O que era projeto. O que era apenas fome vestida de destino.

Há dores que só diminuem quando ganham contorno. Enquanto são névoa, ocupam tudo. Quando recebem forma, ocupam um lugar. E ocupar um lugar já é deixar o resto do corpo livre. Penso que a cura possível não seja apagar a memória, mas recolocá-la em proporção. Tirar-lhe a onipotência. Fazer com que deixe de ser atmosfera e volte a ser objeto. Algo que se possa tocar com a mão da consciência e dizer: “foi isto”. Não mais “é tudo”.

A Terapia de Aceitação e Compromisso formula algo semelhante em outra linguagem: chama de “esquiva experiencial” essa tentativa de alterar ou expulsar pensamentos, memórias, emoções e sensações desagradáveis mesmo quando esse esforço nos fere ainda mais. Em contrapartida, a aceitação não é resignação passiva, mas uma postura ativa de curiosidade e contato com a experiência interna. Em outras palavras: o sofrimento cresce quando, além da dor, passamos a lutar violentamente contra o fato de sentir dor. 

O amor perdido, o luto, a rejeição, a humilhação ou a ruptura nos ensinam de modo brutal: a dor tem duas camadas. A primeira é a própria perda. A segunda é a guerra que declaramos contra o fato de tê-la vivido. Há quem sofra pelo que aconteceu; e há quem sofra também por não admitir que aconteceu. Essa segunda camada costuma ser a mais longa. Porque não chora apenas o objeto perdido, chora também a imagem de si que ruiu, a fantasia de controle, a narrativa interrompida, a versão de futuro que deixou de existir.

Por isso, lembrar até não doer mais é um ato de coragem radical.  

É dizer à memória: venha inteira.  

Não para me governar de novo, mas para que eu finalmente a veja de frente.

Venha com o nome.  

Venha com a cena.  

Venha com o horário, com a rua, com a mensagem, com a ausência, com o perfume que ainda persiste no tecido, com a música que estraga a tarde, com a data que o corpo nunca esqueceu embora o calendário tenha avançado. Venha com tudo, para que nada mais precise me emboscar. Porque aquilo que é encarado perde, pouco a pouco, o direito de surpreender.

Marcel Proust entendeu como poucos que a memória não é um arquivo obediente. Ela não retorna apenas quando queremos; ela irrompe pelo corpo, pelo gosto, pelo cheiro, pela textura do tempo. Em “Em Busca do Tempo Perdido”, a lembrança involuntária disparada pelo sabor da Madeleine mostra que o passado não está morto: ele permanece latente, à espera de um sinal mínimo para voltar inteiro. A grande questão, então, não é impedir esse retorno, tarefa impossível, mas transformá-lo em sentido.

Aqui está a diferença entre ser assombrado e lembrar com consciência: no primeiro caso, o passado invade; no segundo, ele é recebido, examinado, situado. Assombração é passado sem lugar. Memória elaborada é passado alojado. Um nos domina; o outro passa a compor a casa sem mandar nela. Há um momento em que a pessoa ou a situação que antes ocupava todos os cômodos da alma vai sendo empurrada para um quarto menor. Continua existindo, mas já não determina a temperatura da casa inteira.

É claro que isso não acontece de uma vez. A dor não abandona ninguém por argumento. Não se dissolve porque entendemos um conceito, lemos um livro ou escutamos uma canção bonita. Há um desgaste necessário. Uma exaustão. Uma espécie de liturgia íntima em que a lembrança retorna muitas vezes, mas cada retorno já nos encontra um pouco menos indefesos. O nome ainda dói, mas não paralisa. A imagem ainda pulsa, mas já não rasga. A ausência ainda ecoa, mas não organiza todos os pensamentos em torno de si. E então, sem alarde, algo começa a mudar e o centro de gravidade se desloca.

Chega um dia em que já se consegue dizer “foi importante” sem dizer “foi insubstituível”.  

Chega um dia em que já se consegue admitir “eu amei” sem concluir “nunca mais amarei”.  

Chega um dia em que já se consegue olhar para a perda sem convertê-la em fracasso, e para a dor sem convertê-la em vocação.

Esse dia não é o dia do esquecimento.  

É o dia em que a lembrança perde a soberania.

E talvez seja isso que, no fundo, chamamos de cura: não o desaparecimento da cicatriz, mas o fim da hemorragia. A memória permanece, mas muda de regime. Deixa de ser faca e vira forma. Deixa de ser vertigem e vira arquivo vivo. Deixa de ser um presente contínuo e volta a ser passado. Não um passado morto, porque nada do que nos marca morre inteiramente; mas um passado integrado, reposicionado, humanizado. Algo que podemos visitar sem morar lá.

Há pessoas que pensam que superar é não sentir mais nada. Não creio. Às vezes superar é sentir de outro modo. Sentir sem desabar. Lembrar sem implorar retorno. Contar sem pedir reparação ao impossível. O amadurecimento da dor não a torna inexistente; torna-a habitável. E isso, por si só, já é imenso. Porque existe uma dignidade profunda em não precisar negar a própria história para continuar vivendo.

E cá entre nós: no fim, talvez a pergunta não seja se o rosto da pessoa, da dor ou da situação um dia se apaga completamente. Talvez não se apague. Talvez apenas perca nitidez. Talvez deixe de nos encarar do centro. Talvez vire contorno. Talvez vire matéria de entendimento. Talvez permaneça como permanecem certas cidades onde já moramos: inesquecíveis, mas não mais decisivas.

O que importa é que exista esse momento em que o passado, antes senhor, se torna apenas parte.  

Parte daquilo que fomos.  

Não carcereiro daquilo que ainda podemos ser.

Por isso, em vez de ensinar apenas a esquecer, talvez devêssemos aprender outra pedagogia da alma: a de suportar a lembrança até que ela se canse de ferir. Falar até que o assunto se esgote. Escrever até que a frase pare de sangrar. Chorar até que a água devolva o corpo a si mesmo. Olhar tantas vezes para a verdade que ela deixe de ter o tamanho do monstro e recupere, enfim, o tamanho humano.

Porque há dores que não pedem fuga.  

Pedem reconhecimento.

Há perdas que não exigem substituição.  

Exigem luto.

Há memórias que não se calam com excesso.  

Calam-se, às vezes, quando finalmente são ouvidas por inteiro.

E então já não se esquece para sobreviver.  

Sobrevive-se porque já não é preciso esquecer.

Compartilhe este conteúdo:
Sair da versão mobile