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O desenvolvimento não é fragmentado

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O desenvolvimento humano pode ser estudado por áreas, como a física, a cognitiva e a psicossocial, porque essa divisão ajuda a observar aspectos específicos do crescimento, da aprendizagem, das emoções e das relações (Papalia; Feldman; Martorell, 2013). No entanto, a vida cotidiana não exige da criança apenas uma dimensão por vez. Quando ela brinca, aprende, conversa, espera sua vez, perde um jogo ou tenta resolver um problema, não mobiliza somente o corpo, a cognição ou as emoções de forma separada. Cada situação convoca diferentes habilidades ao mesmo tempo, e é justamente essa articulação que permite que a criança participe do mundo de modo mais organizado, autônomo e relacional. Para tornar essa integração mais visível, podemos olhar para uma brincadeira comum da infância: a queimada. 

Brincar de queimada exige muito mais do que correr e lançar uma bola. Para participar do jogo, a criança precisa organizar o corpo no espaço, ajustar força e direção dos movimentos, desviar dos colegas, acompanhar a trajetória da bola e responder rapidamente ao que acontece ao seu redor. Ao mesmo tempo, precisa compreender regras, manter atenção, lembrar combinados, antecipar ações dos outros jogadores e decidir quando correr, parar, lançar ou se proteger. Essa articulação entre movimento, percepção, pensamento e emoção aproxima-se da compreensão de Wallon, para quem o desenvolvimento infantil envolve a relação constante entre motricidade, afetividade e inteligência (Wallon, 2007). Assim, uma brincadeira aparentemente simples revela uma rede de habilidades físicas, cognitivas e psicossociais que sustentam a participação da criança no grupo.

Uma dificuldade em uma dimensão do desenvolvimento pode repercutir sobre toda a participação da criança na brincadeira. Na queimada, por exemplo, uma criança com velocidade de processamento mais lenta pode precisar de mais tempo para perceber a trajetória da bola, interpretar a ação dos colegas, decidir para onde correr e organizar a resposta motora. Embora essa seja uma habilidade cognitiva, seus efeitos não ficam restritos à cognição. Se a criança é atingida repetidas vezes, demora a reagir ou não acompanha o ritmo do grupo, pode começar a sentir vergonha, medo de errar ou insegurança para participar. Ao mesmo tempo, os colegas podem deixar de escolhê-la, reclamar de sua participação ou interpretar sua dificuldade como desinteresse. Assim, uma dificuldade cognitiva pode atravessar o desenvolvimento psicossocial, pois interfere nas experiências de pertencimento, confiança, interação e construção da imagem que a criança faz de si nas relações com o grupo.

Do mesmo modo, dificuldades no campo psicossocial também podem limitar a participação da criança na brincadeira. Uma criança que se sente muito insegura diante dos colegas, que teme errar ou que reage intensamente quando perde pode compreender as regras da queimada e até ter condições motoras para jogar, mas ainda assim evitar a atividade ou interromper sua participação diante da frustração. Ao ser queimada, por exemplo, pode chorar, abandonar o jogo, reagir com raiva ou se recusar a tentar novamente. Nesse caso, a dificuldade não está apenas em “não saber perder”, mas em sustentar emocionalmente uma situação que envolve exposição, disputa, espera, erro e comparação com os pares. Quando isso acontece com frequência, a criança pode ter menos oportunidades de praticar movimentos, compreender melhor a dinâmica do jogo, negociar regras e construir vínculos com o grupo. Assim, uma dificuldade socioemocional pode repercutir sobre experiências cognitivas, motoras e relacionais que também fazem parte do desenvolvimento. 

Observar uma brincadeira como a queimada ajuda a compreender que o desenvolvimento infantil não se expressa em habilidades isoladas. Uma criança que evita jogar, reage com intensidade, demora a responder ou não acompanha o ritmo do grupo não deve ser compreendida apenas a partir de uma explicação única, como falta de interesse, desobediência, imaturidade ou dificuldade motora. O que aparece em uma situação concreta pode envolver diferentes dimensões do desenvolvimento funcionando de forma articulada: corpo, atenção, percepção, linguagem, emoção, vínculo e contexto. Por isso, compreender a criança exige olhar para o conjunto de habilidades que sustentam sua participação no mundo. Quando esse olhar se amplia, a dificuldade deixa de ser vista como um problema localizado em uma única área e passa a ser compreendida como parte de uma rede de relações, experiências e possibilidades de desenvolvimento. 

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin; MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. 

WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. Tradução de Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 

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