Na cultura atual, falar em “excesso” quase sempre remete a algo óbvio: comida, álcool ou trabalho em demasia. Mas o que vem chamando a atenção de pesquisadores da Psicologia contemporânea é que o excesso não se limita ao que tradicionalmente entendemos como vício. Ele pode estar presente no celular, nas maratonas de séries, no consumo constante de conteúdo, no sono desregulado, no uso do dinheiro como forma de compensação emocional e até mesmo na busca incessante por experiências prazerosas. O ponto central não está no objeto em si, mas na forma como ele é usado, e principalmente, no lugar emocional que ele ocupa na vida da pessoa.
O excesso como forma de regulação emocional
Do ponto de vista psicológico, muitos comportamentos excessivos podem funcionar como estratégias de regulação emocional. A psicóloga Marsha Linehan, ao desenvolver a Terapia Comportamental Dialética (DBT), descreve que, em muitos casos, comportamentos disfuncionais surgem como tentativas de lidar com emoções intensas que ainda não foram suficientemente compreendidas ou reguladas.
Nesse sentido, o problema não é apenas o uso do celular, das redes sociais ou de plataformas de streaming, mas o quanto esses recursos passam a ser utilizados como forma de evitar sentimentos desconfortáveis, como ansiedade, solidão, tédio ou frustração.
O celular é talvez o exemplo mais evidente dessa dinâmica. Notificações constantes, rolagem infinita de redes sociais e estímulos rápidos de recompensa criam um ciclo de uso automático. O cérebro, exposto a estímulos frequentes de dopamina, tende a buscar repetição desse padrão, o que pode gerar dificuldade de concentração, irritabilidade quando desconectado e sensação de vazio quando não há estímulo.
O mesmo ocorre com o consumo de séries e filmes em plataformas de streaming. A possibilidade de assistir a vários episódios em sequência facilita a perda de noção de tempo e contribui para alterações no sono e na rotina. O que inicialmente é lazer pode se transformar em fuga emocional.
Outro ponto frequentemente negligenciado é o sono. Dormir em excesso ou de menos pode ser tanto causa quanto consequência de desequilíbrios emocionais. A privação de sono, por exemplo, está associada a piora na regulação emocional, maior irritabilidade e aumento da ansiedade. Por outro lado, o excesso de sono também pode estar ligado a estados depressivos e desorganização da rotina.
O uso do dinheiro como forma de compensação emocional também entra nesse cenário. Compras impulsivas podem gerar alívio imediato, mas são seguidas por culpa ou instabilidade financeira, mantendo o ciclo de sofrimento emocional.
Quando o uso de qualquer recurso, seja celular, dinheiro, sono, entretenimento ou experiências, deixa de ser escolha e passa a ser necessidade emocional constante, ele começa a ocupar um espaço que antes pertencia a outras formas de regulação psíquica.
No fim, o excesso não é apenas uma questão de quantidade, mas de função psicológica. E compreender isso é um passo importante para transformar hábitos automáticos em escolhas mais conscientes e saudáveis.
Referências bibliográficas
BREWER, J. (2021). Desfazendo a Ansiedade: A Nova Ciência para Romper os Ciclos de Preocupação e Medo.
HARRIS, R. (2022). A Armadilha da Felicidade.
