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Quando a perda atravessa distâncias: o luto na ausência física

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O luto é uma experiência universal e profundamente humana. Ele representa a resposta emocional diante da perda de alguém significativo e envolve um processo psíquico de adaptação à ausência. Tradicionalmente, o luto foi descrito por Elisabeth Kübler-Ross por meio de cinco estágios: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, que buscam explicar algumas das possíveis reações emocionais diante da morte. No entanto, é importante compreender que cada indivíduo vivencia esse processo de maneira singular, atravessado por sua história, cultura e contexto social (Kübler-Ross, 1996).

No chamado luto normal ou comum, a reação à perda é considerada esperada e natural. Trata-se de um processo marcado por emoções intensas, como tristeza, saudade, raiva ou confusão, que tendem a diminuir gradualmente com o tempo, à medida que a pessoa encontra formas de reorganizar sua vida diante da ausência. Conforme apontam estudos sobre o tema, o luto pode ser entendido como um processo lento e doloroso, no qual o sujeito precisa gradualmente retirar o investimento afetivo daquele que se foi, movimento já descrito por Freud ao discutir a relação entre perda e desligamento psíquico do objeto amado (Freud, 1915).

Entretanto, quando a perda acontece à distância, quando a pessoa falecida estava em outra cidade, estado ou país, a experiência do luto pode adquirir características particulares. A ausência física prévia muitas vezes cria uma sensação de irrealidade diante da morte. O cotidiano não muda de forma imediata, e isso pode dificultar a elaboração da perda. A mente parece demorar a reconhecer aquilo que aconteceu, como se a pessoa ainda estivesse apenas distante, vivendo sua rotina em outro lugar.

Nessas situações, expressões populares como “a ficha ainda não caiu” ou “só vou acreditar quando estiver diante do túmulo” tornam-se frequentes. Elas revelam um aspecto importante do processo de luto: a necessidade simbólica de confirmação da perda. Quando não há contato direto com o momento da despedida — velório, enterro ou rituais de despedida — o processo de elaboração pode se tornar mais complexo, pois falta ao sujeito um marco concreto que sinalize a ruptura definitiva.

Kübler-Ross (1996) também destaca que o processo de luto envolve dimensões emocionais, sociais e simbólicas, nas quais os rituais de despedida possuem papel fundamental na elaboração da perda e na reorganização do vínculo com quem morreu. Esses rituais funcionam como mediadores entre a realidade da morte e a experiência subjetiva de quem permanece, permitindo que a ausência seja reconhecida e integrada à memória afetiva.

Diante disso, surge uma questão frequente: como se despedir quando não foi possível estar presente? Não existe uma resposta única para essa pergunta. A elaboração do luto pode acontecer por diferentes caminhos simbólicos. Algumas pessoas escrevem cartas de despedida, outras revisitam lembranças, assistem a vídeos, olham fotografias ou conversam com familiares e amigos sobre a pessoa que partiu. Essas práticas permitem manter viva a memória e reconhecer o impacto da perda.

Mais do que um conjunto de etapas fixas, o luto é um processo de reconstrução subjetiva. Cada indivíduo encontra sua própria forma de lidar com a ausência e de transformar a dor da perda em memória, significado e continuidade da vida. Assim, não existe uma forma correta ou incorreta de se despedir, existe apenas aquela que, naquele momento, faz sentido para quem permanece.

Referências

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. 1915.
Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-88092013000200007

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer: o que os doentes têm para ensinar a médicos, enfermeiras, religiosos e aos seus próprios parentes. Tradução de Paulo Menezes. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

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