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Terapias afirmativas e o papel da Psicologia no acolhimento de pessoas LGBTQIAPN+

O cuidado psicológico direcionado a pessoas LGBTQIAPN+ exige sensibilidade ética, conhecimento científico e uma postura afirmativa que reconheça a diversidade humana como parte legítima da existência. Esse cuidado se torna ainda mais necessário quando se considera que grande parte dessa população carrega marcas emocionais e espirituais resultantes de rejeições familiares, violências simbólicas, discursos religiosos condenatórios e experiências traumáticas como as “terapias de conversão”. Em resposta a esse histórico de sofrimento, as terapias afirmativas se consolidam como uma abordagem fundamental, orientada pela validação da identidade, pelo fortalecimento subjetivo e pela promoção de autonomia emocional.

As terapias afirmativas surgem como contraponto às práticas patologizantes que, durante décadas, enquadraram a homossexualidade e outras expressões de gênero como doenças ou desvios. O Conselho Federal de Psicologia, desde 1999, proíbe qualquer intervenção que proponha a “cura” da orientação sexual, reconhecendo a diversidade como expressão natural da experiência humana. O documento Tentativas de Aniquilamento de Subjetividades LGBTI+ (CFP, 2020) reforça essa posição ao apresentar relatos de violência psicológica e espiritual vivenciados por pessoas submetidas a terapias de conversão, demonstrando como essas práticas provocam danos profundos, como depressão, ansiedade, autodepreciação e ruptura da autoestima.

Diante desse cenário, o papel da psicologia não é neutral: é ético e político. Ser afirmativo não significa direcionar escolhas ou impor identidades, mas criar condições seguras para que o indivíduo explore sua subjetividade sem medo, vergonha ou coerção. Significa sustentar uma prática fundamentada no respeito, na dignidade humana e no reconhecimento de que a orientação sexual e a identidade de gênero não são problemas a serem corrigidos, mas dimensões existenciais que merecem compreensão e acolhimento.

Um dos pilares das terapias afirmativas é a validação da experiência emocional. Muitas pessoas LGBTQIAPN+ chegam ao espaço clínico carregando sentimentos de inadequação, culpa espiritual ou medo da rejeição. Como apontam Perucchi, Brandão e Vieira (2014), a LGBTQIAPN-fobia internalizada, resultado da incorporação de discursos negativos sobre si, representa um dos maiores desafios no processo terapêutico. A psicoterapia, nesse caso, tem a função de desnaturalizar essas crenças, ampliando a compreensão de que elas não surgem espontaneamente, mas são fruto de estruturas sociais, religiosas e históricas que condicionaram a forma como o indivíduo aprendeu a se perceber.

Nesse sentido, o trabalho clínico envolve reconstrução narrativa. O terapeuta ajuda o indivíduo a diferenciar sua identidade real das representações distorcidas que lhe foram impostas. O processo terapêutico permite ressignificar experiências traumáticas, identificar padrões de violência emocional e espiritual, e reorganizar o sentido de pertencimento. Esse movimento é particularmente importante para pessoas que cresceram em contextos religiosos conservadores, onde a sexualidade foi tratada como pecado ou ameaça moral. A psicologia oferece, então, espaço para reconstruir a espiritualidade de maneira não violenta, permitindo que o sujeito restabeleça uma relação com o sagrado sem carregar culpas que não lhe pertencem.

Outro aspecto essencial das terapias afirmativas é o fortalecimento da autonomia. O trabalho clínico não tem o objetivo de direcionar decisões religiosas, familiares ou afetivas, mas de proporcionar recursos internos para que o indivíduo possa agir com mais liberdade e consciência. Isso inclui o desenvolvimento de autoestima, a identificação de redes de apoio e a capacidade de estabelecer limites frente a discursos ou práticas que reforçam violência simbólica.

A psicologia também desempenha papel importante na promoção da saúde mental por meio da articulação com outras esferas sociais. Em muitas situações, é necessário que o profissional compreenda as dinâmicas familiares influenciadas pela religiosidade e ofereça suporte diante de conflitos que envolvem fé e identidade. Como discutem Becker, Maestri e Bobato (2015), relações familiares marcadas por valores cristãos conservadores podem ser fontes intensas de sofrimento e demanda do terapeuta escuta qualificada, postura ética e conhecimento contextual para manejar esses conflitos.

Em paralelo, é fundamental reconhecer que muitas pessoas LGBTQIAPN+ mantêm vínculos religiosos profundos, e que a espiritualidade pode ser fonte de sentido, consolo e pertencimento. O trabalho psicoterapêutico afirmativo não assume postura anti religiosa; ao contrário, busca integrar fé e identidade de forma saudável, acolhendo a dimensão espiritual como parte legítima da vida psíquica. Ao dialogar com experiências de igrejas inclusivas e comunidades acolhedoras, como analisado por Weiss (2013), o terapeuta pode ajudar o indivíduo a reconstruir sua relação com a fé, entendendo que espiritualidade e diversidade não são incompatíveis.

Assim, as terapias afirmativas representam um caminho ético, científico e humanizado de cuidado. Elas se contrapõem à lógica da violência simbólica e das tentativas de correção identitária, oferecendo em seu lugar um espaço de acolhimento real, onde o sujeito é convidado a existir plenamente. Nesse processo, a psicologia reafirma seu compromisso com a dignidade humana, com os direitos fundamentais e com a promoção de uma vida emocional mais livre, íntegra e coerente com a singularidade de cada pessoa.

REFERÊNCIAS

CFP – CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP nº 01/1999: Estabelece normas para atuação profissional em relação à orientação sexual. Brasília: CFP, 1999.

CFP – CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Tentativas de aniquilamento de subjetividades LGBTI+: impactos das práticas de “cura” e repressão de identidades. Brasília: CFP, 2020.

PERUCCHI, Elaine; BRANDÃO, Mariana; VIEIRA, Gabriela. Rejeição religiosa e sofrimento subjetivo em pessoas LGBTQIAP+. 2014.

BECKER, Bianca; MAESTRI, Bruna; BOBATO, Ellen. Família, religiosidade e conflitos afetivos na vivência de pessoas LGBTQ+. 2015.

WEISS, A. Religiões inclusivas e diversidade sexual. 2013.

AGUIAR, Denison Melo de. Religião, religiosidade e saúde mental LGBTQIAP+. In: SANTOS, M. H. F. et al. Saúde LGBTQIA+: práticas de cuidado transdisciplinar. Curitiba: CRV, 2021.

MUSSI, A.; MALERBI, F. Aconselhamento afirmativo e diversidade sexual. 2020.

CRAVO, Camila; ALMEIDA-VERDU, Ana. Formação em psicologia e população LGBTQ+. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 2022.

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