Imagine terminar um dia inteiro de trabalho dirigindo ou fazendo entregas e descobrir que sua nota caiu de 4,9 para 4,6 estrelas. Não houve conversa, explicação ou reconhecimento. Apenas um número.
A chamada uberização do trabalho descreve um modelo em que trabalhadores atuam por meio de plataformas digitais, sem vínculos formais e sob constante avaliação de usuários e algoritmos. A uberização não produz apenas trabalhadores flexíveis; ela produz um tipo específico de sujeito: o sujeito permanentemente avaliável. Se, para Dejours (1992), o reconhecimento simbólico é aquilo que transforma sofrimento em sentido – o olhar do outro que valida a utilidade, a competência e a dignidade do trabalho – na uberização esse reconhecimento é traduzido em estrelas. Não há palavra, não há narrativa, não há troca. Há números.
Quando o reconhecimento vem de estrelas e não de pessoas, a identidade passa a depender de métricas. O trabalhador deixa de perguntar “fiz um bom trabalho?” e passa a perguntar “quantas estrelas recebi?”. O valor pessoal se confunde com a pontuação. Uma avaliação baixa não atinge apenas o desempenho: atinge o ser. O sujeito internaliza a lógica algorítmica e passa a se autogerir como empresa de si mesmo, aproximando-se do que Han (2015) denomina sociedade do desempenho, onde a exploração já não vem de fora, mas se transforma em autoexploração.
A avaliação, contudo, não equivale ao reconhecimento simbólico. O reconhecimento implica alteridade, envolve julgamento qualitativo, diálogo e inscrição no laço social. A estrela mede, mas não explica. Ela não diz o que foi bom ou ruim no trabalho. Apenas transforma experiências complexas em números. Assim, a avaliação por estrelas altera profundamente o laço social, pois substitui a relação intersubjetiva por uma mediação técnica. O cliente avalia, o algoritmo computa, mas ninguém efetivamente reconhece. Surge então uma pergunta inquietante: quem avalia o avaliador invisível?
Nesse modelo, produz-se uma culpa peculiar. Não é a culpa neurótica clássica, ligada ao conflito moral, mas uma culpa por insuficiência permanente. Se a corrida foi cancelada, se a nota caiu, se a demanda diminuuiu, a responsabilidade recai inteiramente sobre o trabalhador. A precariedade estrutural é psicológica. O fracasso sistêmico é vivido como falha individual. Aqui podemos articular com Foucault (2008): trata-se de uma forma sofisticada de governamentalidade, em que o controle opera não pela coerção direta, mas pela internalização das métricas.
A dissolução dos coletivos de trabalho intensifica esse processo. Sem pares, não há partilha de sofrimento, nem construção coletiva de estratégias defensivas, como propõe Dejours (1992). O trabalhador está só diante do aplicativo. Bauman (2001) descreve a modernidade líquida como um tempo de vínculos frágeis; na uberização, o vínculo laboral já nasce líquido. A instabilidade deixa de ser exceção e torna-se condição permanente.
Do ponto de vista clínico, observam-se marcas psíquicas importantes: ansiedade difusa, sensação de insuficiência crônica, hipervigilância, dificuldade de desligamento e fragilidade narcísica. O trabalho deixa de ser espaço de encontro, como pensava Arendt (2007) ao distinguir trabalho, obra e ação, e se reduz a cálculo. Quando o trabalho perde sua dimensão de mundo compartilhado, resta apenas a sobrevivência.
Se o algoritmo não reconhece, quem reconhece? Quando o trabalho deixa de ser relação e se transforma em métrica, o sujeito passa a existir apenas enquanto performance. E uma performance nunca é suficiente. A liberdade prometida converte-se em obrigação de rendimento constante. O risco não é apenas econômico, é ontológico. Forma-se um sujeito que só se percebe valioso quando pontuado.
Talvez a questão mais provocativa não seja como regular as plataformas, mas como reconstruir espaços de reconhecimento simbólico em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos. Porque, sem reconhecimento, o sofrimento não se transforma, ele se acumula.
fonte: Jusbrasil
Referências
Arendt, H. A condição humana. Forense Universitária, 2007
Bauman, Z. Modernidade líquida. Zahar, 2001.
Dejours, C.. A loucura do trabalho: Estudo de psicopatologia do trabalho (5ª ed.). Cortez, 1992
Foucault, M.. Segurança, território, população: Curso no Collège de France (1977–1978). Martins Fontes, 2008.
Han, B.-C. Sociedade do cansaço. Vozes, 2015.
