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Bibliotecas, físicas, contra o caos

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Pense rapidamente na cidade de Paris, na França. Mesmo que você ainda não tenha visitado este local pessoalmente, é provável que algumas imagens venham à lembrança: a notável Catedral de Notre-Dame; a icônica Torre Eiffel; o monumental Arco do Triunfo; o impressionante Museu do Louvre, assim como os vários e imponentes palácios da cidade. Agora, retire essas construções da equação e teremos um lugar – ainda belo –, mas sem alguns atrativos que justamente promovem a cidade em todo o mundo e a classificam como um dos lugares mais visitados por turistas.

E o que isso tem a ver com livros e bibliotecas? Recentemente, publiquei um texto em meu blog afirmando que não há garantias de que teremos grandes bibliotecas físicas pessoais, em profusão, no futuro, uma vez que a sociedade contemporânea lê, cada vez mais, com os olhos fixos sobre telas, adquirindo produtos e serviços, os mais variados, em plataformas digitais. E essas alternativas têm seu valor no mundo atual, certamente. Mas acessar bibliotecas, como espaços físicos, pode ser uma experiência notável, icônica, monumental e impressionante.

Bibliotecas guardam a experiência do estar. Livram a mente, ainda que por um breve período de tempo, do caos algorítmico. É o fator contemplação, unido à necessidade/gosto de pesquisa. Na biblioteca, ainda há um sagrado poder de escolha. Além disso, algumas contam com arquiteturas que mais parecem ter saído das telas de cinema, como, por exemplo, a Biblioteca Nacional brasileira e o Real Gabinete Português de Leitura (ambas, inclusive, figurando em sites especializados entre as mais belas do mundo). As duas, localizadas na região central do Rio de Janeiro, isso para ficarmos apenas dois exemplos. Adentrar os corredores de coleções, abrir um livro… é quase sinônimo de refrear um mundo que tantas vezes afadiga os pensamentos. Bibliotecas possuem a química perfeita para que a alma seja acariciada pelas letras.

O exercício da leitura, desde a infância, é um construtor de pontes. “É, pois, através de distintos canais, dos livros infantis e das atividades proporcionadas pelos adultos, que as crianças começam a fixar as bases de sua educação literária”, afirma a especialista em Literatura Teresa Colomer, em sua obra Andar entre livros (2007). Complementando essa abordagem, há, nas bibliotecas, um recurso precioso: a orientação e auxílio ao usuário. Esse processo compreende, segundo destacam Alba Maciel e Marília Alvarenga Mendonça, no livro Bibliotecas como organizações (2006), “as atividades exercidas face a face com o usuário visando facilitar o acesso às coleções e a facilidade na utilização dos demais recursos que a biblioteca ofereça, como catálogos, bases, acesso à internet, etc.”.

Foto: Reprodução/Unsplash.

Bibliotecas como Experiências

Mais do que lugares reservados ao estudo, é importante lembrar que boa parte das bibliotecas tem se preocupado, cada vez mais, com a experiência do visitante, promovendo palestras, oficinas, cursos, exposições. Se pensarmos na categoria Biblioteca pública, por exemplo, alguns dos produtos e serviços abaixo podem ser facilmente encontrados. E, o melhor, voltados especificamente para a educação, cultura, lazer e inclusão social:

Naturalmente, nem todas as bibliotecas irão oferecer as ações listadas acima, concomitantemente. Mas, certamente, uma boa parte delas estará disponível à população. As bibliotecas existem com a missão de servir. São, em alguma medida, remédios para o mundo acelerado e caótico, de conteúdos disponíveis em todos os lugares, em cada clique. Não anulam as facilidades das tecnologias (e óbvio que não há essa pretensão), mas as utilizam em prol da produção e compartilhamento do conhecimento. São espaços culturais, de memória e, ao mesmo tempo, de alternativas para o futuro.

Foto: Reprodução/Unsplash.

Devemos e podemos usufruir das bibliotecas. Ali existem ciência, técnica, métodos e boas práticas, moldando cada segmento do acervo, cada corredor, cada serviço, cada produto. A conexão entre pessoas não é por acaso. Ela representa a essência da biblioteca desde o seu nascedouro, acompanhando seu desenvolvimento ao longo dos séculos.

Como na fictícia Paris sem seus monumentos, citada no início deste texto, cidades sem bibliotecas físicas podem até continuar atrativas. Mas, certamente, a presença delas torna os ambientes cultural e intelectualmente ainda mais belos e charmosos.

Thiago Cirne

Thiago Cirne é bibliotecário, jornalista e escritor. Publica artigos, matérias e reflexões no blog Incunábulos e em sites especializados. É Mestre em Biblioteconomia pela UNIRIO e Especialista em Jornalismo Cultural pela UERJ.

Autor dos livros Com todas as licenças necessárias (2016), Introdução à Gestão de Coleções Especiais Jurídicas (2022), além de diversos trabalhos voltados à promoção e divulgação de bibliotecas, leitura e jornalismo cultural.

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