(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

Psicólogo é só pra doido?

Dizem por aí que psicólogo é só pra doido.
E sempre me chamou atenção a leveza com que essa frase é dita, quase como quem comenta o clima, sem perceber o peso de séculos que ela arrasta junto.

“Fulano faz terapia.”

“Ah… então ele não tá bem da cabeça.”

E assim seguimos, repetindo rótulos herdados de um tempo em que sofrimento era escondido atrás de portas grossas, janelas gradeadas e corredores silenciosos. Um tempo em que dor mental não se tratava, se trancava.

Eu cresci ouvindo isso.

Talvez você também.

 Aquelas histórias sussurradas, como se cuidar da mente fosse pecado, fraqueza ou perigo.

Mas o mundo mudou.

Nós mudamos.
E, ainda assim, essa velha frase continua circulando como um fantasma que ainda não descobriu que morreu.

Outro dia, no meio da correria, pensei:
Se psicólogo fosse só pra doido, então quem cuida da alma cansada?
Quem escuta a pessoa que perdeu alguém, mas continua sorrindo pra não preocupar ninguém?
Quem acolhe o adulto que nunca aprendeu a dizer “não”?
Quem ajuda a mulher que carrega o mundo nas costas, mas não sabe onde guardar o próprio peso?
Quem sustenta o jovem que está de pé, mas só por fora?

A verdade é que ninguém precisa estar “quebrando” para buscar ajuda.
A gente procura terapia como quem procura ar quando o peito aperta,
ou silêncio quando a mente grita demais.

Mesmo assim, o estigma persiste.
Ele aparece nas piadas, nas conversas rápidas, nos comentários atravessados:
“Vai ao psicólogo? Nossa… o que aconteceu?”
Como se a vida precisasse desmoronar para merecer cuidado.

Mas terapia não é sinônimo de fraqueza.
É pausa.
É respiro.
É o lugar onde a gente pode existir sem performance.

É onde o caos encontra nome, onde o medo encontra voz, onde a gente finalmente se escuta, de verdade.

E o psicólogo?
Não é mecânico de gente quebrada.
É testemunha.
É companhia.
É quem segura a lanterna quando nossos caminhos escurecem.

O problema não é a mente humana, é o mundo que anda pesado demais para ser carregado sozinho.
Ansiedade na cabeceira, pressa na mesa do café, expectativas em cada notificação.

Ninguém enlouqueceu.

Só estamos cansados.

E nesse cansaço coletivo, buscar terapia virou ato de coragem.

De maturidade.

 De amor-próprio.

Claro, o preconceito não some num estalo.
Ele vai se desfazendo aos poucos, como um nó que a gente solta com cuidado.
Cada pessoa que entra num consultório derruba um tijolo dessa muralha.
Cada conversa honesta sobre saúde mental abre uma fresta nova de luz.

Talvez, um dia, a pergunta mude.

 Talvez deixem de perguntar “por que você faz terapia?”
e passem a perguntar
“Como a terapia tem te feito bem?”

Até lá, sigo acreditando:
se é loucura querer viver leve, consciente e inteiro…
então que sejamos todos um pouco loucos.

Loucos de coragem.

Loucos de cuidado.

Loucos de não aceitar o silêncio que adoece.

Porque, no fim das contas, talvez a maior sanidade esteja exatamente nisso:
em permitir-se ser humano.

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