“O quão sortuda eu sou por ter algo que faça dizer adeus ser tão difícil.”
A frase, atribuída ao Ursinho Puff, me acompanhou durante os últimos dias de estágio clínico. Talvez porque ela traduza exatamente aquilo que tenho sentido. Existe uma tristeza inevitável quando algo importante chega ao fim, mas existe também uma beleza poética costurada nesse misto de sensações. Afinal, só é difícil se despedir daquilo que nos transformou.
Quando escolhi cursar Psicologia, confesso que havia muito mais perguntas do que certezas. Não foi uma decisão impulsiva, mas também não foi um chamado místico daqueles que algumas pessoas descrevem. Foi, em muitos aspectos, um salto de fé. Eu sabia que a profissão fazia sentido para mim. Via nela algo profundamente alinhado aos meus valores, aos meus princípios e à forma como eu gostaria de existir no mundo. Parecia um trabalho honroso, capaz de produzir impacto real na vida das pessoas.
Mas eu não fazia ideia do quanto ela mudaria a minha própria vida.
Os primeiros semestres trouxeram conceitos, teorias, discussões sobre ética e relações humanas. Tudo era interessante, mas ainda distante. Foi somente quando me sentei diante de um paciente pela primeira vez que algo mudou. Naquele instante, a Psicologia deixou de ser um conjunto de autores, conceitos e técnicas para se tornar um encontro genuíno entre seres humanos.
Ali começou uma transformação que eu não poderia prever.
Durante muito tempo, achei exageradas as histórias de pessoas que diziam ter se encontrado em uma profissão. Parecia uma dessas frases bonitas que repetimos porque soam inspiradoras. Eu não acreditava que chegaria um momento em que o trabalho deixaria de ser apenas trabalho. Não acreditava que fosse possível experimentar esse tipo de pertencimento.
E então veio a ênfase clínica.
Veio a oportunidade de acompanhar pacientes de diferentes idades, histórias, contextos e sofrimentos. Veio a responsabilidade de conduzir atendimentos, sustentar processos terapêuticos e ocupar, pela primeira vez, o lugar de psicóloga de forma mais concreta. Veio também a possibilidade de atuar a partir da abordagem que escolhi, que, muito além de uma escolha clínica, se mostrou uma forma de enxergar o mundo.
E é impossível falar da minha trajetória sem falar da perspectiva sistêmica.
Porque, para mim, ela nunca foi apenas uma abordagem clínica. É uma forma completamente nova de enxergar as pessoas, os relacionamentos e a própria realidade. Uma maneira de compreender que ninguém existe isoladamente, que somos construídos nos encontros, nos vínculos, nos contextos e nas histórias que nos atravessam. A teoria sistêmica não transformou apenas minha prática profissional. Ela transformou a forma como me relaciono comigo mesma, com os outros e com tudo aquilo que me cerca.
Foi na ênfase que percebi o quanto a teoria pode deixar de ser algo que carregamos nos livros para se tornar algo que carregamos dentro de nós.
Aos poucos, fui estudando, aprofundando conceitos, conectando ideias. E então algo curioso começou a acontecer: eu passei a encontrar a teoria em todos os lugares. Nos relatos dos pacientes, nos filmes, nas séries, nas conversas cotidianas, nos conflitos familiares, nos silêncios, nos gestos aparentemente banais. Porque aquilo que chamamos de banal nunca é banal quando falamos de subjetividade humana.
E isso é uma das coisas que mais me encantam na clínica.
Ser psicóloga é tocar, ainda que por breves instantes, a experiência subjetiva de outra pessoa. É entrar em contato com universos inteiros que existem por trás de cada história narrada. É respeitar tão profundamente a dor do outro que você ocupa um lugar secundário.
E existe uma beleza enorme nisso.
Na posição de quem não sabe. De quem não chega com respostas prontas. De quem assume o papel de estrangeira na vida do outro e, justamente por isso, pode observar com curiosidade genuína. Perguntar. Explorar. Construir sentidos em conjunto.
A clínica me ensinou que ajudar alguém não significa mostrar um caminho. Significa construir colaborativamente condições para que a própria pessoa consiga enxergar os caminhos que já existem, ser criativa e criar seus próprios. Significa ampliar perspectivas, questionar certezas, romper paradigmas e oferecer espaço para que novas narrativas possam surgir.
E eu tive o privilégio de aprender tudo isso em um ambiente seguro.
Tive supervisões que se transformaram em verdadeiras aulas sobre humanidade. Tive uma supervisora que me ofereceu confiança quando eu ainda duvidava de mim mesma. Tive colegas que dividiram angústias, descobertas, inseguranças e conquistas. Tive conversas na sala de descanso, cafés compartilhados, bolos durante as supervisões e incontáveis trocas que extrapolaram qualquer conteúdo programático.
Por isso, quando penso no encerramento dessa etapa, sinto uma mistura curiosa de gratidão e saudade.
Existe o cansaço do último ano. Existe a ansiedade diante do futuro. Existem as burocracias, as incertezas e a pergunta inevitável que acompanha todo processo de transição: “E agora?”.
Mas existe também algo maior.
Existe a certeza de que fui profundamente transformada por essa experiência.
Hoje entendo que viver algo significativo não significa viver algo sem dificuldades. Pelo contrário. As experiências que mais nos marcam costumam vir acompanhadas de medo, exaustão e vulnerabilidade. Não fui feliz apesar dessas coisas. Fui feliz junto delas. Cresci junto delas.
E a despedida inevitavelmente dói, corta um pedaço do coração. Porque cada atendimento, cada supervisão, cada encontro e cada desafio ajudaram a construir a profissional que estou me tornando.
E se eu pudesse dizer algo para quem está iniciando esse percurso, seria: estude. Mergulhe na teoria. Faça dela parte de você. Não para decorar conceitos, mas para que eles se tornem tão vivos que possam dançar junto às histórias que seus pacientes trazem. Permita que o conhecimento habite você de forma profunda.
Mas não se esqueça de viver.
Viva os encontros. Viva as dúvidas. Viva os erros, os aprendizados e até os dias difíceis. Não espere que a felicidade exista na ausência dos obstáculos. Aprenda a encontrá-la ao lado deles.
Porque um dia, quando chegar a hora de se despedir, você perceberá que a tristeza não é um sinal de perda.
Ela é a prova de que algo valeu a pena.
E, nesse sentido, eu me sinto imensamente sortuda.
Sortuda por ter encontrado um lugar onde pude me achar.
Sortuda pelas pessoas que cruzaram meu caminho.
Sortuda pelas histórias que tive o privilégio de escutar.
Sortuda por ter algo que faz dizer adeus ser tão difícil.
