(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

BTS, saúde mental e os estigmas culturais

Me tornei fã do BTS em 2016. Lembro exatamente da primeira vez que vi um clipe deles sem saber que, ao apertar o play, estava abrindo uma porta para algo muito maior do que música. Na época, eu só sabia que algo naquele grupo me tocava profundamente, e com o tempo, entendi: era a coragem de ser vulnerável em um mundo que nos cobra excelência. De lá pra cá, não foi só uma paixão por um grupo coreano. Foi um vínculo afetivo, emocional e, sobretudo, terapêutico.

Desde o início, os álbuns do BTS foram concebidos como projetos conceituais, que dialogam com a juventude e também com as feridas da vida adulta. Eles citam Jung, Nietzsche, filosofia oriental, usam metáforas sofisticadas, e tudo isso embalado em uma estética que não tem medo do belo, do emocional, do sensível.

Esses álbuns soaram como pequenos respiros em momentos em que o peso da vida parecia demais. Eles não têm medo de falar sobre saúde mental, autossabotagem, amor-próprio e o medo de não ser suficiente. E isso é revolucionário, principalmente vindo de artistas que arrastam multidões. Uma música que me atravessa profundamente é “Dis-ease”, do álbum BE. Nela, os integrantes exploram o mal-estar crônico da nossa geração: a exaustão, o vício em produtividade, a dificuldade de parar e simplesmente descansar sem culpa. Eles cantam sobre o cansaço como algo que nos consome de dentro pra fora e, ao trazerem isso à tona, nos dão permissão para sentir, reconhecer e cuidar.

Essa honestidade me ajudou a lidar com os meus próprios processos. Como estudante de Psicologia, sei o quanto é raro ver figuras públicas falando com tanta franqueza sobre sofrimento psíquico e como isso pode ter um efeito profundamente humanizador em quem escuta.

Mas, ao longo desses anos, percebi que ser fã do BTS e do K-pop em geral ainda é visto com muito preconceito. Especialmente quando somos mulheres adultas. É como se gostar de algo colorido, dançante, emocional e esteticamente belo fosse sinônimo de imaturidade. Ao mesmo tempo, homens crescem colecionando camisas de futebol, discutindo jogos e chorando por seus times, e isso é socialmente aceito, até incentivado.

Essa diferença de tratamento ficou ainda mais clara quando me envolvi com uma pessoa que não respeitava o meu gosto. Na época, eu não conseguia nomear o que estava acontecendo. O preconceito vinha de forma velada, disfarçado de brincadeira ou de um comentário irônico aqui e ali. Chegou ao ponto de me fazer sentir envergonhada por algo que sempre foi fonte de alegria. Hoje, vejo o quanto isso era sintomático de um sistema misógino que deslegitima tudo que foge do que é socialmente aceito como “adulto” ou “adequado”.

O que antes era visto como uma fase ou um comportamento juvenil, hoje entendo como uma forma legítima de construção de identidade e resistência simbólica. A experiência com o BTS escancara como gostos culturais também são atravessados por disputas de gênero e reconhecimento social. Não é apenas música, nem algo que precise de validação alheia. É parte de quem sou como mulher adulta.

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