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Do real à ficção: o que The Handmaid’s Tale revela sobre a perda de direitos das mulheres

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Após a chegada das seis temporadas de The Handmaid’s Tale: O Conto da Aia ao catálogo da Netflix, em maio de 2026, a série voltou a circular com força nas redes sociais. Entre comentários de espanto, incômodo e preocupação, muitas mulheres passaram a destacar uma sensação difícil de afastar: embora Gilead seja uma distopia, parte do que aparece na tela parece menos distante da realidade do que deveria. A série assusta não apenas pela violência explícita ou pela rigidez do regime que apresenta, mas porque transforma em ficção extrema formas de controle sobre o corpo, a sexualidade, a maternidade e a liberdade feminina que já fizeram, e ainda fazem, parte da história social e política de diferentes países. 

A força de The Handmaid’s Tale está justamente nessa tensão entre ficção e realidade. A obra não deve ser lida como a adaptação de um fato específico, mas também não nasce de uma fantasia completamente desligada do mundo. Margaret Atwood constrói Gilead a partir de práticas historicamente reconhecíveis de vigilância, punição e submissão das mulheres, levando ao extremo mecanismos que já existiram em diferentes contextos políticos, religiosos e culturais (Atwood, 2017). A própria autora afirmou que estabeleceu como regra não incluir na obra violências que os seres humanos já não tivessem praticado em algum lugar ou momento da história, o que ajuda a explicar por que a série provoca uma identificação tão desconfortável com o presente. 

Em Gilead, as mulheres são separadas por funções: esposas, aias, martas, tias. Cada uma ocupa um lugar previamente definido, e nenhuma delas existe plenamente como sujeito de desejo, escolha e história. O corpo feminino deixa de pertencer à mulher e passa a ser administrado pelo Estado, pela religião e pelos homens. Essa organização revela que a violência contra as mulheres não aparece apenas como agressão individual, mas como estrutura social, sustentada por normas, discursos e instituições que naturalizam a hierarquia entre os gêneros (Saffioti, 2015). A série, nesse sentido, não fala apenas sobre mulheres aprisionadas, mas sobre uma sociedade que transforma a submissão feminina em ordem moral. 

Essa discussão se torna ainda mais inquietante quando observamos o cenário contemporâneo. Nos Estados Unidos, a decisão Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization, de 2022, derrubou a proteção constitucional ao direito ao aborto anteriormente vinculada a Roe v. Wade, devolvendo aos estados a possibilidade de restringir ou proibir o procedimento. Não se trata de afirmar que a realidade se tornou Gilead, pois essa equivalência seria simplista. O ponto crítico é outro: direitos historicamente conquistados podem ser fragilizados quando o corpo das mulheres volta a ser tratado como objeto de decisão moral, jurídica, religiosa e política. Essa disputa em torno da reprodução mostra que a autonomia feminina permanece sendo um campo de tensão, especialmente quando a maternidade é convertida em obrigação social e não em possibilidade de escolha. 

Ao mesmo tempo, organismos internacionais têm alertado para retrocessos nos direitos das mulheres, crescimento da polarização política e avanço da misoginia, inclusive nos ambientes digitais. Em 2025, dados divulgados pela ONU apontaram que quase um quarto dos governos relataram retrocessos nos direitos das mulheres em 2024, em um cenário atravessado por conflitos, desigualdades, discursos conservadores e ataques às políticas de igualdade de gênero. Esse contexto ajuda a compreender por que The Handmaid’s Tale voltou a causar tanto impacto: a série não funciona como previsão literal do futuro, mas como uma advertência sobre a fragilidade dos direitos quando discursos de proteção, tradição, moralidade e família passam a justificar o controle sobre a vida das mulheres. 

Assistir The Handmaid’s Tale hoje, portanto, é também observar os modos pelos quais a misoginia pode se reorganizar no presente. Ela nem sempre aparece de forma explícita ou brutal; muitas vezes, surge como defesa da ordem, da moral, da religião, da infância ou da família. A distopia de Gilead incomoda porque evidencia que a retirada de direitos raramente se apresenta como violência desde o início. Ela pode começar como regulação, proteção, norma, costume ou discurso de bem comum. Por isso, a série segue provocando preocupação: não porque mostra um futuro inevitável, mas porque nos lembra que nenhum direito permanece garantido quando a autonomia das mulheres passa a ser tratada como ameaça. 

Referências:

ATWOOD, Margaret. O conto da aia. Tradução de Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. Tradução de Coletivo Sycorax. São Paulo: Elefante, 2017.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular; Fundação Perseu Abramo, 2015.

SUPREME COURT OF THE UNITED STATES. Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization. Washington, DC: Supreme Court of the United States, 2022.

ONU MULHERES. Um em cada quatro governos relata retrocessos nos direitos das mulheres em 2024. ONU Mulheres, 2025. 

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