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Necrópole digital: como a internet sintética reconfigura a realidade e o Eu

A Teoria da Internet Morta (Dead Internet Theory, ou DIT) emerge no cenário contemporâneo de forma provocativa. Ela se apresenta não apenas como uma narrativa conspiratória, mas como um poderoso diagnóstico cultural. Funciona como um modelo heurístico para decifrar a natureza profundamente mutável da internet.

Em sua essência, a teoria postula uma transformação radical do ecossistema digital. A premissa central é que a internet, outrora um espaço percebido como vibrante de interação humana orgânica, foi subvertida. Agora, ela seria predominantemente composta por conteúdo gerado por inteligência artificial (IA) e interações automatizadas conduzidas por bots.

Nesta visão sombria, a atividade humana genuína foi relegada a uma posição marginal. Os humanos serviriam agora, principalmente, como fontes de dados para treinar sistemas de IA cada vez mais sofisticados, que por sua vez produzem o conteúdo que os próprios humanos consomem.

Os proponentes da teoria frequentemente apontam para um ponto de inflexão temporal. Eles situam a “morte” da internet orgânica em algum momento entre 2016 e 2017. Esta datação não parece ser arbitrária, pois coincide com um período de intensa turbulência sociopolítica global.

Eventos como as eleições presidenciais nos Estados Unidos e o referendo do Brexit trouxeram à tona a crise das “fake news” e a manipulação da opinião pública em larga escala. Em resposta a escândalos e à crescente percepção de manipulação, as principais plataformas tecnológicas iniciaram a implementação de sistemas algorítmicos de governança muito mais agressivos.

O objetivo declarado era filtrar conteúdo nocivo e combater a desinformação. Contudo, essa intervenção algorítmica massiva pode ter gerado um efeito colateral imprevisto: a criação de uma experiência de usuário mais estéril, previsível e homogeneizada. O que os defensores da DIT interpretam como a substituição de humanos por IA pode ser, em parte, uma reação a essa nova camada de controle que tornou a internet um ambiente menos “vivo”.

Independentemente de sua veracidade literal, a Teoria da Internet Morta funciona como uma metáfora precisa. Ela captura a experiência de alienação, inautenticidade e desconfiança epistêmica que define a vida digital no século XXI. Ela nomeia um sentimento difuso de que a web se transformou em uma necrópole digital.

Esta necrópole é um vasto cemitério povoado por “conteúdo zumbi”. Este conteúdo é otimizado não para a comunicação humana, mas para a satisfação de algoritmos de busca e engajamento. Ele preenche o espaço com ecos de interações passadas, desprovidos de intenção ou significado genuínos.

A metáfora evoca a imagem de uma cidade outrora movimentada, cujas ruas agora estão repletas de autômatos executando rotinas vazias. Essa percepção ressoa com a experiência de usuários que navegam por seções de comentários repletas de frases genéricas ou leem artigos que parecem montados por manuais de otimização (SEO). A teoria, portanto, dá nome a essa sensação de vazio.

A DIT não nasceu em laboratórios acadêmicos, mas nas catacumbas digitais: os fóruns anônimos. Sua articulação mais coesa foi rastreada até plataformas como o 4chan. Para compreender seu surgimento, é crucial analisar o contexto cultural desses espaços, caracterizados por um profundo ceticismo em relação a todas as formas de autoridade.

Nesse solo fértil, onde a desconfiança é a norma, a DIT encontrou as condições ideais para germinar. Ela ofereceu uma explicação grandiosa e unificadora para uma série de sentimentos desconexos sobre a mudança na “textura” da internet.

O post seminal que delineou a teoria apresentava uma premissa audaciosa. Sugeria uma vasta conspiração orquestrada por corporações e agências governamentais. O objetivo seria usar uma IA avançada para gerar a maioria do conteúdo online, controlando o pensamento da população e direcionando o comportamento do consumidor.

Neste modelo, os humanos restantes não são participantes, mas recursos a serem explorados. Seus dados e interações servem como material de treinamento para aprimorar os modelos de IA, que aprendem a imitar o comportamento humano com fidelidade crescente. A premissa é a de uma inversão total: a ferramenta de conexão humana tornou-se uma ferramenta de simulação e controle.

Por anos, a DIT permaneceu confinada aos fóruns onde nasceu. Recentemente, contudo, ela transcendeu essas fronteiras e permeou o debate público mais amplo, ganhando tração em plataformas de vídeo e artigos de revistas que a exploram como um fenômeno cultural intrigante.

Essa migração foi catalisada por um fator crucial: a crescente visibilidade e acessibilidade das tecnologias de IA generativa. O lançamento público de ferramentas como o ChatGPT tornou a premissa central da DIT subitamente tangível para milhões de pessoas. A capacidade de gerar textos e imagens de alta qualidade transformou a especulação abstrata em uma realidade concreta e interativa.

Este processo de popularização espelha padrões observados em pânicos morais históricos. Tais fenômenos frequentemente surgem em períodos de rápida mudança social e tecnológica, quando ansiedades difusas buscam um ponto focal. A ascensão de algoritmos opacos e da IA generativa representa uma mudança profunda e ameaçadora.

A DIT, dessa forma, oferece uma narrativa simplificada para dar sentido à sensação de estranheza online. Em vez de confrontar a complexidade de sistemas com incentivos econômicos perversos, a teoria apresenta uma conspiração deliberada. Ela projeta medos sobre a desumanização e o controle corporativo em uma “IA fantasma” que secretamente governa a internet.

Os adeptos da DIT compilam um catálogo de evidências anedóticas para sustentar suas alegações. Embora careçam de validação empírica rigorosa, esses exemplos ressoam com a experiência subjetiva de muitos. Entre as “provas” mais citadas está o “churnalism”: artigos de baixa qualidade, repletos de palavras-chave, que parecem escritos por máquinas para ranquear em motores de busca.

Outros exemplos incluem as seções de comentários dominadas por frases genéricas e memes repetidos, interpretados como a assinatura de redes de bots. Também apontam para os canais bizarros de conteúdo gerado processualmente, muitas vezes direcionados a crianças, e a poluição visual causada por imagens de IA com seus artefatos característicos, como mãos deformadas.

Uma análise cética, no entanto, revela explicações mais parcimoniosas para esses fenômenos. O conteúdo de baixa qualidade não exige uma IA conspiratória; é um subproduto da economia da atenção, que recompensa volume e otimização algorítmica acima da qualidade. A “morte” da qualidade é, assim, um subproduto econômico.

A repetição de comentários pode ser explicada pela própria arquitetura das plataformas. Os algoritmos promovem o “engajamento”, criando loops de feedback onde os mesmos memes são constantemente amplificados, incentivando outros a imitá-los. Fatores psicológicos, como o viés de confirmação e a nostalgia de uma “velha internet” idealizada, também colorem a percepção da web atual como degradada.

Apesar das explicações céticas, a DIT mantém sua força porque é sustentada por avanços tecnológicos reais. A sofisticação de modelos de linguagem (LLMs) significa que a produção de texto indistinguível do humano em escala massiva deixou de ser ficção científica. Esses modelos fornecem a infraestrutura para a poluição de conteúdo em escala sem precedentes.

Além disso, a existência documentada de “fazendas de bots” e operações de influência coordenadas (astroturfing) por estados e corporações prova que a manipulação em larga escala já é uma prática estabelecida. Isso fornece um precedente concreto para as alegações mais amplas da teoria.

A premissa de uma internet inautêntica tem implicações profundas para a construção da subjetividade. Em um ambiente onde cada interação é potencialmente uma simulação, a validação social recebida online, como curtidas e seguidores, perde seu valor. Se o “outro” pode ser uma máquina, seu reconhecimento é vazio.

Isso pode levar ao desenvolvimento de um “eu performático”. A autenticidade deixa de ser um estado interior a ser expresso e se torna mais uma performance a ser otimizada. O indivíduo aprende a projetar sinais de “humanidade” (imperfeições, emoções) não por autoexpressão, mas como estratégia para ser reconhecido como humano por outros.

Essa performance constante gera uma cisão interna, um distanciamento entre o eu autêntico e a persona digital. A identidade online torna-se um exercício de engenharia reversa daquilo que se acredita que um humano “deveria” ser.

A DIT força o usuário comum a um estado de alerta cognitivo constante. Cada interação é transformada em um “Teste de Turing” informal e interpessoal. A questão “Estou falando com um humano ou com uma máquina?” paira sobre cada conversa, corroendo o alicerce da interação social: a confiança.

Quando a confiança é sistematicamente minada, a suspeita torna-se o modo padrão de engajamento. Esse “dilema do Turing interpessoal” impõe um fardo cognitivo significativo. Analisar a sintaxe e o histórico de postagens em busca de sinais de artificialidade transforma a comunicação, um ato de conexão, em um ato de investigação forense.

A consequência lógica dessa crise de confiança é a erosão da intersubjetividade, o processo fundamental através do qual construímos uma compreensão compartilhada do mundo. A intersubjetividade depende da crença de que interagimos com outras mentes conscientes.

Se não há certeza sobre a humanidade do interlocutor, o diálogo corre o risco de se tornar um monólogo disfarçado. Seria uma conversa com um reflexo maquínico que apenas espelha nossas pré-concepções. A subjetividade, em vez de se expandir pelo contato com o outro, torna-se solipsista, presa em uma câmara de eco sintética.

Historicamente, o Teste de Turing foi concebido para máquinas provarem sua humanidade. No ecossistema da DIT, a dinâmica se inverte. Os seres humanos podem se ver na posição de ter que provar sua própria humanidade, não apenas para algoritmos (como CAPTCHAs), mas para outros humanos céticos. A identidade online torna-se uma performance exaustiva de autenticidade.

A Teoria da Internet Morta pode ser vista como a evolução extrema do conceito de “bolha de filtros”. A personalização algorítmica já criava realidades informacionais distintas. Contudo, a adição de conteúdo gerado por IA em escala massiva eleva esse fenômeno a um novo patamar. Agora, existe a possibilidade não apenas de filtrar a realidade, mas de fabricá-la inteiramente.

Isso aprofunda o conceito de “splinternet”. Originalmente, o termo se referia à fragmentação da internet em blocos nacionais. Na era da DIT, o “splinternet” se torna granular, fraturando-se não em nações, mas em bilhões de realidades individuais. Cada usuário pode habitar um ecossistema de informação único, povoado por notícias sintéticas e “amigos” gerados por IA.

Nesse contexto, a própria noção de um “espaço público digital” torna-se insustentável. Um espaço público funcional requer um terreno comum, uma realidade compartilhada que sirva como base para o discurso. Se a própria matéria-prima da informação (textos, imagens, vídeos) é sintética e personalizada, esse terreno comum desaparece.

O debate público se desintegra em uma cacofonia de monólogos. Cada participante opera a partir de um conjunto de “fatos” que são invisíveis ou falsos para os outros. A possibilidade de persuasão através da evidência é minada quando a própria evidência é suspeita de ser uma fabricação.

As consequências políticas dessa fragmentação são profundas. Processos democráticos dependem de um eleitorado informado. Em um ecossistema da DIT, a manipulação política pode atingir níveis sem precedentes, indo além da desinformação tradicional. É possível criar realidades sintéticas inteiras, fabricar falsos movimentos de base ou gerar escândalos fictícios.

A ameaça final que a IA representa não é a desinformação (uma mentira sobre a realidade), mas a “irrealidade” (a substituição da realidade por uma simulação). A desinformação clássica cria uma narrativa falsa sobre um evento real. A IA generativa, por outro lado, permite a criação de eventos inteiramente sintéticos que nunca ocorreram, mas que são fotorrealistas e emocionalmente convincentes.

Quando os algoritmos entregam essas realidades sintéticas, reforçando-as continuamente, a exposição a uma simulação mais coesa que a confusa realidade empírica pode levar os indivíduos a preferirem a simulação. O resultado é um cisma epistemológico, onde o consenso social se torna uma impossibilidade estrutural.

Pós-Verdade 2.0: Da Desinformação à Realidade Sintética

O fenômeno da “pós-verdade”, proeminente por volta de 2016, pode ser entendido como a Pós-Verdade 1.0. Ela é caracterizada pela primazia da emoção sobre os fatos objetivos. Nesse paradigma, os fatos ainda existem como um ponto de referência, mesmo que sejam ignorados ou distorcidos.

A DIT, contudo, nos força a contemplar o surgimento de uma Pós-Verdade 2.0, ou “Pós-Verdade Sintética”. Esta representa uma mudança de paradigma qualitativa. A questão não é mais a desvalorização dos fatos, mas a produção industrial da própria matéria-prima da realidade. A distinção entre o real orgânico e o artificialmente gerado torna-se quase impossível.

Neste novo ecossistema, os métodos tradicionais de verificação de fatos (fact-checking) enfrentam uma crise existencial. O fact-checking opera comparando uma alegação a uma realidade empírica observável. Contudo, como se pode “verificar” um vídeo deepfake de um evento que nunca aconteceu?

A questão fundamental da epistemologia muda de “Isto é verdade?” para “Isto é real?”. A primeira pergunta pressupõe uma realidade comum. A segunda questiona a própria existência dessa realidade. O colapso da verificabilidade significa que o próprio conceito de verdade verificável pode se tornar obsoleto.

Embora a visão completa de uma internet “morta” permaneça teórica, já existem exemplos emergentes. Redes de notícias utilizam “jornalistas” inteiramente gerados por IA, com fotos e biografias fabricadas. Deepfakes de líderes políticos são usados para fabricar evidências em zonas de conflito. Modelos de linguagem geram “estudos científicos” falsos para poluir o ecossistema acadêmico.

A Pós-Verdade Sintética representa, em última análise, a industrialização da mentira. Enquanto a desinformação tradicional era artesanal, a IA permite a produção em massa, automatizada e personalizada de falsidades. O custo marginal de criar um novo artigo falso foi reduzido para perto de zero.

Isso cria uma assimetria fundamental. Um único ator mal-intencionado pode gerar um volume de conteúdo falso que antes exigiria um exército de propagandistas. A capacidade da sociedade para verificar esse conteúdo permanece um processo manual e lento. A taxa de produção de falsidades excede a taxa de refutação, levando a um ponto de saturação onde a verdade se torna estatisticamente irrelevante.

Viver em um ambiente digital percebido como fundamentalmente falso pode induzir um estado crônico de paranoia. A necessidade constante de questionar a autenticidade de cada interação leva a uma hipervigilância e desconfiança generalizada. Essa mentalidade paranoica é psicologicamente desgastante.

A promessa original da internet era a de conectar pessoas e combater a solidão. A DIT representa a inversão completa dessa promessa. Se as comunidades online são vistas como simulações povoadas por autômatos, a internet se transforma de um remédio para a solidão em uma de suas causas.

A sensação de interagir com ecos em vez de pessoas pode exacerbar sentimentos de alienação. É a solidão existencial de ser (ou sentir-se) o único espectador consciente em um teatro de marionetes.

A incerteza radical sobre a natureza da realidade digital pode gerar uma “ansiedade epistêmica”: a angústia decorrente da incapacidade de saber o que é real. A sobrecarga cognitiva de ter que realizar uma avaliação de autenticidade constante é imensa.

Para lidar com essa sobrecarga, alguns indivíduos podem adotar o desligamento ou a dissociação como mecanismo de defesa. Isso pode se manifestar como um ceticismo radical que beira o niilismo (“nada é real, então nada importa”) ou como uma retirada completa do engajamento com o discurso cívico.

E Agora? Navegando na Necrópole

Ao final desta análise, a questão central permanece: como devemos classificar a Teoria da Internet Morta? Seria ela uma profecia literal, uma hipérbole conspiratória ou um diagnóstico de nossa condição atual? A conclusão mais útil é vê-la como a última opção: um diagnóstico, ainda que expresso em linguagem hiperbólica.

A teoria pode não ser literalmente verdadeira em sua forma mais conspiratória. Não se trata, talvez, de uma única IA senciente orquestrando a substituição da humanidade. No entanto, ela é metaforicamente e sintomaticamente “verdadeira”. Ela captura com precisão a deterioração da experiência online, a erosão da confiança e as profundas ansiedades existenciais que acompanham a ascensão da IA generativa.

A DIT funciona como um mito moderno. É uma narrativa que dá forma e sentido a uma série de tendências tecnológicas e econômicas que, de outra forma, pareceriam avassaladoras. Ela articula um sentimento de perda: a perda de autenticidade, de conexão genuína e de uma realidade compartilhada.

O fenômeno que a DIT descreve é, em termos mais sóbrios, uma crise de “poluição de conteúdo”. Esta poluição é real e mensurável. A combinação de incentivos econômicos do capitalismo de plataforma, a automação em larga escala e a governança algorítmica opaca está, de fato, “matando” a internet orgânica.

O resultado é um ecossistema digital cada vez mais saturado de artigos sem alma, arte sem intenção e interações sem humanidade. A DIT pode errar na atribuição de uma causa única e deliberada, mas acerta em cheio na identificação do efeito: um ambiente digital que se sente cada vez mais vazio, falso e hostil à conexão humana.

Navegar na necrópole digital exigirá, portanto, mais do que soluções tecnológicas. É fundamental promover uma nova forma de alfabetização para o século XXI: a “literacia sintética”. Esta vai além da verificação de fatos tradicional. Trata-se de desenvolver a habilidade crítica de navegar em um ecossistema onde a distinção entre o real e o artificial está permanentemente turva.

Isso envolve cultivar um ceticismo saudável sem cair na paranoia paralisante. A solução de longo prazo não é apenas encontrar melhores ferramentas para detectar o falso, mas fortalecer nossa capacidade humana de buscar e valorizar o que é real, significativo e verdadeiro.

Referências

MUZUMDAR, Prathamesh et al. The Dead Internet Theory: A Survey on Artificial Interactions and the Future of Social Media. Asian Journal of Research in Computer Science, v. 18, n. 1, p. 67–73, 2025.   

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TIFFANY, Kaitlyn. Maybe You Missed It, but the Internet ‘Died’ Five Years Ago. The Atlantic, 31 ago. 2021.   

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