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O Big Brother Brasil (BBB) é uma instituição total? Um ensaio com Goffman e Foucault

O Big Brother é um formato de reality show baseado no confinamento e na vigilância contínua de pessoas comuns que são transformadas em espécies de personagens midiáticos. O programa isola participantes em uma casa monitorada por câmeras e microfones durante vinte e quatro horas por dia, submete-os a regras específicas de convivência e provas competitivas, e permite que o público interfira no jogo por meio de votações. O próprio nome do programa remete a uma referência literária, o “Big Brother”, personagem do romance 1984, de George Orwell. Na obra, publicada em 1949, Big Brother é a figura simbólica de um regime totalitário baseado na vigilância constante da população, sintetizada no lema “Big Brother is watching you” (“O Irmão mais velho está observando você”).

Embora o reality show tenha finalidade de entretenimento e não de controle político, a apropriação desse nome destaca a centralidade da observação contínua como elemento estruturante do formato. Assim como no universo ficcional de Orwell, a visibilidade permanente molda comportamentos, produz autocensura e transforma a experiência cotidiana sob o olhar ininterrupto de uma instância observadora, no caso do programa, as câmeras e o público. A vida cotidiana, que fora da televisão seria privada e banal, vira um espetáculo editado, narrado e consumido como entretenimento de massa. Essa estrutura de exposição permanente constitui o ponto de partida para compreender a força cultural do formato.

A consolidação desse modelo como produto global teve início no final da década de 1990. A ideia que deu origem ao Big Brother foi desenvolvida por produtoras neerlandesas lideradas por John de Mol e estreou na Holanda em 1999, introduzindo a combinação entre residência vigiada, edição televisiva diária e premiação ao vencedor. Embora dialogasse com experiências anteriores da televisão e da internet, sua estrutura fechada e licenciável possibilitou rápida expansão internacional. Esse processo preparou o terreno para a adaptação brasileira.

O Big Brother Brasil estreou em 2002 e tornou-se um dos produtos televisivos de maior impacto cultural no país. Exibido pela Rede Globo, o BBB manteve o modelo internacional, mas desenvolveu características próprias, como a forte integração com o público por meio de votações, programas diários de resumo e intensa presença nas redes sociais. Ao longo das temporadas, o programa impulsionou debates sobre comportamento, gênero, raça e cultura digital, além de projetar participantes à condição de celebridades. Essa centralidade cultural convida a compreender o BBB não apenas como entretenimento, mas como fenômeno social.

Essa dimensão social se evidencia quando observamos como o programa transforma pessoas em personagens. A construção de heróis e vilões constitui um dos principais mecanismos narrativos que sustentam o engajamento do público. O reality organiza acontecimentos cotidianos em enredos morais simplificados, nos quais participantes passam a representar papéis reconhecíveis de bondade, maldade, vítima ou antagonista. Tal estrutura facilita a identificação do público e intensifica o julgamento coletivo, mas também reduz a complexidade das subjetividades envolvidas (Sorgine, 2017). Essa simplificação aproxima o reality de formas ficcionais já consolidadas na televisão.

A relação entre BBB e ficção televisiva torna-se evidente quando se compara sua narrativa à das telenovelas. Assim como nas novelas, o reality estrutura arcos dramáticos, cria expectativas, elege favoritos e desenvolve conflitos centrais e conduz o espectador a tomar partido. A diferença reside na promessa de realidade, que intensifica o engajamento moral, pois o público acredita estar julgando pessoas reais. A combinação entre melodrama e autenticidade fortalece a narrativa e amplia seu impacto. Esse efeito depende diretamente da forma como os acontecimentos são editados.

A montagem televisiva organiza a experiência caótica do confinamento em histórias compreensíveis. Embora o programa se apresente como retrato da realidade, o que chega ao público resulta de seleção, recorte e organização de imagens. A edição constrói coerência dramática, destaca conflitos, silencia contextos e reforça determinados traços de personalidade. Esse processo influencia a leitura do público, que passa a interpretar os participantes a partir das molduras narrativas oferecidas pelo programa (Sorgine, 2017), e ao transformar a vida em narrativa, o BBB também a converte em espetáculo.

A espetacularização da vida cotidiana é um traço marcante da sociedade contemporânea. Guy Debord (1967) argumenta que as relações sociais passam a ser mediadas por imagens e representações que se impõem como realidade. No BBB, conflitos, afetos e crises emocionais tornam-se conteúdo editado para gerar audiência. A vida deixa de ser apenas vivida para ser performada diante das câmeras, reforçando a lógica do espetáculo como forma dominante de mediação social. Essa lógica se articula diretamente com a experiência do confinamento, como as representadas pelas instituições totais.

A noção de instituição total, formulada por Erving Goffman (1961), contribui para compreender sociologicamente a experiência vivida dentro da casa. Para o autor, instituições totais são espaços sociais fechados nos quais indivíduos vivem isolados da sociedade mais ampla, compartilhando uma rotina rigidamente administrada por uma autoridade central (Goffman, 1961). Nessas instituições, as fronteiras entre vida privada, trabalho e lazer desaparecem, e o cotidiano passa a ser organizado por regras externas. Essa definição oferece base teórica para comparar o BBB a esse tipo de organização social.

O BBB apresenta diversas características que se aproximam dessa definição. Os participantes vivem em espaço fechado, separados do mundo exterior, sem acesso livre a informações ou rotinas anteriores. Todas as atividades ocorrem no mesmo local e sob as mesmas regras. Há ainda uma divisão entre quem detém o controle institucional  “a produção”, e aqueles que estão submetidos às normas “os participantes”. Essa estrutura cria um ambiente no qual a autonomia individual é constantemente negociada com as exigências do jogo.

A comparação com instituições totais exige atenção às diferenças, pois ao contrário das prisões ou hospitais psiquiátricos analisados por Goffman, o confinamento no BBB é voluntário, mediado por contrato e associado à promessa de prêmio financeiro e visibilidade pública. A finalidade institucional também se distingue, pois não se trata de punir ou tratar, mas de produzir entretenimento. Ainda assim, a experiência subjetiva de viver sob vigilância constante aproxima o reality de certas dinâmicas institucionais, entre elas o processo que Goffman denomina mortificação do eu.

A mortificação do eu é descrita por Goffman (1961) como um processo em que há desestruturação da identidade anterior do indivíduo e sua reconstrução segundo as normas da instituição, o que ajuda a compreender os efeitos subjetivos do confinamento. No BBB, algo semelhante ocorre quando participantes ajustam comportamentos e falas em função das regras do programa, da edição televisiva e do julgamento do público. Traços da identidade civil podem ser substituídos por versões estratégicas de si, moldadas pela lógica do jogo. Essa transformação subjetiva relaciona-se diretamente à condição de vigilância permanente.

A teoria do panoptismo, desenvolvida por Michel Foucault (1975), ajuda na compreensão dessa vigilância constante, pois o autor utiliza o modelo do panóptico de Jeremy Bentham para explicar formas de poder baseadas na visibilidade contínua e na interiorização do olhar do outro. Quando o sujeito sabe que pode estar sendo observado a qualquer momento, passa a regular a si mesmo. A visibilidade funciona, assim, como tecnologia de controle, descrição que dialoga com o que ocorre no BBB.

O programa aproxima-se do panoptismo ao submeter os participantes a um regime de visibilidade permanente com as câmeras registrando todos os movimentos, e a incerteza sobre quando alguém está sendo observado produz comportamentos moldados pela expectativa de julgamento. Os participantes agem considerando os colegas de confinamento e a audiência invisível que os assiste. Essa interiorização do olhar coletivo constitui um efeito típico das sociedades disciplinares. Contudo, o modelo de vigilância do BBB não se limita a essa lógica.

Apesar das semelhanças, o BBB não é um panóptico em sentido estrito pois no modelo clássico, poucos observam muitos; no reality, milhões observam poucos. Thomas Mathiesen (1997) propôs o conceito de sinóptico para descrever essa situação em que muitos observam poucos. O BBB combina, portanto, elementos panópticos e sinópticos, já que há vigilância institucional da produção e vigilância difusa exercida pelo público e essa presença ativa do público manifesta-se com força nas mídias sociais.

É preciso considerar que nos últimos anos a influência do BBB ultrapassa a televisão e se expande intensamente para as mídias sociais digitais. O programa estimula conversações contínuas em plataformas nas quais o público comenta, julga, cria memes e organiza torcidas. Essa circulação ampliada de sentidos transforma o reality em fenômeno transmidiático, no qual a experiência não se limita à exibição televisiva (Wienke; Feijó, 2023), e a audiência além de ser apenas espectadora e passa a atuar como produtora de sentidos, alterando o próprio funcionamento do programa.

A dinâmica transmidiática modifica a forma como os acontecimentos ganham relevância pública com a repercussão nas redes sociais retroalimentando a narrativa televisiva, e emergindo temas que viralizam  e passam a receber maior destaque na edição e nos programas ao vivo (Leandro; Burigo, 2025). Essa circularidade entre televisão e internet cria um ecossistema comunicacional integrado. O reality passa a existir como programa e como fluxo contínuo de conversações digitais, o que ajuda a explicar sua presença constante no debate público.

A influência do BBB pode ser analisada também a partir da teoria do agendamento, que versa que a mídia influencia os temas sobre os quais as pessoas pensam ao definir o que recebe visibilidade. O destaque dado a conflitos e acontecimentos do BBB em programas televisivos e redes sociais contribui para que o reality ocupe espaço nas conversas cotidianas (Leandro; Burigo, 2025). Mesmo em um cenário digital, a televisão ainda exerce papel relevante na definição da agenda pública. Esse poder de pautar debates reforça a dimensão social e política do programa.

Entende-se portanto que o BBB não pode ser classificado como uma instituição total em sentido pleno, pois diferentemente das prisões, conventos, quartéis ou hospitais psiquiátricos descritos por Goffman (1961), o confinamento é voluntário, temporário e mediado por contrato, além de estar vinculado à promessa de recompensa financeira e visibilidade social. Sua finalidade não é disciplinar para corrigir, tratar ou punir, mas produzir entretenimento e engajamento midiático. O poder exercido é compartilhado com uma audiência massiva que observa, julga e interfere nos rumos do jogo.

Dessa forma, o Big Brother Brasil pode ser compreendido como uma forma híbrida, que incorpora traços de instituição total, mas os reinscreve na lógica do espetáculo e da cultura midiática contemporânea, tratando-se de um espaço de confinamento voluntário no qual a vigilância se converte em mercadoria, entretenimento e mecanismo de produção de celebridades. O programa atualiza elementos em um contexto no qual visibilidade, performance e reconhecimento público se tornam o foco.

Concluir que o BBB é “uma instituição total” seria, portanto, simplificação. Mais adequado é entendê-lo como um tipo de laboratório midiático de convivência sob vigilância, no qual dinâmicas típicas de instituições totais são reconfiguradas pela lógica do espetáculo, do mercado e da participação do público. O programa mobiliza debates intensos sobre comportamento, moralidade e vida privada, ao mesmo tempo em que é jogo e entretenimento, ele encena tensões das sociedades contemporâneas marcadas pela exposição constante e pela mediação das relações sociais por imagens.

Referências

DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.

FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987.

GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974.

MATHIESEN, Thomas. The viewer society: Michel Foucault’s “Panopticon” revisited. Theoretical Criminology, v. 1, n. 2, p. 215–234, 1997.

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. ISBN 978-85-359-1484-9. Publicado originalmente em 1949.

SORGINE, Cecília Bittencourt. Big Brother Brasil: as estratégias narrativas para a construção de heróis e vilões. Monografia (Jornalismo) – Escola de Comunicação, Universidade Federal do Rio de Janeiro – ECO/UFRJ, 2017.

WIENKE, Vitória Sartoretto; FEIJÓ, Valéria Casaroto. Big Brother Brasil: influência e conversações nas mídias sociais digitais. in: 22º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul, Guarapuava/PR, 08–10 jun. 2023.

LEANDRO, Maria Henrique; BURIGO, Lize. Big Brother Brasil: uma análise da confluência entre a agenda midiática e agenda pública. Revista Vincci: Periódico Científico da UniSATC, v. 8, n. 2, p. 125–155, 2025. DOI: 10.70185/2525-6025.2023.v8.329.

SANTOS, Denisson; JUNGSTEDT, Leonor; CONTENTE, Renato; ALVES, Lucirley. BBB: Big Brother Brasil como fenômeno de comunicação digital. FGV ECMI, 2025.

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