“O povo fala que não tem preconceito, mas quando você é macumbeiro, você tem que sair do armário.” (Anitta)
O que é preciso esconder para pertencer?
A pergunta parece inevitável diante da fala recente de Anitta sobre sua relação com o candomblé. Em entrevista ao programa ‘Sem Censura’, da TV Brasil, a cantora falou sobre um período em que ainda não tornava pública sua religião e sobre o medo das consequências que essa exposição poderia trazer para sua carreira. “Quando você é macumbeiro, você tem que sair do armário”, afirmou.
A frase ganhou repercussão nas redes e na imprensa, como costuma acontecer com quase tudo que envolve uma das artistas brasileiras de maior projeção internacional. Mas, para além do alcance de quem a pronunciou, há algo de inquietante na imagem escolhida por Anitta.
Sair pressupõe ter estado dentro.
Pressupõe esconder. Silenciar. Calcular o momento em que aquilo que pertence à intimidade poderá finalmente atravessar a porta e ocupar o espaço público.
A própria cantora contou que esse cálculo fez parte de sua trajetória. Frequentadora de terreiros desde a infância, Anitta relatou que teve medo de perder contratos publicitários e oportunidades profissionais caso assumisse publicamente sua religião. Anos depois, ela associa a decisão de se posicionar abertamente sobre sua fé a uma sensação de liberdade.
Mas por que professar uma religião precisaria ser um ato de coragem?
A pergunta não começa com Anitta.
Muito antes de sua fala alcançar milhões de pessoas, povos de terreiro, pesquisadores, intelectuais e movimentos negros já denunciavam as violências dirigidas às religiões de matriz africana no Brasil. Uma história atravessada pela perseguição de práticas, símbolos, saberes e modos de existência que, durante séculos, foram associados ao feitiço, à bruxaria, ao atraso e ao mal.
Talvez, antes de perguntarmos por que alguém esconde sua fé, seja preciso perguntar: quem nos ensinou a temê-la?
É nesse ponto que a escolha das palavras importa.
Durante muito tempo, “intolerância religiosa” tornou-se a expressão mais utilizada para nomear agressões e discriminações motivadas pela religião. Mas será que intolerância é suficiente quando algumas crenças são historicamente mais perseguidas que outras?
Sidnei Nogueira (2020), ao discutir as violências sofridas pelas Comunidades Tradicionais de Terreiro, propõe compreendê-las a partir do racismo religioso. Para o autor, classificá-las somente como intolerância pode encobrir o racismo que atravessa a perseguição às tradições africanas e afro-brasileiras. Não se ataca apenas uma escolha individual de fé. A violência alcança também práticas, conhecimentos e saberes ancestrais.
Há uma diferença importante aí.
Tolerar é suportar a existência do outro. Reconhecê-lo pressupõe algo maior.
Talvez seja por isso que a palavra “macumbeiro”, escolhida pela própria Anitta em sua fala, seja tão provocadora. “Macumba” e suas derivações foram tantas vezes utilizadas de maneira pejorativa que ainda carregam, no imaginário social, sentidos ligados ao medo, ao perigo e àquilo que deveria ser mantido à distância.
O problema não está apenas nas palavras que utilizamos. Está nas relações de poder que fazem algumas delas se tornarem insulto.
E é aqui que o debate também encontra a Psicologia.
Rocha e Nobre (2023), ao perguntarem se o racismo religioso é uma questão para a Psicologia, compreendem o fenômeno como um importante vetor de subjetivação no cotidiano. A provocação dos autores nos ajuda a deslocar o olhar dos episódios mais evidentes de violência para algo que também se produz nas relações, nos espaços e nos modos de existir.
Afinal, o preconceito não começa somente quando alguém agride.
Há também o silêncio.
Há o receio.
Há aquilo que se escolhe não mostrar.
Há a leitura constante do ambiente para descobrir onde determinadas partes de si podem ou não aparecer.
Não se trata de transformar toda experiência de discriminação em diagnóstico ou de presumir o sofrimento de quem a vivencia. Trata-se de reconhecer que nenhuma subjetividade se constrói isoladamente. Existimos em relação com os outros, atravessados pelos espaços que nos acolhem, nos rejeitam, nos reconhecem ou tentam nos silenciar.
Por isso, a metáfora do armário parece dizer tanto.
Esconder uma religião pode significar esconder muito mais do que aquilo em que se acredita. Pode envolver símbolos, práticas, vínculos, memórias, ancestralidades e espaços de pertencimento. Há uma diferença entre poder ter uma fé e sentir-se autorizado a existir publicamente com ela.
Talvez EQUILIBRIVM torne essa discussão ainda mais interessante.
Há algo simbolicamente potente nesse movimento.
Aquilo que um dia esteve atravessado pelo medo de ser revelado passa a ocupar a música, a imagem, o corpo e o palco.
Não se trata de transformar Anitta em representante dos povos de terreiro, tampouco de atribuir a uma artista pop o protagonismo de uma luta muito anterior a ela. As religiões de matriz africana não precisaram da cultura pop para existir, resistir ou produzir seus próprios saberes.
Mas visibilidade também disputa imaginários.
E quando uma artista com alcance internacional coloca diante de milhões de pessoas símbolos e referências religiosas que historicamente foram associados ao escondido, ao perigoso ou ao demonizado, alguma coisa se desloca.
Talvez seja justamente isso que a fala recente de Anitta nos permita enxergar.
O Brasil gosta de se dizer um país de fé. Ela está nas casas, nas ruas, nos programas de televisão, nas músicas, nas redes sociais e nos discursos públicos. Deus cabe em camisetas, adesivos, biografias, palcos e agradecimentos.
Mas será que todas as formas do sagrado encontram a mesma liberdade para existir?
Talvez a questão não esteja apenas em alguém precisar “sair do armário” para assumir sua religião.
Talvez esteja na existência do próprio armário.
Porque liberdade religiosa não deveria significar somente o direito de acreditar silenciosamente. Deveria significar também o direito de não precisar esconder uma parte de si para continuar pertencendo.
Enquanto algumas pessoas ainda precisarem medir as consequências de dizer publicamente qual é a sua fé, talvez seja necessário continuar perguntando não apenas por que alguém decidiu escondê-la.
Mas por que algumas fés ainda precisam pedir licença para existir.
Referências
NOGUEIRA, Sidnei. Intolerância religiosa. São Paulo: Sueli Carneiro; Pólen, 2020.
ROCHA, Matheus Barbosa da; NOBRE, Maria Teresa. ESTÁTUAS DECEPADAS E DEGOLADAS: RACISMO RELIGIOSO, UMA QUESTÃO PARA A PSICOLOGIA? Racismo religioso, ¿una pregunta para la Psicología?. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as (ABPN), [S. l.], v. 16, n. Edição Especial, 2023. Disponível em: https://abpn.emnuvens.com.br/site/article/view/1566. Acesso em: 13 ago. 2026.
