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Violência, saúde mental e a difícil construção do acolhimento institucional: (En)cena entrevista Izabella Ferreira dos Santos, Conselheira do CRP-23

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O Portal (En)Cena recebe Izabella Ferreira dos Santos para uma conversa sobre mulheres, violência e os desafios do acolhimento psicológico dentro das instituições. Em um cenário em que diferentes formas de violência seguem atravessando a vida cotidiana e impactando profundamente a saúde mental feminina, pensar a atuação da Psicologia também é refletir sobre escuta, cuidado e responsabilidade ética diante do sofrimento.

Psicóloga formada pelo Centro Universitário Luterano de Palmas, Izabella é especialista em Saúde Mental e Atenção Psicossocial pela Fiocruz e mestre em Ciências da Saúde pela UFT. Servidora pública da Saúde do Estado do Tocantins desde 2010, atuou no Hospital Geral de Palmas e no Serviço de Atenção Especializada às Pessoas em Situação de Violência Sexual do Hospital e Maternidade Dona Regina. Atualmente, está cedida ao Tribunal de Justiça do Tocantins, onde atua como gestora de projetos junto ao Grupo Gestor de Equipes Multidisciplinares. Também é conselheira efetiva do Conselho Regional de Psicologia da 23ª Região.

É com grande satisfação que o Portal (En)Cena abre espaço para esta entrevista, em uma conversa sobre escuta institucional, saúde mental, violência e os desafios de sustentar cuidado em realidades marcadas pela vulnerabilidade e pela complexidade humana.

A banalização da violência pode causar vários impactos na vida das mulheres. Primeiro que quando episódios de violência são vistos e tratados pela sociedade como “normais” ou “aceitáveis”, as mulheres podem passar a também minimizar o que estão vivendo e/ou deixar de reconhecer episódios de violência e abusos, assim como ter menos elementos para identificar que estão vivendo um relacionamento tóxico, violento. Isso é muito grave por que reconhecer violências é um passo fundamental para enfrentá-las. Além do mais, as mulheres ficam em uma situação muitas vezes de isolamento ao perceberem que a violência que sofrem não é tratada com a seriedade e cuidado necessários, de modo que sentimentos de culpa e vergonha podem estar bastantes presentes, acentuando ainda mais o sofrimento vivenciado por elas.

Isso aponta para a forma como a socialização de homens e mulheres acontece em nossa sociedade. Mulheres são ensinadas desde muito cedo que para serem consideradas “boas” mulheres, precisam demonstrar docilidade, passividade, submissão. São ensinadas que mulheres não podem levantar o tom de voz em hipótese alguma, não podem sequer rir alto ou demonstrar liderança em várias situações e devem ser pacientes, compreensivas e, sobretudo, resilientes. Então, meninas e mulheres são ensinadas a sempre perdoar e/ou suportar situações de toda ordem, inclusive desrespeitosas, tudo isso priorizando o bem-estar de outros e muitas vezes sendo a única apontada como responsável por manter relações a todo custo, mesmo que isso signifique tolerar e perdoar violências.

O desafio reside em reconhecer a importância dos protocolos na organização e sistematização dos atendimentos, pois estes protocolos servem para orientar os/as profissionais na condução dos atendimentos, buscando garantir que as pessoas sejam atendidas com respeito, acolhimento, tendo todos/as acesso aos mesmos direitos e sem sofrer violências secundárias no curso do acompanhamento ofertado. No entanto, a adoção de protocolos não deve significar que os atendimentos acontecerão de forma rígida, distanciada e sem considerar a singularidade de cada pessoa. Os protocolos servem para orientar os profissionais na condução dos atendimentos, mas não significam um fim em si mesmos. Cada pessoa traz consigo vivências, experiências e necessidades únicas e que devem ser assim consideradas sempre.

Falta investimento público em políticas de promoção à cultura de paz, ao combate a todas as formas de violência e opressão e à defesa irrestrita dos direitos humanos. O cuidado começa com o compromisso em transformar a sociedade em um lugar seguro para todas as pessoas. Além do mais, é necessário que toda a sociedade esteja comprometida com a proteção e combate às violências, não tolerando tais situações. Quando a situação de violência já aconteceu, ainda existe um caminho longo a ser trilhado no sentido de cuidado e tentativa de superação das violações sofridas, onde muitas coisas precisam ser feitas. Mas todo esse caminho começa pelo entendimento de que é direito de todos/as viver livre de violências e que quando este direito é violado, o acompanhamento/ cuidado humanizado e acolhedor deve ser o norte na direção da reparação das consequências das violências.

A Psicologia deve sempre se posicionar na defesa irrestrita dos Direitos Humanos, como nos recomenda nosso Código de Ética da profissão. Isso significa, dito de outro modo, que a Psicologia não pode ser conivente com práticas violentas, opressoras, que minimizem, banalizem ou tolerem violações infligidas às pessoas, independentemente de sua origem, raça, gênero, classe, religião etc.

Penso que a Psicologia ainda precisa solidificar suas bases teórico-práticas voltadas ao compromisso social da profissão com a sociedade. A Psicologia não está apartada dela e não atende a indivíduos descolados de sua realidade social. Então deve acompanhar o que a sociedade vivencia e produz. Não cabe mais pensar e construir uma Psicologia inerte e alheia às demandas sociais. Não é mais admissível pensar em psicologias que individualizam e patologizam questões subjetivas sem se atentar ao que permeia os indivíduos. Assim, é necessário pensar numa Psicologia que não reduz todo sofrimento a causas exclusivamente internas e individuais. Sabemos que as causas dos sofrimentos são multifatoriais e elementos como desigualdades raciais, sociais, violências, trabalho precarizado são exemplos que podem produzir sofrimento psíquico. Compreender e considerar esta interrelação indivíduo-sociedade é fundamental para alcançar uma prática mais crítica, humanizada e socialmente comprometida.

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