Arkangel: Pais cegos pelo protecionismo exacerbado

Na conceituação psicológica o ambiente tem um papel importante para a explicação de comportamentos, tendo em vista que os eventos físicos se relacionam às mudanças do meio

Black Mirror se inspira em um mundo pelo qual as tecnologias dão aos seres potencialidades ainda não atingidas, mas que se chocam com a imperfeição humana. As novas possibilidades dão a capacidade do controle a partir do avanço de inteligências artificiais, que capacitam incongruências. O que hoje é incontingente, se torna verdade nos episódios da série; por sua vez, os humanos apresentam-se com características e limitações averiguadas hodiernamente. Seriam então capazes de administrar tamanho poder sem gerar danos?

Na conceituação psicológica o ambiente tem um papel importante para a explicação de comportamentos, haja vista que os eventos físicos se relacionam às mudanças do meio, tendo como exemplo, os objetos tecnológicos que se configuram nesse quesito. Já os fatores sociais se relacionam as interações presenciais com os indivíduos, tendo como um requisito a simultaneidade de comportamento emitido pelo sujeito (DANNA; MATOS, 2011). 

Dentro da realidade de Black Mirror, as relações ambientais apresentam-se ainda mais tênues, pois o ambiente físico e sua tecnologia avançada geram mudanças nas relações sociais, tornando possível a manipulação do ambiente a fim de obter contingências de comportamento desejáveis a quem opera. 

O episódio instigador a qual me refiro chama-se “Arkangel”, uma tecnologia que funciona como extensão para os olhos dos pais preocupados com a segurança e bem estar dos filhos. Depois do desaparecimento de Sara Sambrell, sendo ainda criança, sua mãe Marie Sambrell vê tal equipamento como necessário, possibilitando seu acompanhamento em qualquer contexto em que ela pudesse se encontrar, assim, a tecnologia de Arkangel era o equipamento perfeito, pois daria possibilidade de um maior controle, diminuindo eventualidades como desaparecimento, como já havia ocorrido. (Atenção, contém spoiler)

As vantagens e a propaganda para seu uso traziam afirmativas exuberantes, como o pedido de busca, localização real da filha, além de detectar os sinais vitais, frequência cardíaca, a qualidade do sangue, e por fim, a possibilidade de ver as mesmas coisas que Sara via, em tempo real, podendo manipular coisas desagradáveis como violência, cenas, ou palavras rudes que ela viesse a ver. Tudo que aumentasse seu nível de cortisol, ou que fosse estressor, aparecia para a criança como um borrão, impossibilitando que ela vivenciasse tais experiências  (sendo opcional o uso do filtro no aparelho Arkangel). 

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Os feedbacks da profissional que vendia a tecnologia eram ótimos, que segundo dito, traziam segurança e paz de espírito. A mãe se impressionava com as boas notícias e aceitou; de agora em diante a vida de sua filha estaria sob seu controle, na palma de sua mão (mais pontualmente, a partir do Tablet todas as informações eram obtidas quando as desejasse). O único que parecia não se agradar com as boas novas foi o avô de Sara, Russ Sambrell, que desejava que as crianças fossem livres como antigamente. Marie rebate seu posicionamento lembrando-se que uma vez quebrou o braço pois seu pai não havia colocado grades na escada, mostrando o quão a segurança, para ela, é de suma importância. 

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Tempos se passaram, Sara e Marie lidam com o luto de Russ (avó de Sara), que anteriormente tinha como hobby a pintura, a quem durante a história aparece ensinando e incentivando as expressões de sua neta pela arte. Já aparentando estar na terceira infância, Sara mostra-se  incomodada com o fato de não ver ou ouvir assuntos que ela tinha vontade de compreender, mas que por conta do Arkangel e seu filtro, seu entendimento era retalhado. Colegas da escola como Trik, gostavam de luta e vídeos violentos, a não compreensão desses conteúdos pela inibição da tecnologia, ao que se tratava de assuntos taxados como inadequados, frustrava a garota. O filtro proporcionado pelo Arkangel já a incomodava.  

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Em seu quarto, Sara faz alguns desenhos com marcas de sangue, pessoas feridas, entretanto, ela não conseguia visualizar seus traços por remeterem a conteúdos agressivos, suas tentativas eram falhas. Não podia ver o sangue que pintava, não podia se expressar, não podia ver as coisas como eram. Sara pega um de seus lápis apontados e começa furar seus dedos. Tudo fica borrado, como de costume, seus níveis de cortisol aumentam, e logo Marie recebendo tal mensagem corre até o quarto e tenta contê-la, Sara acaba machucando a mãe. Tudo foi bastante preocupante, pois apesar de todo protecionismo, podia ela afirmar que estava fazendo o melhor para sua filha?

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Marie vai até o psicólogo, onde há desenhos sobre a mesa, feitos pela própria Sara, todos com cunhos sobre violência. Acessando a garota por meio do lúdico, o psicólogo falou sobre as retaliações que Arkangel já sofreu na Europa, cujo haveria de ser banido a algum tempo em seus terrenos também. Apesar das suposições/receios de Marie de que sua filha tivesse graus de autismo, o psicólogo disse que seus comportamentos não se adequavam ao quadro TEA. Depois disso, ela decide desligar seu monitoramento, já que o implante que o possibilita é irremovível.

Foi um passo difícil para a mãe. Pela primeira vez ela teve de manter-se confiante sobre sua criação, portanto, Sara obteve seus primeiros contatos com a sensação do medo, pornografia, vídeos agressivos. Ela nunca lidou com limites antes, sua redoma de vidro foi rompida, só por meio das experiências ela podia compreender sobre regras, sensações de angústia e ansiedade. Nada tamparia sua visão da realidade dessa vez. 

Segunda a teoria da Gestalt Terapia a autoconscientização diz respeito ao reconhecimento da natureza auto reguladora do organismo, que compreende a consciência de si e do mundo que está em volta. Por conta das inibições que vivera, Sara ainda não concretizou seu Self, que em síntese, pode se compreender por processamentos de expansão de auto consciência. Na realidade, sua mãe promoveu uma fuga de consciência, que inibiu seu desenvolvimento psicológico. Seu processo de adaptação como ser humano, sobre seu meio externo e interno estaria agora em construção, em meio aos débitos da superproteção materna; grandes descobertas viriam nesse decorrer.

Na visão da psicologia Analítica, segundo Jung, a posição de Marie que arrebata a dificuldade de deixar Sara iniciar seu ciclo de independência de ideias e ações. Isso é explicado a partir da teoria da mãe devoradora, no livro ‘O Caminho dos Sonhos’:

“A Mãe Natureza é o útero da vida. Ela dá sem cessar e sem reserva. Mas ela é também a tumba. Cruelmente ela mata e devora tudo o que vive. A primeira mulher na experiência de um homem é sua mãe. Seu único propósito na vida é saciar sua fome, cuidar do seu corpo, prover seu conforto. Seu poder é imenso. Seus beijos aliviam a dor, seus braços o embalam no sono. Ela satisfaz suas necessidades físicas e emocionais. Essa relação entre mãe e filho é dos mais belos mistérios da natureza. Mas a natureza é também cruel. Ao entrar na vida adulta, o homem deve abandonar o calor do ninho da infância para poder entrar no mundo e construir o seu próprio. Psicologicamente, para tornar-se homem ele deve separar-se de sua mãe e renascer num tipo distinto de relacionamento. Se assim não for, ele poderá ser devorado pela mãe e permanecer para sempre um filho cuja capacidade de relacionamento fixou-se no pesadelo da dependência infantil e no incesto psicológico” (FRAZ-1992).

Sara se torna finalmente adolescente, já lida naturalmente com alguns estímulos que tempos atrás eram amedrontadores por serem desconhecidos. Entretanto, ainda havia muito a se explorar, afinal, era jovem e aparentemente curiosa. A série mostra a ânsia que ela vivencia sobre experiências novas, tal qual muitos jovens sem um diálogo aberto com os pais, pelo medo da incompreensão, retaliação sem diálogo ou acordos, ou apenas para não haver preocupação excessiva deles, acabam por mentir sobre locais ou companhias, pelo desejo de experienciar. Sara mente sobre o local onde irá sair, e acaba demorando mais que o combinado. Muito preocupada depois de ligar para a casa da colega onde disse que iria, Marie liga o Arkangel, localiza-a e vê através de seus olhos. Sara estava perdendo sua virgindade com Trik, e ela acaba vendo parte daquela cena. 

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Trik, um garoto que desde criança mostrava-se agressivo, agora tinha se tornado traficante. Sara desejou experimentar cocaína. Mesmo com a tentativas de impedi-la, Trik acabou cedendo. Marie, ainda preocupada com as mentiras ditas a ela, olha novamente através da tecnologia, e acaba vendo o momento do uso, assim como o rosto do garoto, a quem tirou satisfação e ameaçou. Pediu que não se envolvesse mais com sua filha. O afastamento repentino dele deixou Sara confusa e deprimida. 

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Marie, supondo que a filha não havia se protegido na relação sexual, comprou um abortivo e misturou a uma vitamina. Sara sentiu-se enjoada e, em seguida, já na enfermaria de sua instituição de ensino, recebe a notícia que seu aborto foi bem sucedido. Ela não compreendeu o motivo dessas palavras, voltou então até sua casa, onde achou no lixo a caixa do remédio, logicamente procurou o Arkangel, que quando pegou, mostrou as cenas visualizadas pela mãe. Tomada pelo ódio, Sara quebra o Tablet no rosto de Marie, enquanto a nocauteia. Quando o aparelho quebra, ela vê sua mãe extremamente machucada e foge de casa. 

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Marie, ainda consciente, procura Sara em um total desespero. Apesar de todos os esforços para mantê-la segura, suas atitudes fizeram com que o afastamento de Sara fosse abrupto. Assim como em nossa sociedade, dificilmente os pais trabalham a autoconsciência das crianças, estão sempre barganhando um bom comportamento, sem que haja absorção de motivos para as regras, em um desenvolvimento amplo de consciência, formando super egos acríticos e despreparados para vivências com o outro, tornando-se inflexíveis e frágeis. O temor dos pais está interligado com a educação falha que não os assegura de que o conhecimento foi dado e absorvido. Os pais estão trocando seus papéis de andaime, ou não fazendo-o para o crescimento saudável e progressivo. 

A realidade mostrada pelo episódio de Black Mirror está mais perto do que imaginamos. Em uma entrevista ao The Telegraph, o cientista Richard Gray explica sobre a possibilidade de “Hackear” memórias, pois quando as lembranças voltam a consciência, apesar de anteriormente serem concretas e sólidas, nesse estado elas podem ser modificadas. Isso abre brechas para que assim como Arkangel, nossas memórias sejam selecionadas, filtradas. Podendo levar as vivências traumáticas a serem substituídas por outras.  

Apesar de parecer extremamente positivo, será que como humanos aprenderemos antes disso a  respeitar o espaço do outro? E se nos déssemos o poder de modificar momentos negativos por proteção de alguém, até quando a liberdade alheia seria uma regra? Infelizmente, estaríamos fadados a desastres parecidos como em Black Mirror. Laços desatados, vivências cortadas, aprendizados negligenciados, e erros sobre uma tela ao vivo. Se pudéssemos espiar quem amamos para sua proteção? É sempre tentador, e mais uma vez o poder se esbarra em nossas imperfeições morais de nossa atual humanidade. Arkangel é um futuro próximo, eu diria. E você, usaria? 

Referências: 

FRANZ. Mari, O Caminho dos Sonhos (1992). Disponível em: https://www.academia.edu/35203988/Marie_Louise_Von_Franz_O_Caminho_dos_Sonhos_doc_rev_._WwW.LivrosGratis.net_ . Acessado em: 04 de julho

FUSCO. Cientistas descobrem como “apagar” memórias dolorosas (2016). Disponível:

https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2016/02/cientistas-descobrem-como-apagar-memorias-dolorosas-e-implantar-novas.html. Acessado em: 26 de junho de 2019.

PAPALIA., DUSKIN.,  Aprendendo a observar. AMGH editora LTDA (2013). Disponível em: http://sandrachiabi.com/wp-content/uploads/2017/03/desenvolvimento-humano.pdf. Acessado em: 26 de junho de 2019.

 

Ficha técnica

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Título original: Arkangel

Direção: Jodie Foster

Elenco:  Rosemarie DeWitt como Marie Sambrell.

Brenna Harding como Sara Sambrell.

Nicholas Campbell como Russ Sambrell.

Owen Teague como Ryan “Trick”

Local:  Série Britânica

Ano: 2017

Gênero:  Ficção científica

Maria Eduarda Oliveira
Acadêmica de Psicologia na instituição de ensino CEULP/ULBRA, voluntária no programa de extensão (EN)cena - Saúde Mental em Movimento. Compõe equipe de produção textual.