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Análise do filme: como ganhar milhões antes que a vovó morra

“Como Ganhar Milhões Antes que a Vovó Morra” é um drama tailandês que vai muito além de uma história sobre herança ou sobre a finitude da vida. A obra propõe a discussão sobre a complexidade dos laços familiares, a fragilidade dos vínculos intergeracionais e a solidão que muitas vezes acompanha o envelhecer, mesmo quando o idoso está cercado de familiares. 

Ambientado em uma família de classe média da Tailândia, o filme nos apresenta relações marcadas por afastamentos silenciosos, prioridades individuais e afetos atravessados por conveniência. Nesse contexto, acompanhamos M, o único neto homem da família, jovem em um momento de transição que costuma marcar o início da vida adulta. Enquanto seus pares seguem caminhos por meio do estudo ou do trabalho, ele sonha em um futuro como gamer reconhecido, um sonho que o coloca cada vez mais distante das expectativas familiares e, principalmente, das tradições cultivadas por sua avó. A diferença de valores e ritmos entre essas duas gerações representa um conflito simbólico que o filme explora com sensibilidade: de um lado, uma juventude hiperconectada, mas emocionalmente distante; do outro, a velhice como território de espera, em que o reconhecimento e o afeto se tornam um pedido silencioso.

Quando a doença da matriarca vem à tona, as tensões antes encobertas se intensificam, revelando fragilidades afetivas que o cotidiano costumava ocultar. Essa senhora, forte e orgulhosa, que por tantos anos sustentou o papel de pilar familiar, agora passa a ocupar uma posição de invisibilidade emocional dentro da própria casa. Os filhos e demais parentes só parecem recordar sua existência quando algum interesse pessoal está em jogo, reduzindo sua presença a um meio para fins externos. Assim, o cuidado que deveria representar vínculo e proximidade se manifesta mais como uma negociação de vantagens ou como tentativa de aliviar a culpa de quem já não esteve por perto.

É nesse cenário ambíguo que M decide se aproximar da avó. Inicialmente movido por interesses próprios, ele chega à casa dela carregando uma mistura de curiosidade e necessidade de reconhecimento. A convivência com a matriarca, então, o coloca frente às rotinas e às limitações impostas pela velhice, abrindo espaço para que a relação entre ambos seja ressignificada pela presença e pela troca afetiva.

Ao retratar a idosa às margens da convivência, o filme evidencia uma realidade dolorosa e comum: o envelhecer pode ser uma experiência de solidão profunda, mesmo quando há família por perto. Nesse sentido, o isolamento não está necessariamente na ausência física de pessoas, mas na ausência de vínculo, como mostram estudos brasileiros que indicam que idosos podem sentir-se solitários quando deixados de lado em sua subjetividade, percebidos apenas como “portadores de limitações” (Azevedo e Afonso, 2016).

Essa solidão emerge quando o idoso se torna invisível como sujeito de desejo, história e vínculo, e passa a ser visto apenas pelo que ele não pode mais fazer ou pelo que representa como “custo” ou “encargo”. No filme, essa dinâmica está expressa na figura da avó que, embora seja matriarca, é relegada ao silêncio das rotinas negligenciadas. O vazio existencial se instala quando a pessoa que foi central para a família deixa de ocupar lugar de interlocução e passa a ser objeto de cuidado.

No entanto, o filme evita o estereótipo da idosa submissa ou da vítima passiva. Pelo contrário, ela é retratada como uma mulher de personalidade firme, que resiste à condição de mera receptora de cuidados, que exige, ainda que silenciosamente, dignidade e autonomia. 

Com delicadeza, o roteirista Pat Boonnitipat costura uma narrativa sobre o tempo: o tempo que afasta quando não há cuidado, o tempo que corrige quando há abertura para o encontro, e o tempo que ensina, às vezes tarde demais, que nenhuma presença deveria ser considerada garantida. No encontro entre o distanciamento geracional e a necessidade de afeto, o filme mostra que a transformação ainda é possível quando a convivência rompe a frieza do distanciamento, permitindo que o amor, mesmo tardio, se reconstrua e ganhe novos significados.

Por fim, Como Ganhar Milhões Antes que a Vovó Morra nos convoca a olhar para o envelhecimento com mais responsabilidade afetiva. O filme recorda que a presença não se resume ao corpo que ocupa um espaço, mas ao olhar que reconhece, ao gesto que considera e ao cuidado que legitima a existência do outro. Ao revelar que ainda é possível resgatar vínculos aparentemente perdidos, mesmo diante da finitude, a obra questiona: quantos afetos ainda podem ser reinventados antes que seja tarde demais? Talvez a maior herança que deixamos, e recebemos, esteja na coragem de não permitir que quem amamos envelheça sozinho.

REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Zaida de Aguiar Sá; AFONSO, Maria Alcina Neto. Solidão na perspectiva do idoso. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, Rio de Janeiro, v. 19, n. 2, p. 313-324, 2016. DOI: 10.1590/1809-98232016019.150085.

Título: Como ganhar milhões antes que a vovó morra 

Direção: Thodsapon Thiptinnakorn,  Pat Boonnitipat

Elenco: Putthipong Assaratanakul, Usha Seamkhum, Sanya Kunakorn, Sarinrat Thomas, Pongsatorn Jongwilas, Duangporn Oapirat, Himawari Tajiri, Tontawan Tantivejakul

Duração: 2h 05min (126 min)

Ano: 2024

Gênero: Drama, Tailandeses, Filmes para chorar

País: Tailândia

Idioma: Português

(Netflix)

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