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Infância e negligência emocional: o que “Matilda” nos revela sobre o desenvolvimento infantil

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O filme Matilda (1996), dirigido por Danny DeVito e baseado na obra de Roald Dahl, apresenta uma narrativa aparentemente simples, mas que nos leva a refletir sobre aspectos importantes do desenvolvimento infantil A trajetória da menina superdotada, que cresce em um ambiente negligente, se .se transforma em um convite para pensar sobre vínculos afetivos e, sobretudo, sobre a capacidade de enfrentar adversidades. .

A trama acompanha Matilda, uma criança extremamente inteligente, curiosa e sensível, que vive em uma família que não apenas ignora suas necessidades emocionais, como também desvaloriza o conhecimento e o afeto. Ao ingressar na escola, ela se depara com dois pólos opostos: a acolhedora professora Miss Honey e a autoritária diretora Miss Trunchbull. É nesse cenário que a narrativa se desenvolve, marcada por conflitos entre opressão e cuidado, negligência e validação.

Do ponto de vista psicológico, a negligência emocional vivida por Matilda pode ser compreendida como algo que pode prejudicar o desenvolvimento emocional da criança. A ausência de validação, afeto e reconhecimento tende a comprometer a construção da autoestima e da segurança emocional. Ainda assim, o filme apresenta uma ruptura nesse determinismo ao evidenciar a capacidade de resiliência da criança, conceito amplamente discutido na Psicologia do Desenvolvimento como a habilidade de enfrentar e superar adversidades mesmo em contextos desfavoráveis. Conceito discutido por Boris Cyrulnik (2001) como a possibilidade de reconstrução psíquica mesmo diante de experiências adversas. 

A figura de Miss Honey atua como um importante fator de proteção. Sua postura acolhedora, empática e incentivadora ilustra o impacto que um único vínculo seguro pode exercer na vida de uma criança. Sob essa perspectiva, o filme dialoga com teorias que enfatizam a importância do ambiente e das relações no desenvolvimento psíquico, demonstrando que o cuidado e a validação podem funcionar como mediadores fundamentais na construção da subjetividade.

Em contrapartida, a diretora Trunchbull representa práticas educativas baseadas no medo, no autoritarismo e na punição. Seu comportamento evidencia como ambientes coercitivos podem gerar ansiedade, repressão emocional e dificuldades no desenvolvimento saudável. A escola, que deveria ser um espaço de aprendizagem e acolhimento, aparece, nesse contexto, como um local de sofrimento psíquico para muitas crianças.

Os poderes telecinéticos de Matilda, embora fantásticos, podem ser interpretados simbolicamente como a expressão de sua força interna e de sua necessidade de retomar o controle sobre a própria realidade. Eles funcionam como uma metáfora da potência subjetiva que emerge mesmo em contextos adversos, uma tentativa de reorganizar, ainda que simbolicamente, um mundo que lhe é hostil.

Ao ampliar essa leitura, o filme nos convida a refletir sobre quantas “Matildas” existem na vida real: crianças invisibilizadas, cujas capacidades são ignoradas e cujas necessidades emocionais não são atendidas. Mais do que uma história infantil, a narrativa se torna um espelho das relações familiares e institucionais, questionando os modos como adultos exercem poder, cuidado e responsabilidade.

Assim, Matilda não fala apenas sobre uma menina com habilidades extraordinárias, mas sobre a capacidade humana de resistir, encontrar sentido, e se desenvolver apesar das adversidades. O filme nos provoca a pensar sobre o papel dos vínculos, da escuta e do reconhecimento, lembrando que, muitas vezes, o que transforma uma trajetória não é a ausência de sofrimento, mas a presença  ainda que mínima  de alguém que enxergue, valide e acolha.

Referências: 

CYRULNIK, Boris. Resiliência: como tirar leite de pedra. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

 

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