O livro “Criar Filhos no Século XXI”, de Vera Iaconelli, psicanalista e uma estudiosa do tema parentalidade contemporânea, é um estudo atual e provocativo que aponta as dificuldades e contradições do ato de parentalidade na sociedade moderna, impactadas pela lógica do neoliberalismo, da urgência do sucesso, mas resistente a compreender as dificuldades estruturais dessa função.
Sob o olhar psicanalítico, a autora, apesar do título, não promete um passo a passo ou um manual para a criação de filhos, muito pelo contrário, ela expõe de forma crítica uma cultura que exige otimização e performance em todas as esferas da vida, incluindo a afetiva.
A obra nasce da escuta clínica e das vivências coletivas dos pais modernos, e traz um questionamentos, apontamentos sobre questões de gênero no cuidado, trauma da perfeição, a resiliência em aceitar a falha e a dimensão social do sofrimento psíquico da família, pautas que a autoajuda esconde ou aponta como questões individuais a serem superadas.
Os ensaios, cada um tematizando um aspecto da crise, desde a hiperproteção até o fetiche da autonomia precoce, narram uma realidade marcada pela pressão de classe, pela exigência de gênero e pelas opressões do mercado, sendo que todas elas são atravessadas pela violência estrutural do “dever ser”.
Capítulos como a “Mãe Perfeita” ou o “Projeto de Vida” geram uma expectativa sobre o que há por trás daquele ideal familiar. Conceitos como o do excesso de cuidado (que impede a entrada da castração) ou o do filho como projeção narcísica trazem um choque de situações que nos fazem pensar em dinâmicas familiares que existem e, até hoje, são naturalizadas e invisibilizadas pelo discurso da felicidade obrigatória.
No capítulo “Filhos? Melhor não tê-los, mas…” Iaconelli aborda o dilema da escolha em uma sociedade que, teoricamente, oferece liberdade reprodutiva, mas que, paradoxalmente, hipervaloriza o filho. Nele, discute-se como a decisão de ter (ou não ter) filhos está carregada de pressão social e expectativas narcísicas, distanciando-se de uma verdadeira escolha subjetiva. O “mas…” do título reside no peso cultural e afetivo que ainda recai sobre o indivíduo que decide não procriar.
Já no capítulo “Não sabia que tudo ia mudar”, a autora mergulha no impacto real da chegada da criança. Aqui, ela expõe a falácia da idealização prévia e o choque de realidade que a maternidade/paternidade impõe. A obra destaca que a parentalidade não é uma mera adição de afeto à vida, mas reconfiguração radical da identidade e da rotina. A surpresa e o mal-estar que muitos pais sentem não são sinais de fracasso, mas o reconhecimento da alteridade e da demanda irredutível que a criança traz, confrontando o projeto egóico dos adultos.
O grande destaque do livro está na forma fluida e potente com que Iaconelli desconstrói o estereótipo do pai/mãe como mero executor de técnicas, trazendo na sua análise a ressignificação da função parental e propondo reflexões importantes sobre a dinâmica de poder na parentalidade, onde a fragilidade emocional e a incapacidade de lidar com a própria falta dos pais são projetadas na exigência de que o filho seja completo.
“Criar Filhos no Século XXI” é um texto de fácil leitura, mas que exige do leitor uma escuta ativa e sensível às intersecções de cultura, mercado e o psiquismo. Recomendo a leitura a todos que buscam uma imersão em contextos em que a parentalidade precisa ser discutida para que traga a visibilidade dos mecanismos socioculturais que atravessam não só cuidadores principais, mas toda a sociedade.
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Ficha Técnica
Título: Criar filhos no século XXI
Autora: Vera Iaconelli
Editora: Contexto- 1ª ed. São Paulo
