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Infiel – A história de uma mulher que desafiou o Islã

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O livro “Infiel – A história de uma mulher que desafiou o Islã” é a autobiografia de Ayaan Hirsi Ali (nascida Ayaan Hirsi Magan, em 1969, na Somália) e está dividido em duas partes: a primeira retrata a infância sob o jugo islâmico, e a segunda a conquista da liberdade e a dissidência política. Ativista e escritora, Ayaan é conhecida mundialmente por sua defesa incisiva dos direitos das mulheres muçulmanas e sua crítica ao Islã.

Ayaan Hirsi Ali, filha do político somali e líder da oposição Hirsi Magan Isse, descreve uma infância e adolescência marcadas pela rigidez do Islã ortodoxo e pela profunda submissão feminina em meio a um cenário de guerra e migração (da Somália para a Arábia Saudita, Etiópia e, finalmente, Quênia).

A narrativa expõe como é ser uma mulher submissa à religião islâmica e toda a carga de tradição e sofrimento transgeracional. Paralelamente, Ayaan entrelaça histórias chocantes de outras mulheres que demonstram a crueldade do sistema. Entre as passagens de sua vida, é impossível não se indignar com o relato da mutilação genital feminina sofrida por ela aos cinco anos e pela sua irmã, um trauma físico e psicológico chocante, pois ela detalha que a prática, na sua forma mais extrema, retira a integridade corporal da mulher. 

O livro também traz o drama da poligamia vivido pela mãe, as lições dolorosas aprendidas com as experiências de aborto e os encontros com outras mulheres que trouxeram aprendizados importantes em sua trajetória.

O texto também revela as agressões físicas sofridas pela mãe e a violência dos professores, como o incidente em que um professor de Alcorão partiu sua cabeça contra uma parede para “discipliná-la”. Em meio a esse ambiente de opressão e dor, o aspecto mais fascinante é o que se passa na intimidade de Ayaan: como ela conseguia viver o tempo todo lidando com os questionamentos sobre a religião e a realidade desproporcional a qual as mulheres eram submetidas. 

O ponto de virada na sua trajetória rumo à liberdade é a fuga para a Holanda em 1992, quando buscou asilo político para escapar de um casamento forçado com um primo. Ao escapar e buscar asilo, Ayaan não está apenas mudando de país; ela está se desvinculando de um sistema de crenças que definia toda a sua realidade e o subsequente processo de “dessubmissão”.

O seu estudo e dedicação a levam a se tornar uma figura pública, primeiro como política holandesa (eleita em 2003) e depois como ativista internacional. Ayaan encarna o papel do dissidente, pagando um preço altíssimo por isso. 

Em 2004, ela colaborou, escrevendo o roteiro, no curta-metragem Submission com Theo van Gogh, um filme que retrata a opressão das mulheres sob a lei islâmica, transformando-o em um grito de autoafirmação e ativismo, combatendo ativamente casamentos forçados, crimes de “honra”, casamentos infantis e a mutilação genital feminina.

O curta-metragem foi recebido como uma afronta à religião, o que culminou no assassinato brutal do coprodutor Theo van Gogh em 2004 por um terrorista islâmico marroquino-holandês. O crime e a ameaça de morte encontrada em uma faca cravada no corpo de Van Gogh direcionada a Ayaan levaram ao seu exílio e à vida sob escolta fortemente armada.

O livro “Infiel” é uma leitura difícil e sofrida que força o leitor a confrontar temas de direitos humanos, extremismo religioso e, acima de tudo, a resiliência inquebrável do espírito humano. 

Se você já se sentiu preso(a) por tradições ou expectativas que não ressoam com a sua verdade, a jornada de Ayaan é uma inspiração, pois a sua vida é o relato corajoso de quem ousou dizer “Não” ao destino traçado e pagar o preço pela liberdade de pensar e viver sem as amarras da sua religião.

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Ficha técnica

Título: Infiel- A história de uma mulher que desafiou o Islã

Autora: Ayaan Hirsi Ali

Categoria: Autobiografia

Editora: Companhia das Letras. 2ª ed. São Paulo,2012 

Tradutor: Luiz A. de Araújo

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