(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

Manifesto Antimaternalista

Em Manifesto Antimaternalista: Psicanálise e Políticas da Reprodução (2023), Vera Iaconelli discute como um olhar contemporâneo sobre as teorias psicanalíticas pode contribuir para uma compreensão mais complexa e emancipatória dos papéis de pai e mãe.

Apesar do título, o livro não é um ataque à maternidade em si, mas um anaĺise crítica ao mito do instinto materno e ao aparato social que se exime de sua responsabilidade na criação das novas gerações. A autora demonstra que o maternalismo é uma construção cultural e patriarcal, e não uma verdade biológica, utilizada para manter a mulher em uma posição de trabalho não remunerado e, consequentemente, fora dos espaços de poder.

A autora parte da premissa psicanalítica de que o sujeito é forjado na falta e no desamparo, ideia que ajudou a solidificar o mito ao longo do século XX ao focalizar o desenvolvimento infantil na dupla mãe-bebê, mas inverte essa lente para expor o sofrimento adulto frente ao ideal inalcançável.

Um ponto interessante da obra é a crítica ao neoliberalismo e o patriarcado que criaram a figura da “Mãe Perfeita” (aquela que deve ser afetiva, profissional, sexual, presente e, acima de tudo, realizada) que, ao tentar buscar o ideal social preconizado, encontra sofrimento psíquico, pois esse ideal projeta uma realidade impossível de ser atingida. Ao falhar nesse projeto, a mulher sente-se culpada, esgotada, o que leva ao colapso da maternidade.

A autora demonstra que o mito do “amor materno incondicional” serve como uma fantasia protetora que impede a sociedade de encarar o real desamparo e o trabalho exaustivo que o cuidado exige. Ao ser colocada em um pedestal, a mãe não recebe apoio prático, apenas elogios vazios de valor social e econômico.

Iaconelli conecta a esfera privada ao campo político e econômico, mostrando que a confusão entre “mulher” e “mãe” tem consequências financeiras e sociais concretas.

O trabalho de cuidado é a base invisível da reprodução social. Ao ser delegado à mulher gratuitamente, ele permite que a economia capitalista tenha uma força de trabalho “liberada” (os homens, principalmente) para a produção remunerada, enquanto um trabalho essencial fica desvalorizado. O livro é um apelo para que o Estado e o mercado reconheçam o cuidado como um serviço social, e não um destino feminino.

A autora ressalta, ainda, que o maternalismo se torna uma política de Estado machista quando se manifesta na forma de leis que, sob o pretexto de “proteger a família”, acabam por reforçar a exclusividade da responsabilidade feminina.

A proposta da autora é de uma parentalidade sustentável, onde o cuidado é distribuído e valorizado por toda a comunidade, situação que sai da individualidade para o coletivo e exige o reconhecimento da falha, a responsabilidade pública com a implementação de políticas públicas e o direito de a mulher não querer ou não poder ser mãe, sem o ônus da patologização ou do julgamento social.

O livro “Manifesto Antimaternalista” é uma obra importantíssima para ampliar o olhar e compreender a fundo a crise de saúde mental e o adoecimento das mulheres que maternam na contemporaneidade e oferece um caminho de reflexão que transforma o sofrimento individual em matéria para a ação política e  transformação social.

_________________________________

Ficha técnica:

Título: Manifesto Antimaternalista: Psicanálise e políticas da reprodução

Autora: Vera Iaconelli

Editora: Zahar- 1ª ed.  Rio de Janeiro

Ano: 2023

Sair da versão mobile