O livro “Futuro Ancestral”, escrito pelo filósofo originário, ativista do movimento socioambiental e escritor, reúne cinco textos que trazem discussões sobre a terra como ancestralidade, os rios como entidades vivas e ecocídio.
Desde o momento em que chegamos ao mundo somos moldados por um aparato de técnicas que criam um universo onde há uma única narrativa, a busca pelo futuro não dá espaço para subjetividades e para o novo, é como uma formatação pela qual todos passam a fim de serem encaixados em um lugar ao qual devem pertencer.
A modernidade ocidental é intrinsecamente colonial. A “descoberta” das Américas não foi apenas um evento histórico, mas uma catástrofe que instituiu uma lógica de guerra e desumanização. A colonização moderna criou um paradigma onde a violência contra o colonizado (escravidão, estupro, etnocídio) legitimada em nome da “civilização”, civilização essa que só existe em “pólis” onde a natureza e o encatamento pelo mundo não tem espaço.
Ailton Krenak (2022) ao falar sobre o colonialismo nos diz:
“Se o colonialismo nos causou um dano quase irreparável foi o de afirmar que somos todos iguais. Agora a gente vai ter que desmentir isso e evocar o mundo das cartografias afetivas, nos quais o rio pode escapar do dano, a vida, a bala perdida, e à liberdade não seja só uma condição de aceitação do sujeito, mas uma experiência tão radical que nos leve além da ideia da finitude.”
A colonialidade pode ser vista em três transformações, sendo elas:
- Colonialidade do Poder: referente às estruturas de dominação política e econômica e à exploração dos corpos e territórios.
- Colonialidade do Saber: à forma como o conhecimento europeu (historicismo, positivismo) é imposto como a única verdade, silenciando outras formas de pensar e experienciar o mundo.
- Colonialidade do Ser: refere-se à desumanização do colonizado, que é colocado “abaixo da zona do ser”, sendo tratado como um condenado que não tem direito à subjetividade plena ou à história.
Mesmo após a “descolonização” formal, a lógica colonial não abandonou o ocidente. E é através dessa realidade que vem a necessidade o esforço contínuo para enfrentar a nossa herança colonial. A decolonialidade foca na colonialidade que ainda sobrevive mesmo sem a presença das colônias físicas. O objetivo da decolonialidade é um mundo onde outros mundos possam coexistir.
Podendo ser compreendido como sumak kawsay (kíchwa), suma qamaña (aymara) ou nhandereko (guarani), e baseando-se na cosmovisão dos povos tradicionais das américas, trazendo uma filosofia que se opõe ao conceito oncidental de “bem estar” baseado no consumo, está o Bem Viver. A filosofia do Bem Viver foca na harmonia entre homem e natureza; na natureza como um organismo vivo, não um recurso a ser explorado; a valorização da experiência humana coletiva; e na comunhão com a terra. Os valores e práticas dos povos tradicionais presentes no bem viver enfrenta a colonialidade moderna, estando em contraponto a lógica vivida nas grandes cidades.
Enquanto Jung fala em Anima Mundi (uma alma coletiva que une todas as coisas), os povos indígenas vivem a noção de um mundo “almado”, onde humanos, minerais, plantas e animais possuem uma alma e juntas coabitam o mundo no qual vivemos. Embora sejamos civilizados e tecnológicos, guardamos em nossa psique um homem “primitivo” que precisa da natureza e do símbolo, porém o “desencantamento do mundo”, termo de Max Weber para descrever a era moderna, nos expulsa do mistério e do sagrado da vida. É preciso se reencantar com a vida novamente, harmonizar indivíduo, comunidade e natureza.
Nisso podemos entrelaçar a prática do analista com a do Xamã quando consideramos ambos como mediadores entre diferentes realidades da psique. Ambos possuem a habilidade de se mover entre o consciente e o inconsciente, entre o mundo concreto e o simbólico, utilizando a força dos mitos para dar sentido à experiência humana. Assim como o paciente em análise busca sua totalidade através da individuação, o Guarani precisa encontrar seu “espírito/nome” em si mesmo. Enquanto o xamã cuida da manutenção do espiritual e da conexão comunitária com o sagrado , o analista busca construir essa mesma “ponte simbólica” no cenário terapêutico moderno para evitar que o indivíduo se sinta solto em um cosmos vazio de sentido.
E no fim talvez não baste apenas tecer críticas decoloniais, Ailton Krenak (2024) em uma uma das conferências de inauguração da cátedra Darcy Ribeiro nos diz: “Ora, a gente não tem de fazer uma crítica ‘decolonial’, a gente tem de fazer uma crítica contracolonial”. O pensamento colonial é uma das heranças da colonização mais fortes, é dele que se veem crenças como a que os colonos vieram para nos civilizar, que o conhecimento de fora é o correto. É necessário se opor à colonização diariamente, pois ela não teve seu fim de fato.
Ficha técnica
Título: Futuro Ancestral
Autor: Ailton Krenak
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2022
Referências:
BERNARDINO-COSTA, Joaze. MALDONADO-TORRES, Nelson. GROSFOGUEL, Ramón. Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. 1. ed. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2018.
KRENAK, Ailton. Futuro ancestral. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
RIBEIRO, Ewerton Martins. SANCHES, Teresa. Ailton Krenak: ‘‘Não temos de fazer crítica decolonial, e sim, contracolonial’’. Instituto Humanitas Unisino. ADITAL, 12 dez. 2024. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/647057-ailton-krenak-nao-temos-de-fazer-critica-decolonial-e-sim-contracolonial. Acesso em: 20 mar. 2026.
LIMA, Rafael Reis de. Diálogo entre os saberes tradicionais indígenas e a psicologia analítica: esboço para um reencantamento do mundo. Junguiana, [S. l.], v. 40, n. 1, p. 125–138, 2022. Disponível em: https://junguiana.sbpa.org.br/revista/article/view/144. Acesso em: 20 mar. 2026.
