(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

A caminhada antimanicomial e os desafios da saúde mental no Tocantins: (En)Cena entrevista Ana Carolina Noleto

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A luta antimanicomial representa a defesa do cuidado em liberdade, da dignidade humana e de práticas mais acolhedoras em saúde mental. Mais do que recordar o fechamento dos antigos manicômios, o movimento também denuncia formas contemporâneas de exclusão, abandono e precarização do cuidado psicológico e psiquiátrico.

Recentemente, manifestações realizadas no Tocantins chamaram atenção para o aumento da demanda nos serviços de saúde mental e para os desafios enfrentados pela Rede de Atenção Psicossocial no estado. Em meio à caminhada da Dia Nacional da Luta Antimanicomial, estudantes, profissionais e usuários ocuparam as ruas reafirmando que “manicômio nunca mais” continua sendo uma pauta necessária.

Nesta entrevista conversamos com a psicóloga Ana Carolina Noleto, recém-formada pela ULBRA Palmas, sobre sua experiência na caminhada, as reflexões provocadas pelo movimento antimanicomial e os desafios atuais da saúde mental no Tocantins.

Perguntas:

Fernanda: Antes de falarmos sobre a caminhada antimanicomial, gostaria de começar por você: o que despertou seu interesse pela Psicologia e quais experiências mais marcaram sua trajetória até a formação?

Ana Carolina: Meu interesse pela Psicologia surgiu da curiosidade em compreender melhor os sentimentos, comportamentos e as relações humanas. Ao longo da graduação, tive contato com diferentes realidades e contextos que ampliaram meu olhar sobre o sofrimento psíquico e sobre a importância da escuta. As experiências de estágio, as vivências em serviços de saúde e o contato com pessoas em situações de vulnerabilidade foram alguns dos momentos que mais marcaram minha trajetória e fortaleceram minha escolha pela profissão.

Fernanda: Durante sua trajetória na Psicologia, em que momento as discussões sobre saúde mental e luta antimanicomial começaram a fazer sentido para você de maneira mais pessoal e não apenas acadêmica? 

Ana Carolina: Acho que isso aconteceu quando passei a conhecer histórias reais de pessoas que vivenciaram processos de exclusão por conta do sofrimento mental. Antes, a luta antimanicomial era um tema estudado em sala de aula, mas, ao entender os impactos dessas experiências na vida das pessoas e de suas famílias, percebi a importância de defender um cuidado mais humano, baseado no respeito, na autonomia e nos direitos de cada sujeito.

Fernanda: A caminhada antimanicomial reúne diferentes histórias, experiências e formas de resistência. O que mais atravessou você emocionalmente ao participar desse movimento nas ruas? 

Ana Carolina: O que mais me marcou foi perceber a força das pessoas que transformam suas próprias vivências em luta e resistência. Ver usuários dos serviços de saúde mental, familiares e profissionais ocupando as ruas para reivindicar direitos me fez refletir sobre a importância da inclusão e da escuta. Foi um momento muito emocionante, porque mostrou que falar sobre saúde mental também é falar sobre cidadania e dignidade.

Fernanda: Recentemente, debates sobre a precarização dos serviços de saúde mental no Tocantins têm ganhado mais visibilidade, principalmente diante do aumento da demanda nos CAPS e das dificuldades enfrentadas pela rede pública. Como você percebe essa realidade a partir do contato com o evento e da sua formação em Psicologia? 

Ana Carolina: A partir da minha formação e das discussões presentes no evento, percebo que existe um desafio importante entre a crescente demanda por cuidados em saúde mental e os recursos disponíveis na rede pública. Os CAPS desempenham um papel fundamental no cuidado em liberdade, mas precisam de investimentos, equipes fortalecidas e melhores condições de funcionamento para atender a população de forma adequada. Essa realidade reforça a necessidade de valorização das políticas públicas voltadas para a saúde mental.

Fernanda: Mesmo após os avanços da reforma psiquiátrica, ainda existem práticas excludentes e muitos estigmas relacionados ao sofrimento psíquico. De que formas você acredita que essa lógica manicomial ainda aparece na sociedade atualmente? 

Ana Carolina: Acredito que essa lógica ainda aparece quando as pessoas são reduzidas aos seus diagnósticos, quando o sofrimento psíquico é tratado com preconceito ou quando alguém é excluído dos espaços sociais por apresentar algum transtorno mental. Também se manifesta na falta de escuta, na desvalorização da autonomia das pessoas e em discursos que reforçam o isolamento em vez da inclusão e do cuidado.

Fernanda: A luta antimanicomial defende o cuidado em liberdade e práticas mais humanizadas. Como você imagina que esses princípios podem atravessar sua atuação profissional daqui para frente? 

Ana Carolina: Pretendo levar esses princípios para minha prática profissional por meio de uma escuta acolhedora, respeitando a singularidade de cada pessoa e reconhecendo sua autonomia. Acredito que o cuidado em saúde mental deve ser construído junto com o sujeito, considerando sua história, seus vínculos e seu contexto de vida. Esses valores são fundamentais para uma atuação ética e comprometida com os direitos humanos.

Fernanda: Ao finalizar essa experiência, que reflexão ou mensagem você gostaria de deixar para pessoas que ainda enxergam a saúde mental com preconceito ou distância? 

Ana Carolina: Eu diria que a saúde mental faz parte da vida de todos nós. Falar sobre sofrimento psíquico não deve ser motivo de vergonha, mas uma oportunidade de promover acolhimento, compreensão e cuidado. Quanto mais nos dispomos a ouvir sem julgamentos, mais contribuímos para uma sociedade inclusiva, humana e respeitosa com as diferenças.

ENCERRAMENTO

Agradeço à Ana Carolina Noleto pela disponibilidade em compartilhar suas reflexões sobre um tema tão importante para a Psicologia e para a sociedade. Que espaços como esse continuem fortalecendo debates sobre saúde mental, cuidado humanizado e a defesa da dignidade das pessoas em sofrimento psíquico. 

Créditos
Entrevistadora: Fernanda Bazana Martinez
Curso: Psicologia
Data: 27/05/2026

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