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A solidão na contemporaneidade: reflexões psicanalíticas sobre o mal-estar digital

A solidão tornou-se um dos grandes paradoxos da contemporaneidade. Vivemos hiperconectados através de dispositivos digitais, mas experimentamos um profundo isolamento afetivo. Este fenômeno não representa apenas uma contradição tecnológica, mas revela transformações estruturais nas formas de vínculo social características da modernidade líquida (BAUMAN, 2004).

Freud (1930/2010), em “O Mal-Estar na Civilização”, já apontava que o processo civilizatório impõe renúncias pulsionais que geram sofrimento psíquico. Na contemporaneidade, esse mal-estar assume novas configurações. As redes sociais prometem conexão ilimitada, mas frequentemente promovem relações superficiais que não satisfazem a necessidade humana fundamental de reconhecimento e pertencimento (DUNBAR, 2016).

A psicanálise lacaniana oferece uma leitura particularmente pertinente deste fenômeno. Para Lacan (1969-1970/1992), o laço social se estrutura através da linguagem e do desejo do Outro. Nas interações digitais, há uma modificação significativa na economia libidinal: o sujeito relaciona-se predominantemente com imagens especulares, em um registro mais próximo ao narcisismo primário do que ao reconhecimento intersubjetivo genuíno.

Turkle (2011) documenta como a cultura digital produz o que denomina de “alone together” – estar junto sozinho. Seus estudos etnográficos revelam que adolescentes e adultos preferem cada vez mais a mediação tecnológica aos encontros presenciais, não por comodidade, mas por medo da vulnerabilidade inerente às relações face a face. Esta evitação da presença do outro real constitui um mecanismo defensivo contra a angústia do encontro com a alteridade.

Do ponto de vista winnicottiano, a solidão saudável relaciona-se à capacidade de estar só na presença de alguém, desenvolvida na primeira infância através de uma maternagem suficientemente boa (WINNICOTT, 1958/1983). Porém, a solidão contemporânea muitas vezes não corresponde a este estar só criativo, mas a um vazio existencial marcado pela ausência de reconhecimento simbólico.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han (2015) argumenta que vivemos sob a tirania da positividade, onde até a solidão foi colonizada pelo imperativo do desempenho. Não há mais espaço para o ócio contemplativo ou para o tédio fértil – experiências fundamentais para a elaboração psíquica e a criatividade. A solidão, quando não preenchida freneticamente por estímulos digitais, é vivenciada como fracasso pessoal.

A epidemia de solidão tem consequências concretas para a saúde mental e física. Estudos longitudinais demonstram que o isolamento social crônico aumenta significativamente os riscos de depressão, ansiedade, doenças cardiovasculares e mortalidade precoce, com efeitos comparáveis ao tabagismo (HOLT-LUNSTAD et al., 2015). Paradoxalmente, quanto mais conectados digitalmente, mais desconectados afetivamente nos tornamos.

A clínica psicanalítica contemporânea testemunha este sofrimento. Pacientes relatam centenas de “amigos” virtuais, mas nenhuma pessoa com quem possam compartilhar suas angústias reais. A performance identitária nas redes sociais, cuidadosamente editada e filtrada, dificulta o reconhecimento da própria vulnerabilidade e impede o estabelecimento de vínculos autênticos baseados na aceitação mútua das falhas e imperfeições.

Cabe perguntar: que formas de resistência são possíveis frente a este cenário? A psicanálise nos ensina que o sujeito não está determinado passivamente pelas circunstâncias sociais. Há sempre uma margem de liberdade, uma possibilidade de subjetivação que escapa às capturas imaginárias. O desafio clínico e político é criar espaços onde o encontro genuíno com o outro permaneça possível, onde a palavra possa circular e produzir laço social.

Neste sentido, o consultório analítico se configura como um lugar de resistência à aceleração e à superficialidade contemporâneas. Ali, o tempo pode desacelerar, o silêncio pode ser tolerado, e a presença do outro pode ser experimentada sem as mediações narcísicas da imagem. A transferência analítica, com toda sua intensidade e ambivalência, oferece uma experiência de vínculo que contrasta radicalmente com as relações algoritmicamente mediadas da cultura digital.

Referências

BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

DUNBAR, R. I. M. Do online social media cut through the constraints that limit the size of offline social networks? Royal Society Open Science, v. 3, n. 1, p. 150292, 2016.

FREUD, S. O mal-estar na civilização. In: ______. Obras completas, volume 18. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. (Originalmente publicado em 1930).

HAN, B.-C. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

HOLT-LUNSTAD, J.; SMITH, T. B.; BAKER, M.; HARRIS, T.; STEPHENSON, D. Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: a meta-analytic review. Perspectives on Psychological Science, v. 10, n. 2, p. 227-237, 2015.

LACAN, J. O seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992. (Originalmente publicado em 1969-1970).

TURKLE, S. Alone together: why we expect more from technology and less from each other. New York: Basic Books, 2011.

WINNICOTT, D. W. A capacidade de estar só. In: ______. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. (Originalmente publicado em 1958).

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