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Desenvolvimento físico: o corpo como base

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É comum, no imaginário popular, a associação do desenvolvimento humano apenas ao crescimento físico e à aquisição de habilidades motoras ao longo da infância. No entanto, com o avanço das produções científicas e dos estudos integrativos sobre o desenvolvimento humano, passa a ser necessário compreender que essa dimensão exige ir além das mudanças visíveis, considerando os processos neurobiológicos que ocorrem de forma contínua desde os primeiros anos de vida. Nesse sentido, o desenvolvimento físico envolve não apenas a maturação do corpo e do sistema nervoso, mas também a aquisição progressiva de habilidades que se articulam com aspectos cognitivos, emocionais e sociais. 

Os estudos sobre o desenvolvimento físico evidenciam que ele pode ser compreendido a partir de diferentes dimensões que se articulam ao longo da infância. Papalia, Feldman e Martorell (2013) destacam que esse processo envolve o crescimento corporal, relacionado às mudanças estruturais do organismo; a maturação biológica, especialmente do sistema nervoso, que possibilita o funcionamento progressivamente mais complexo do corpo; e a aquisição de habilidades motoras, que permite à criança interagir de forma mais ativa com o ambiente. Assim, essas dimensões não ocorrem de maneira isolada, mas de forma integrada, sendo influenciadas tanto por fatores biológicos quanto pelas experiências vividas no contexto em que a criança está inserida.

Entre essas dimensões, o desenvolvimento do sistema nervoso ocupa um papel central na compreensão do desenvolvimento físico. Esse processo ocorre de forma dinâmica e progressiva, sendo influenciado tanto pela maturação biológica quanto pelas experiências vividas pela criança ao longo da infância. Nesse sentido, o desenvolvimento neuropsicomotor não depende apenas de fatores internos, mas também da qualidade dos estímulos recebidos no ambiente, das interações estabelecidas e das condições de vida da criança. Evidências apontam que aspectos como o contexto familiar, a nutrição e as condições socioeconômicas podem favorecer ou dificultar esse processo, evidenciando o caráter relacional e multidimensional do desenvolvimento infantil (Santana et al., 2024).

Compreender o desenvolvimento físico a partir dessa perspectiva implica reconhecê-lo como parte de um processo mais amplo, no qual corpo, cérebro e ambiente se influenciam mutuamente. Revisões recentes apontam que fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais atuam de maneira conjunta sobre o desenvolvimento na primeira infância, afastando explicações simplificadoras ou unicamente maturacionais (Martins et Al., 2025; Messias-Fogaça et al., 2025). Assim, pensar o desenvolvimento físico na infância exige considerá-lo não como uma dimensão isolada, mas como parte de uma rede de transformações que sustenta e, ao mesmo tempo, é atravessada pelas demais dimensões do desenvolvimento humano.

Compreender o desenvolvimento físico a partir dessa perspectiva implica reconhecer que ele não se encerra na infância. Na transição para a adolescência, o corpo volta a passar por mudanças intensas, como o estirão do crescimento, as alterações hormonais, a maturação sexual e as mudanças na composição corporal. Essas transformações, porém, não afetam apenas o organismo. Elas aparecem na vida concreta quando o adolescente passa a se comparar mais com os colegas, a se sentir exposto pelo próprio corpo, a receber comentários sobre altura, peso, voz, acne ou desenvolvimento sexual e, muitas vezes, a ser tratado pelos outros como mais velho ou mais maduro apenas por sua aparência. Papalia, Feldman e Martorell (2013) destacam que as mudanças puberais repercutem na imagem corporal, nas relações com os pares, na construção da identidade e nas expectativas sociais dirigidas ao adolescente. Assim, o desenvolvimento físico não diz respeito apenas a mudanças orgânicas, mas também às formas pelas quais o corpo passa a ser vivido, percebido e significado nas relações sociais.

Referências

MARTINS, Isabela Melo; PERAZZO, Matheus França; CORRÊA-FARIA, Patrícia; SANTOS, Ingrid Garcia; MATEUS, Ana Cláudia; FERNANDEZ, Amanda Meira; TAVARES, Naraiana de Oliveira; COSTA, Luciane Rezende. Fatores de risco e proteção ao desenvolvimento na primeira infância: revisão de escopo. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, Recife, v. 25, e20240166, 2025. DOI: 10.1590/1806-9304202500000166.

MESSIAS-FOGAÇA, Thaís da Glória; KRAINSKI, Katiane Janke; FELIPIN, Leonan Ferrari; RIECHI, Tatiana Izabele Jaworski de Sá. Fatores de risco e proteção ao desenvolvimento de crianças de 0 a 6 anos no Brasil: uma revisão sistemática. Ciencias Psicológicas, v. 19, n. 1, e-3974, 2025. DOI: 10.22235/cp.v19i1.3974.

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth Duskin; MARTORELL, Gabriela. Desenvolvimento humano. 13. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. 

SANTANA, Thomaz Henrique Silva; MENDES, Danielly Ferreira; BALTAR, Karine Alves; MARIANO, Ana Claudia Silva; CRUZ, Érika Barros Teixeira da; FERNANDES, Ana Júlia Corcino; NETA, Abigail Coelho Rosado; OLIVEIRA, Dante Ferreira de. A influência dos fatores multidimensionais e o neurodesenvolvimento infantil: uma revisão dos efeitos biológicos, ambientais e sociais. Brazilian Journal of Natural Sciences, v. 6, n. 1, e1962024, p. 1-18, 2024. DOI: 10.31415/bjns.v6i1.209. 

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