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Epidemiologia da ansiedade e depressão no contexto brasileiro

A ansiedade e a depressão configuram-se como os transtornos mentais de maior prevalência na população brasileira, representando um problema de saúde pública de magnitude considerável e demandando atenção prioritária dos sistemas de saúde e das políticas públicas. Dados epidemiológicos recentes evidenciam que o Brasil ocupa posições de destaque nos rankings internacionais relativos a esses transtornos, sendo apontado pela Organização Mundial da Saúde como o país com maior prevalência de ansiedade no mundo e como o país com maior prevalência de depressão na América Latina. Segundo informações da Organização Pan-Americana de Saúde, aproximadamente 18,6 milhões de brasileiros convivem com transtornos de ansiedade, o que corresponde a 9,3% da população nacional. Em relação à depressão, estimativas indicam que cerca de 12 milhões de brasileiros são afetados por este transtorno, evidenciando o impacto significativo que estas condições exercem sobre o bem-estar individual e coletivo, a qualidade de vida, a produtividade e o sistema de saúde como um todo.

O Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis em Tempos de Pandemia (Covitel), realizado em 2023 com amostra representativa de 9.000 pessoas de todas as regiões do Brasil, revelou que 26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico médico de ansiedade, enquanto 12,7% relataram diagnóstico de depressão. Estes dados confirmam a tendência de crescimento na prevalência destes transtornos observada nas últimas décadas e intensificada no contexto da pandemia de COVID-19. A análise por faixas etárias demonstra que a população jovem apresenta índices particularmente elevados, com 31,6% dos brasileiros entre 18 e 24 anos reportando diagnóstico de ansiedade, constituindo a faixa etária com maior prevalência deste transtorno no país. Em relação à depressão, a maior prevalência foi observada na faixa etária de 55 a 64 anos, com 17% dos indivíduos neste grupo reportando o diagnóstico, seguida pelos jovens de 18 a 24 anos, com 14,1% de prevalência.

As diferenças de gênero na prevalência de ansiedade e depressão constituem achado consistente na literatura epidemiológica, com as mulheres apresentando taxas sistematicamente mais elevadas em comparação aos homens. Os dados do Covitel 2023 evidenciam que 34,2% das mulheres brasileiras receberam diagnóstico de ansiedade, enquanto, entre os homens, esta proporção foi significativamente menor. Similarmente, 18,1% das mulheres reportaram diagnóstico de depressão, em contraste com 13% dos homens. Estas disparidades refletem a interação complexa de fatores biológicos, psicológicos e socioculturais, incluindo diferenças hormonais, sobrecarga decorrente de múltiplas jornadas de trabalho, exposição mais frequente a situações de violência e discriminação, maior propensão para buscar ajuda profissional e identificar sintomas, além de vulnerabilidades específicas relacionadas a eventos do ciclo reprodutivo. Pesquisas do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar demonstram que, entre beneficiários de planos de saúde, houve aumento nos casos de depressão entre mulheres de 15,3% em 2020 para 18,5% em 2023, indicando que uma a cada cinco beneficiárias de planos de saúde no Brasil apresenta este transtorno.

A distribuição regional dos transtornos de ansiedade e depressão também apresenta variações significativas que merecem atenção. Segundo os dados do Covitel 2023, a região Centro-Oeste apresenta a maior prevalência de ansiedade, com 32,2% da população reportando diagnóstico, seguida pelas regiões Sul e Sudeste. Em relação à depressão, a região Sul destaca-se com a maior prevalência, alcançando 18,3% dos indivíduos, seguida pelas regiões Nordeste e Sudeste. Estas variações regionais podem estar associadas a diferenças socioeconômicas, culturais, de acesso aos serviços de saúde e de exposição a fatores de risco específicos de cada região. É importante ressaltar que a capacidade de identificação e diagnóstico destes transtornos também varia entre as regiões, podendo influenciar os dados de prevalência reportados. Regiões com melhor estruturação da rede de atenção à saúde mental tendem a apresentar taxas de diagnóstico mais elevadas, não necessariamente porque a ocorrência real dos transtornos seja maior, mas porque há maior capacidade de detecção e registro dos casos.

Os fatores de risco associados ao desenvolvimento de transtornos de ansiedade e depressão no contexto brasileiro são múltiplos e inter-relacionados, incluindo aspectos individuais, familiares, sociais e estruturais. A desigualdade social constitui determinante fundamental, com populações em situação de vulnerabilidade socioeconômica apresentando maior exposição a estressores crônicos e menor acesso a recursos de enfrentamento e suporte. A violência urbana, presente de forma marcante em diversas cidades brasileiras, contribui para a perpetuação de estados de insegurança, medo e tensão que favorecem o desenvolvimento de sintomas ansiosos. A exposição a situações traumáticas, incluindo violência doméstica, abuso sexual, negligência e outras formas de maus-tratos, especialmente durante a infância e adolescência, configura fator de risco bem estabelecido para transtornos mentais na vida adulta. Características individuais, como história familiar de transtornos mentais, traços de personalidade específicos e presença de condições médicas crônicas, também contribuem para aumentar a vulnerabilidade.

A pandemia de COVID-19 exerceu impacto significativo na saúde mental da população brasileira, exacerbando os níveis de ansiedade e depressão em diversos segmentos sociais. O isolamento social prolongado, as incertezas econômicas, o medo de contaminação, as perdas de entes queridos, as mudanças abruptas nas rotinas de trabalho e estudo e a sobrecarga dos profissionais de saúde da linha de frente constituíram fatores estressores de grande magnitude. Estudos epidemiológicos realizados durante o período pandêmico evidenciaram aumento na prevalência de sintomas de ansiedade e depressão, particularmente entre populações específicas como profissionais de saúde, mulheres, jovens e pessoas com condições preexistentes de saúde mental. Dados do Sistema Único de Saúde indicam que, entre janeiro e outubro de 2024, foram registrados 671.305 atendimentos ambulatoriais por ansiedade, representando aumento de 14,3% em relação a todo o ano anterior. Pesquisas do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar revelam que as internações por ansiedade mais que dobraram em quatro anos, evidenciando o agravamento dos quadros e a necessidade crescente de intervenções mais intensivas.

O impacto funcional dos transtornos de ansiedade e depressão é substancial, afetando múltiplas dimensões da vida dos indivíduos acometidos. No âmbito laboral, estes transtornos estão associados a absenteísmo, presenteísmo (presença física no trabalho com produtividade reduzida), maior risco de acidentes, dificuldades de concentração e memória, prejuízos na capacidade de tomada de decisões e maior rotatividade de funcionários. A Organização Mundial da Saúde estima que os transtornos de depressão e ansiedade custam à economia global aproximadamente 1 trilhão de dólares por ano em perda de produtividade. No contexto das relações interpessoais, estes transtornos frequentemente resultam em isolamento social, dificuldades de comunicação, conflitos familiares e empobrecimento da rede de suporte social. A qualidade de vida é significativamente comprometida, com prejuízos na capacidade de experimentar prazer, de manter rotinas de autocuidado, de engajar-se em atividades sociais e de lazer, e de perseguir objetivos pessoais e profissionais.

O diagnóstico precoce e o tratamento adequado dos transtornos de ansiedade e depressão são fundamentais para prevenir complicações, reduzir o sofrimento e promover a recuperação funcional. A Atenção Primária à Saúde constitui porta de entrada privilegiada para a identificação destes transtornos, sendo responsável pela maior parte dos atendimentos relacionados a queixas de saúde mental no Sistema Único de Saúde. Contudo, observa-se que importantes lacunas persistem na capacidade de identificação e manejo destes transtornos na atenção primária, incluindo limitações na formação dos profissionais, sobrecarga de trabalho, insuficiência de instrumentos de rastreamento validados e dificuldades de acesso ao apoio matricial especializado. A implementação das Equipes Multiprofissionais Especializadas em Saúde Mental na Atenção Primária (AMENT), previstas na Política Nacional de Saúde Mental, representa estratégia importante para qualificar o atendimento aos casos leves e moderados de ansiedade e depressão, fortalecendo a capacidade resolutiva deste nível de atenção.

Referências:

COVITEL. Inquérito Telefônico de Fatores de Risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis em Tempos de Pandemia. Vital Strategies e Universidade Federal de Pelotas, 2023.

FREITAS, A. A. S. et al. Compreendendo a prevalência de ansiedade e depressão na sociedade brasileira. Periódicos Brasil. Pesquisa Científica, Macapá, v. 3, n. 2, p. 647-657, 2024.

MANGOLINI, V. I.; ANDRADE, L. H.; WANG, Y. P. Epidemiologia dos transtornos de ansiedade em regiões do Brasil: uma revisão de literatura. Revista de Medicina, São Paulo, v. 98, n. 6, p. 393-399, 2019.

ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. Depressão e outros transtornos mentais comuns. Washington, D.C.: OPAS, 2017.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Mental Health Atlas 2020. Geneva: World Health Organization, 2021.

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