Existe uma imagem que o audiovisual aprendeu a repetir com impressionante eficiência: uma mulher ferida permanece em silêncio enquanto uma lágrima escorre lentamente por seu rosto. Ela foi traída, abandonada, humilhada, violentada. Pouco importa. O enquadramento permanece o mesmo. A dor é permitida desde que não rompa a superfície. Desde que permaneça bonita.
Essa imagem não nasce por acaso. Ela é resultado de uma longa construção social acerca do que mulheres podem sentir, expressar e ocupar no mundo. Em Gênero, Patriarcado e Violência, a socióloga brasileira Heleieth Saffioti (2015) discute como a socialização de homens e mulheres ocorre de maneira profundamente desigual. Segundo a autora, mulheres foram historicamente educadas para a docilidade, para a conciliação e para o apaziguamento, enquanto aos homens foram associados atributos como agressividade, coragem e força. Não se trata de características naturais, mas de expectativas socialmente produzidas e continuamente reforçadas.
Sob essa lógica, a raiva feminina torna-se uma emoção inconveniente. Ela desorganiza a personagem dócil, ameaça a mulher compreensiva, rompe com a figura daquela que suporta. O problema nunca esteve na existência da raiva, mas em quem a manifesta. Durante séculos, a feminilidade foi associada à contenção emocional, à delicadeza e à capacidade de absorver conflitos sem devolver o golpe.
Essa percepção aparece de forma contundente em uma fala da atriz Anya Taylor-Joy durante entrevista à BBC Radio 1, em 2022. Ao comentar roteiros que recebia para interpretar, a atriz desabafou:
“Eu tenho algo [a dizer] sobre a fúria feminina (…), eu recebo muitos [projetos] em que homens fazem coisas terríveis e mulheres sentam em silêncio enquanto uma lágrima corre lentamente [em seus rostos]. E eu digo ‘Não! Nós ficamos bravas e iradas! (…) A única maneira de eu interpretar isso verdadeiramente é atacando-o!'”
A indignação de Taylor-Joy ultrapassa uma questão de atuação. Sua fala denuncia uma convenção narrativa amplamente difundida: mulheres podem sofrer, mas frequentemente lhes é negada a possibilidade de reagir. O sofrimento feminino ocupa o centro da cena; a raiva feminina, por outro lado, continua sendo tratada como excesso, ameaça ou desvio.
Talvez seja por isso que a ascensão da chamada female rage no audiovisual contemporâneo desperte tanto fascínio. Não porque mulheres tenham começado a sentir raiva recentemente, mas porque essa emoção passou a ocupar um espaço de visibilidade que durante muito tempo lhe foi recusado. Personagens como Carrie White, Beatrix Kiddo, Furiosa e Pearl não apenas expressam fúria. Elas tensionam uma expectativa histórica segundo a qual mulheres deveriam permanecer silenciosas diante da violência, da humilhação ou da privação.
Longe de representar um desvio moral ou uma falha de caráter, a raiva é compreendida pela Psicologia como uma emoção humana fundamental. Na Terapia Focada nas Emoções (TFE), desenvolvida por Leslie Greenberg, a raiva é entendida como uma emoção primária adaptativa, desempenhando funções fundamentais para a sobrevivência psíquica e relacional dos indivíduos. Ela emerge diante de situações de violação, injustiça ou frustração e atua na proteção do organismo, no estabelecimento de limites e na defesa do self Sentir raiva não é uma anomalia; é parte da experiência de estar vivo.
Ainda assim, nem todas as pessoas recebem a mesma autorização social para expressá-la. Quando homens manifestam raiva, frequentemente são associados à firmeza, liderança, coragem ou determinação. Quando mulheres expressam a mesma emoção, os significados atribuídos costumam ser outros: descontrole, histeria, exagero, instabilidade. A emoção é a mesma. O julgamento raramente é.
Esse enquadramento atravessa a forma como aprendemos a olhar para personagens femininas. Não surpreende que tantas narrativas tenham transformado a dor feminina em espetáculo e a raiva feminina em problema. O sofrimento pode gerar empatia; a fúria exige confronto. O sofrimento pede acolhimento; a fúria questiona estruturas. Há algo profundamente desconfortável em assistir a uma mulher que deixa de suportar.
Em Carrie, a Estranha (1976), essa lógica se revela com brutalidade. Carrie White cresce submetida à violência simbólica e psicológica da mãe, à perseguição dos colegas e à constante vigilância sobre seu corpo. Sua primeira menstruação, marco biológico banal para milhões de mulheres, é tratada como motivo de humilhação pública e terror religioso. A personagem aprende desde cedo que sua existência precisa ser contida, corrigida e disciplinada.
A destruição que encerra o filme costuma ser lembrada como um surto de violência. No entanto, reduzir Carrie à explosão final é ignorar tudo o que a antecede. Sua fúria não surge de um único acontecimento; ela é construída pelo acúmulo. Cada insulto, cada ridicularização, cada tentativa de enquadrá-la em uma feminilidade impossível de alcançar sedimenta uma tensão que o filme transforma em horror. A raiva feminina aparece, então, como algo monstruoso — não porque pertença ao campo do monstruoso, mas porque a cultura frequentemente escolhe enxergá-la dessa forma.
Décadas depois, Kill Bill (2003) apresenta uma figura radicalmente diferente. Beatrix Kiddo ( A Noiva) também é vítima de uma violência extrema. Também tem sua vida interrompida. Também sofre perdas irreparáveis. A diferença está na resposta que a narrativa constrói para essa experiência.
A Noiva não permanece imóvel diante daquilo que lhe foi arrancado. Sua dor se converte em movimento. Cada passo de sua jornada é impulsionado pela recusa em aceitar o lugar da vítima permanente. Sua raiva não é retratada como irracionalidade; é apresentada como força motriz, como combustível para reconstruir uma identidade que tentaram destruir. Há sangue, violência e vingança, mas existe também algo mais profundo: a recuperação da própria agência.
Pearl, protagonista do filme homônimo lançado em 2022, ocupa outro território. Sua fúria não nasce prioritariamente da violência física, mas da frustração. Presa em uma fazenda isolada, responsável por cuidar de um pai adoecido e submetida às expectativas de uma mãe controladora, Pearl habita um espaço estreito demais para seus desejos. Ela quer ser vista. Quer ser admirada. Quer escapar. Quer ocupar o centro do palco de uma vida que insiste em relegá-la às margens.
Sua raiva emerge precisamente da distância entre aquilo que sonha ser e aquilo que lhe é permitido viver. O desconforto provocado pela personagem está no fato de que muitos de seus desejos são perfeitamente reconhecíveis. O que assusta não é apenas sua violência. É a identificação que ela produz antes dela. Pearl encarna uma fúria alimentada pela privação, pela sensação de aprisionamento e pelo esmagamento constante da própria subjetividade. Sua explosão não rompe apenas com a ordem social que a cerca; rompe com a imagem da mulher que aceita seu destino sem ressentimento.
Já Furiosa, de Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e Furiosa (2024), oferece uma expressão distinta dessa mesma emoção. Sua raiva raramente se traduz em discursos inflamados ou demonstrações explosivas. Ela está presente em cada decisão, em cada enfrentamento, em cada quilômetro percorrido em direção à liberdade. Não é uma fúria que paralisa. Não é uma fúria que consome. É uma fúria que sustenta.
Ao contrário de Carrie, cuja raiva implode o mundo ao seu redor, ou de Pearl, cuja fúria corrói sua própria realidade, Furiosa transforma a indignação em resistência. Sua trajetória evidencia que a raiva também pode ser uma força organizadora. Pode apontar caminhos. Pode sustentar a sobrevivência em contextos que tentam reduzir sujeitos à condição de objeto.
Apesar de suas diferenças, Carrie, Beatrix, Pearl e Furiosa compartilham algo fundamental: nenhuma delas aceita permanecer apenas sofrendo. Cada uma, à sua maneira, desafia uma tradição narrativa que durante muito tempo reservou às mulheres o papel de testemunhas da própria dor. Elas choram, perdem, fracassam e sangram. Mas também devolvem o olhar, confrontam a violência e recusam a passividade que tantas histórias insistiram em lhes atribuir.
Talvez seja justamente por isso que a chamada female rage ocupe hoje um lugar tão central na cultura contemporânea. Não porque a raiva feminina seja nova, mas porque sua representação tornou-se mais difícil de ignorar. O que essas personagens expõem não é um excesso emocional feminino. É o desgaste produzido por séculos de contenção. É o custo psíquico de uma feminilidade construída sobre a expectativa de que mulheres permaneçam agradáveis mesmo quando feridas.
Durante muito tempo, ensinaram mulheres a agradecer pelo amor, pela delicadeza, pela capacidade de acolher. Pouco se falou sobre a raiva. Pouco se falou sobre tudo o que ela impede de morrer.
A raiva ergueu vozes que o silêncio já havia condenado. Atravessou gerações de mulheres que se recusaram a aceitar como destino aquilo que lhes foi imposto como limite. Protegeu corpos, rompeu ciclos, incendiou conformismos. Nem toda transformação nasce da ternura. Nem toda mudança floresce da aceitação.
Há uma beleza brutal na mulher que finalmente se permite sentir raiva. Não a raiva que destrói indiscriminadamente, mas aquela que reconhece uma injustiça e se recusa a fazer as pazes com ela. A raiva que devolve contorno a um self constantemente comprimido. A raiva que diz “não” quando o mundo inteiro esperava mais um “sim”.
Carrie, Furiosa, Beatrix e Pearl habitam extremos distintos dessa experiência, mas compartilham uma mesma ruptura: nenhuma delas aceita desaparecer dentro da própria dor.
Que a lágrima exista, quando for necessária. Mas que não seja a única linguagem disponível. Afinal, não é apenas o amor que move as mulheres. Bendita seja a raiva que nos trouxe até aqui.
Referências
GREENBERG, Leslie S. Terapia focada nas emoções: teoria e prática. Porto Alegre: Artmed, 2015.
PARKER, Daisy Jones. Anya Taylor-Joy has always fought for female rage. In Furiosa, she went to battle. British GQ, 22 maio 2024. Disponível em: British GQ. Acesso em: 22 jun. 2026.
SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado e violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.
