A violência vivida por pessoas LGBTQIAPN+ no contexto cristão brasileiro não se restringe a episódios físicos ou explícitos; ela se manifesta, de forma persistente e devastadora, por meio de violências simbólicas e emocionais que atravessam famílias, comunidades religiosas e instituições sociais. Esse tipo de violência, muitas vezes disfarçado de zelo espiritual, cuidado moral ou disciplina religiosa, produz impactos profundos na constituição subjetiva, na autoestima e no desenvolvimento emocional de indivíduos que, desde cedo, aprendem a associar sua identidade afetivo-sexual à culpa, ao pecado e à inadequação.
A violência simbólica ocorre quando discursos, práticas ou atitudes reforçam a ideia de que determinadas existências são inferiores, desviantes ou indignas de reconhecimento. No caso da população LGBTQIAPN+, isso se intensifica quando líderes e comunidades religiosas utilizam interpretações bíblicas distorcidas para afirmar que suas vivências contradizem a vontade divina. Sustentada por séculos de traduções equivocadas e moralidades sexualizantes, essa visão legitima práticas de rejeição, silenciamento e invisibilização. Como descrevem Perucchi, Brandão e Vieira (2014), discursos religiosos que naturalizam a condenação alimentam a LGBTQIAPN-fobia internalizada, isto é, a incorporação de crenças negativas que passam a ser vividas como verdade sobre quem a pessoa é.
Esse processo pode começar ainda na infância ou adolescência, especialmente em lares profundamente influenciados por valores cristãos tradicionais. Becker, Maestri e Bobato (2015) mostram que, nesses contextos, expressões de gênero e de sexualidade consideradas “fora da norma” são frequentemente vigiadas, reprimidas ou ridicularizadas, criando um ciclo de autopoliciamento e vergonha. O jovem passa a monitorar seu comportamento, sua forma de falar, vestir ou se relacionar, com medo de punições ou desaprovação familiar. Essa vigilância constante é uma forma de violência emocional que produz insegurança, ansiedade e dificuldade de aceitação de si.
Para muitos, o ambiente religioso que deveria oferecer apoio espiritual se transforma em espaço de disciplina moral e controle. Sermões, pregações e orientações pastorais que reforçam a condenação da homoafetividade, muitas vezes baseados em traduções distorcidas, como demonstrado por Feitosa (2018), são interpretados como mensagens diretas de rejeição divina. Assim, o indivíduo passa a acreditar que seu desejo o afasta de Deus, gerando conflitos espirituais intensos, temor da punição e sensação de abandono. Esse tipo de sofrimento transcende o âmbito psicológico e atinge profundamente a dimensão espiritual, produzindo aquilo que o CFP (2020) identifica como violência espiritual: práticas que fragilizam a subjetividade ao usar elementos da fé como instrumentos de coerção, humilhação ou controle.
Essas violências não ocorrem apenas em templos ou cultos; elas permeiam as relações familiares, escolares e comunitárias. A repetição cotidiana de piadas, comentários depreciativos, advertências religiosas ou ameaças veladas reforça a sensação de que a identidade LGBTQIAPN+ é algo errado, vergonhoso ou perigoso. Muitos indivíduos relatam ter tentado “corrigir-se”, ocultar sua identidade ou até modificar seu comportamento de forma extrema para evitar rejeição, estratégias que, embora destinadas à proteção, aprofundam ainda mais o sofrimento. A tensão entre autenticidade e aceitação se torna permanente, gerando quadros de ansiedade, depressão, isolamento social e dificuldades na construção de relações afetivas saudáveis.
A violência simbólica também se manifesta através do silenciamento. Quando igrejas e famílias evitam falar sobre diversidade sexual, tratam o tema como tabu ou apenas como pecado, reforçam a invisibilidade dessas identidades. O silêncio comunica, de maneira indireta, que essas existências não têm lugar legítimo na família ou na comunidade de fé. Esse apagamento não apenas impede o desenvolvimento de uma identidade positiva, como alimenta o sentimento de solidão e desamparo, frequentemente relatado por jovens LGBTQIAPN+ que crescem em ambientes religiosos conservadores.
Em muitos casos, essas violências simbólicas e emocionais precedem violências físicas mais explícitas. Como aponta o Atlas da Violência (2023), a população LGBTQIAPN+ está entre as mais vulneráveis do país, especialmente travestis e pessoas trans, historicamente alvo de perseguições, agressões e assassinatos. A base dessa violência extrema muitas vezes repousa em discursos simbólicos que desumanizam essas identidades, perpetuando a ideia de que suas vidas são menos dignas de respeito, proteção ou cuidado.
Por outro lado, reconhecer essas dinâmicas também permite identificar caminhos de transformação. Comunidades cristãs inclusivas, pesquisadores e movimentos afirmativos têm demonstrado que a espiritualidade pode ser vivida sem reproduzir violência. Ao revisitar interpretações bíblicas, reconhecer distorções históricas e priorizar valores éticos como compaixão, justiça e dignidade humana, é possível reconstruir práticas de fé que acolham e respeitem a diversidade. Esse movimento, além de teológico, é também terapêutico: oferece às pessoas LGBTQIAPN+ a oportunidade de ressignificar sua espiritualidade, entender que não são culpadas por quem são e recuperar vínculos afetivos e espirituais que foram rompidos pela violência simbólica.
Assim, compreender o impacto das violências simbólicas e emocionais é essencial para promover ações de cuidado e acolhimento. Elas não deixam marcas visíveis, mas constroem camadas de sofrimento que acompanham o indivíduo por toda a vida. Romper com essas práticas exige coragem ética, sensibilidade pastoral e compromisso com a dignidade humana, um passo fundamental para que fé e identidade possam coexistir sem feridas.
REFERÊNCIA
CFP – CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Tentativas de aniquilamento de subjetividades LGBTI+: impactos das práticas de “cura” e repressão de identidades. Brasília: CFP, 2020.
PERUCCHI, Elaine; BRANDÃO, Mariana; VIEIRA, Gabriela. Rejeição religiosa e sofrimento subjetivo em pessoas LGBTQIAP+. 2014.
BECKER, Bianca; MAESTRI, Bruna; BOBATO, Ellen. Família, religiosidade e conflitos afetivos na vivência de pessoas LGBTQ+. 2015.
FEITOSA, Alexandre. Quem está manipulando a Bíblia? 2018.
WEISS, A. Religiões inclusivas e diversidade sexual. 2013.
