(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

O quarto que virou tela

No silêncio do quarto, o menino Gustavo encara o computador de games. As paredes tornam-se sombras, o tapete transforma-se em oceano de pixels, e o tempo escapa entre os dedos. Suas pernas, antes inquietas, dobram-se como molas cansadas. O cachorro, entediado e deitado sob a mesa, observa a bola de borracha esquecida no centro do quarto, sem ter com quem brincar.

A infância parece comprimida em uma tela. Cada risada que antes ecoava pelo quintal transforma-se em emojis que piscam na tela, e cada descoberta reduz-se a um clique ou a uma notificação. A luz azul projeta sombras em seu rosto, enquanto bocejos se acumulam como nuvens invisíveis no céu noturno e o relógio avança, sem que ele perceba.

Ao erguer os olhos, o mundo real surge estranho e silencioso. O quintal, as cores e o vento esperam por ele, como lembranças de um tempo que ainda pode ser recuperado. A tela traz mundos infinitos, mas não substitui o toque, a corrida ou o riso compartilhado. A psicologia nos lembra: o desenvolvimento infantil não se resume a estímulos digitais; exige movimento, relação e experiência concreta.

Assim, é possível observar a transposição da escrita não apenas como um retrato da infância contemporânea, mas um alerta pungente sobre a paisagem que se desenha no silêncio dos quartos. O quarto de Gustavo, transformado em tela, simboliza a perda de um espaço vital para o desenvolvimento: aquele onde o corpo se move, a imaginação se expande sem o auxílio de pixels e as relações se constroem no toque e no olhar.

A tela, com sua promessa de mundos infinitos, revela-se uma prisão sutil, trocando a riqueza da experiência concreta pela efemeridade do estímulo digital. A psicologia, citada no texto, oferece a chave para a recuperação: a infância plena exige o retorno ao quintal, às cores e ao vento, onde o riso é compartilhado e o desenvolvimento se dá em sua forma mais autêntica.

Portanto, o desafio imposto pela “infância plugada” é um convite urgente à reflexão. É preciso resgatar o tempo que escapa entre os dedos, antes que a sombra azul da tela apague de vez a luz do mundo real e o quarto, que virou tela, se torne um palco permanente para a solidão. A crônica nos lembra que a reconexão com o mundo físico é o caminho essencial para garantir que as novas gerações possam viver, de fato, a plenitude de sua jornada de crescimento.

Referência

PAUTAS – Seção Livro – 3. Infância Plugada. Os perigos das telas para as novas gerações Analisa os impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento infantil e na saúde mental das crianças. Livro: DESMURGET, Michel, A fábrica de cretinos digitais: Os perigos das telas para nossas crianças, Editoras Vestígio, 2020. 

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