Em uma startup de tecnologia no centro barulhento de São Paulo, o painel que contabilizava os downloads de um aplicativo de atividades diárias não parava de apitar, gerando uma tensão constante. A expectativa era atingir 1 milhão de usuários nos três primeiros meses de lançamento. João, de 37 anos, responsável pelas avaliações do aplicativo, roía as unhas com os olhos fixados no painel.
Mariana, de 24 anos, co-criadora do app, havia ido embora pontualmente às 18h, enquanto João permanecia até as 20h30.
Ao notar que ela havia partido, ele ficou furioso e murmurou:
Como alguém pode não se importar com a grandiosidade dessa demanda? Só temos até amanhã para bater 1 milhão de usuários.
Naquela noite, como em muitas outras, João dormiu no sofá do escritório, com o notebook logado nas avaliações, despertando a cada novo bipe. Ele acreditava que apenas dessa forma seria possível alcançar o sucesso profissional e o reconhecimento que tanto almejava. Para ele, não havia sucesso sem desgaste.
No dia seguinte, Mariana chegou ao trabalho e comentou que, na noite anterior, fora à aula de tênis e ao cinema com as amigas; fora fantástico. João, com olheiras profundas e uma xícara de café, respirou fundo e respondeu com um “legal” que soou tão desanimado quanto ele se sentia.
Fizeram uma reunião rápida sobre as estratégias para atingir a meta. Quando tocaram na pauta das avaliações negativas, João começou a sentir algo estranho. Não era a primeira vez: quando se sentia pressionado, suava, a respiração ficava ofegante e sentia o peito explodir. No fundo, ele sabia que era ansiedade, mas colocava o fone e bebia mais café, justificando os sintomas pela cafeína.
Mariana percebeu que João não estava bem. Aproximou-se e perguntou com genuína preocupação:
João, você está bem? Está sentindo algo?
Como estar bem, Mariana? Precisamos atingir a meta hoje, HOJE! Como você consegue não se importar com nada? Esse projeto também é seu!
Ela puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele.
João, já te contei como minha mãe faleceu? Ela teve um infarto após negligenciar por anos a saúde mental e a carga de trabalho. Passava horas no escritório, resolvia as demandas de todos, menos as dela. Prometi a mim mesma que não viveria assim; minha vida tem outros sentidos além do trabalho. Quando foi a última vez que você fez algo por prazer?
João permaneceu em silêncio.
Hoje você vai sair daqui às 18h comigo para dormir. E amanhã iremos a uma confeitaria; não aceito outra resposta além de “sim”.
João não concordou de imediato, mas respirou fundo e viu ali uma oportunidade de fazer diferente — de ter, finalmente, uma vida além do trabalho.
