(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

A Vontade sobre o Intelecto: Uma análise da cegueira de Hank Schrader sob a ótica de Schopenhauer 

Compartilhe este conteúdo:

Breaking Bad é uma série que cativa  pela complexidade que encontramos no desenvolvimento de personagens, na dualidade e nas ironias dramáticas que resultam em reações e conexões ambíguas com os protagonistas. Na jornada de Hank Schrader, um detetive determinado e brilhante da narcóticos, é apresentado que ele passa temporadas inteiras no encalço de Heisenberg e do seu império, sem ser capaz de perceber que o criminoso que tanto procura é o mesmo homem do qual ela divide a mesa de jantar. Para Hank, Walter White é um cunhado abnegado que se dedica a família amplamente e se encontra endividado, além de ter sido acometido por um câncer de pulmão que evolui rapidamente. Essa cegueira de Hank é muitos debatida pelo público como um exagero do roteiro ou mesmo decorrente de uma falha técnica ou intelectual, porém, quando observamos sob uma ótica da psicologia universal, é possível fazer uma relação entre a vulnerabilidade do personagem com a filosofia do pensador alemão Arthur Schopenhauer, trazendo aspectos que, no fundo, são familiares a nós também.

O Mundo Como Vontade e Representação, obra-prima de Schopenhauer, descreve o ser humano não como essencialmente racional, subvertendo a supremacia da razão que fundamentamos  no ocidente. Para ele, a essência do homem habita naquilo que chama de “Vontade”, um impulso cego, irracional e indomável, composto principalmente por nossos desejos mais viscerais, medos profundos, instintos de autopreservação e laços afetivos. O intelecto, a nossa lógica e análise, nada mais é do que um servo que se subordina à Vontade. Para melhor ilustrar essa dinâmica, Schopenhauer cunha a analogia de que o intelecto consegue enxergar bem, porém, não consegue se mover pois é um homem coxo. Para que se mova é preciso que seja carregado nas costas de um gigante que é cego; esse gigante representa a Vontade. Quem dita a direção a ser trilhada é o gigante cego (Vontade) pois é o único capaz de se mover, porém, se ele decidir ir em direção a uma verdade dolorosa, o homem coxo, que está no topo e enxerga a ameaça, é forçado a desviar os olhos e ignorá-la para que ambos consigam manter o caminho escolhido.

Quando relacionamos esse conceito e o aplicamos à dinâmica da série, compreendemos o bloqueio cognitivo de Hank. Como um agente da lei, seu intelecto (o homem coxo) era perspicaz, sendo capaz de mapear conexões e enxergar pistas a quilômetros de distância. Contudo, o Hank homem e chefe de família era governado por sua Vontade (o gigante cego), essa sua versão que o demandava, acima de tudo, a estabilidade e segurança emocional. Para o gigante cego de Hank, o âmbito familiar precisava ser sagrado e inalterado; nele o cunhado Walter era apenas um professor de química frágil e inofensivo. Mesmo que fosse um exímio conhecedor das regras morais urbanas e achasse crível que homens bons poderiam se corromper, aceitar a menor hipótese de que Walter pudesse ser Heisenberg exigiria que o gigante cego de Hank caminhasse em direção a um abismo de dor incontrolável. Como o gigante se recusava a dar esse passo, ele simplesmente forçava o intelecto de Hank a olhar para o outro lado, salvando-o da realidade obscura.

Esse suborno do Intelecto pela Vontade manifesta-se nos momentos em que Hank depara-se com evidências inquestionáveis e, inconscientemente, cria justificativas para descartá-las. A cena tensa em que confronta as iniciais W.W (episódio 4 da quarta temporada), o intelecto até esboça o nome de Walter White, mas o gigante cego rapidamente rechaça a ideia e a torna cômica, usando do riso como escudo para afastar a ameaça da possibilidade. O ser humano, como pontua Schopenhauer, só aceita a realidade que sua Vontade deseja que exista. Quando a tragédia se estabelece, o choque das evidências negadas é tão violento que o gigante cego perde o equilíbrio e é forçado a parar finalmente. O véu da ilusão é rasgado de cima para baixo e o intelecto de Hank consegue registrar a verdade crua. O colapso físico e os ataques de pânico imediatamente após a descoberta são o início do preço doloroso que ele ainda pagará por ver o mundo como ele realmente é. 

Ao final de tudo, a cegueira trágica de Hank Schrader não o afasta de nós, na verdade, é justamente o que o torna profundamente humano e assustadoramente semelhante a qualquer espectador. Jugar a aparente ingenuidade do investigador a partir do conforto do nosso sofá é um exercício de baixo custo, afinal não temos nada a perder com a verdade de Breaking Bad. No entanto, na vida comum, todos nós temos nossos próprios gigantes cegos. Todos, em algum momento, escolhemos ignorar os sinais em vermelho simplesmente porque aceitar a realidade destruiria um mundo seguro, fundamentalmente construído para nos gerar o menor sofrimento possível. Hank não falhou por falta de inteligência, mas por excesso de humanidade. Ele escolheu o afago da ilusão à dor deliberada e dilacerante da verdade, provando que, quando o abismo bate à porta disfarçado de alguém que amamos, a razão que tanto evocamos pode ser a primeira a fechar os olhos.

 

Referências: 

SCHOPENHAUER, Arthur. O Mundo como Vontade e Representação. Tradução de Jair Barboza. São Paulo: UNESP, 2005. 

Ficha Técnica de Breaking Bad

Compartilhe este conteúdo:
Sair da versão mobile