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Entre a inferioridade e o pertencimento: uma leitura adleriana da relação entre Tetsuo e Kaneda em Akira

O anime Akira, de 1988, dirigido por Katsuhiro Otomo, é um marco da densidade filosófica que nos insere em um contexto de crise social, urbanização caótica e vazio existencial característicos da modernidade tardia. O filme traz personagens que encarnam dilemas humanos atemporais. Entre eles, destacam-se Tetsuo Shima e Shotaro Kaneda, cuja relação pode ser lida a partir da perspectiva da Psicologia Individual de Alfred Adler, que compreende a vida psíquica humana a partir da tensão entre sentimento de inferioridade, compensação e interesse social.

Para Adler, todos os indivíduos nascem frágeis e carregam um sentimento primordial de inferioridade, que impulsiona a nossa busca pela superação. Essa tendência pode ser saudável, se convertendo em crescimento e cooperação, ou patológica, quando o desejo de se sobrepor ao sentimento de pequenez resulta em tirania, isolamento e destruição. A trajetória de Tetsuo exemplifica de maneira trágica esse segundo caminho. Desde o início da narrativa, ele aparece como membro frágil do grupo de motociclistas liderado por Kaneda. Menor, fisicamente mais vulnerável e constantemente protegido, Tetsuo constrói sua autoimagem em torno da comparação desfavorável com o amigo e esse constante espelhamento em Kaneda reforça um complexo de inferioridade profundo.

O que Adler chamaria de “compensação” se manifesta em Tetsuo de modo perturbador. Ao adquirir poder, ele não busca integrá-lo de maneira construtiva, mas sim esmagar aqueles que antes o diminuíram. Se antes ele se via como dependente, agora se coloca como dominador absoluto, incapaz de reconhecer qualquer limite ou laço social. A supercompensação, conceito central na psicologia adleriana, explica bem o modo como Tetsuo converte sua antiga fragilidade em tirania. Suas decisões seguintes ao adquirir os poderes revela uma personalidade que enquadra-se no tipo Dominante, buscando controle e agressão, sem interesse social. Nesse ponto, Tetsuo simboliza o destino do indivíduo que, ao não elaborar seu sentimento de inferioridade, mergulha na destruição de si e dos outros. A cidade devastada por seu poder é a metáfora externa da ruína interna de sua psique.

Em contraste, Kaneda representa uma elaboração distinta dessa mesma tensão adleriana. Embora não possua poderes extraordinários, Kaneda revela características de liderança natural e uma postura que, ainda rebelde, tende à cooperação. Ele é destemido, irônico, impulsivo, mas não movido por ressentimentos. Kaneda lida com as adversidades através da afirmação da própria identidade e do fortalecimento de laços com as pessoas que se importa. Ainda que sua rebeldia juvenil o aproxime do arquétipo anárquico, sua atitude no decorrer da história demonstra interesse social: Kaneda arrisca-se constantemente por seus companheiros, e até mesmo por Tetsuo, ainda que este já se encontre tomado pela fúria destrutiva.

Essa diferença entre os dois personagens ilustra de forma paradigmática o que Adler descreveu como os rumos possíveis do sentimento de inferioridade. No caso de Tetsuo, a carência afetiva e a sensação de constante humilhação diante de Kaneda foram transformadas em uma busca cega por poder, culminando na negação do outro. Sua trajetória é marcada pela incapacidade de pertencer, de sentir-se parte de uma comunidade, o que, para Adler, é a medida fundamental da saúde psíquica. Tetsuo, assim, encarna o destino do homem que, tomado pelo narcisismo e pela ânsia de grandeza, rompe com o tecido social e perde qualquer possibilidade de pertencimento. Já Kaneda, apesar de não escapar da violência do ambiente, consegue articular seu papel dentro de um grupo e construir uma identidade que não se resume ao ressentimento. Sua liderança, embora muitas vezes inconsequente, se ancora na lealdade e no senso de coletividade, o que o aproxima do tipo adleriano “socialmente útil”.

A relação entre os dois pode ser interpretada como uma dramatização do conflito existencial entre o desejo de afirmação individual e a necessidade de pertencimento social. Tetsuo busca ser alguém à altura de Kaneda, mas sua maneira de fazê-lo é destruir tudo ao redor. Kaneda, por sua vez, não precisa de superpoderes para sustentar sua posição; sua força advém da conexão com os outros. Filosoficamente, essa oposição pode ser lida à luz da modernidade: Tetsuo representa o sujeito isolado, que ao perder qualquer referencial comunitário se perde na voracidade do poder, enquanto Kaneda simboliza a possibilidade de afirmação vital na ação conjunta, ainda que caótica e imperfeita.

O clímax do filme, em que Tetsuo se torna um corpo monstruoso e descontrolado, é a materialização visual do excesso de compensação. O corpo que se expande sem limites e devora tudo ao redor reflete a metáfora adleriana do ego hipertrofiado, incapaz de se conter dentro das fronteiras da realidade social. Já Kaneda, lançado no olho desse furacão, tenta ainda resgatar seu amigo, gesto que mostra sua permanência no registro do interesse social, mesmo diante da aniquilação iminente. Essa tentativa não apenas reforça a oposição entre ambos, mas também revela o núcleo filosófico da obra: a grandeza humana não está no poder absoluto, mas na capacidade de manter vínculos, de agir junto ao outro.

Em última instância, Akira apresenta duas trajetórias divergentes diante da mesma condição de fragilidade inicial. Tetsuo, dominado pelo ressentimento, mergulha no abismo da autodestruição, tornando-se metáfora do perigo da supercompensação adleriana. Kaneda, embora não escape da violência do contexto, consegue se afirmar pela liderança e pelo interesse social, encarnando a possibilidade de uma vida mais integrada, ainda que imperfeita. Nesse sentido, o contraste entre os dois é a chave psicológica e filosófica do filme: enquanto Tetsuo é o retrato da queda no narcisismo e na solidão, Kaneda é o símbolo da vitalidade que, mesmo no caos, ainda encontra força no pertencimento e na ação conjunta.

Ficha técnica:

Akira 

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