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Higuruma Hiromi: uma análise do idealismo em colapso e da ruptura moral diante da injustiça

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Existe algo particularmente interessante em personagens que desafiam a necessidade quase automática de classificar pessoas em categorias organizadas e confortáveis. Bom ou mau. Herói ou vilão. Correto ou condenável. Em narrativas muito marcadas por conflitos morais, esse impulso costuma aparecer rápido: buscamos um lugar estável para depositar cada personagem e, assim, organizar também nossa própria leitura da história.

Higuruma escapa dessa lógica desde a primeira aparição.

À primeira vista, ele parece ocupar um lugar bastante previsível dentro de Jujutsu Kaisen: expressão austera, postura rígida, estética severa e uma presença que naturalmente produz estranhamento. Há nele uma composição visual quase clínica – limpa, fria, silenciosa – que sugere distância e ameaça antes mesmo de qualquer elaboração narrativa mais profunda.

Mas Higuruma não é um personagem construído para ser lido rapidamente.

Conforme sua história se revela, o que emerge não é a figura de alguém orientado pela crueldade ou pelo prazer na violência, mas um sujeito progressivamente esmagado pela incompatibilidade entre aquilo em que acredita e o sistema no qual foi inserido. Talvez por isso ele evoque algo tão reconhecível: Higuruma carrega o arquétipo do adulto cansado.

Não um cansaço ordinário, associado apenas ao excesso ou à rotina, mas uma forma muito específica de exaustão que nasce quando alguém sustenta, por tempo prolongado, responsabilidades emocionais, éticas e simbólicas maiores do que seria humanamente possível carregar sozinho.

Antes de se tornar feiticeiro, Higuruma atua como advogado. E esse detalhe não é uma mera informação biográfica: ele organiza toda a estrutura psicológica do personagem.

Seu ingresso na profissão é mobilizado por uma convicção moral intensa, quase fundante. Há nele um investimento genuíno na ideia de justiça, especialmente direcionado àqueles que parecem já ter sido abandonados de antemão. Higuruma escolhe defender justamente pessoas que ninguém deseja defender, casos praticamente perdidos. E existe uma profundamente simbólica nisso. Ele se mostra orientado por um idealismo muito consistente, quase rígido, sustentando a crença de que esforço e compromisso moral poderiam, em alguma medida, reorganizar um sistema estruturalmente falho.

Existe nessa postura uma tentativa silenciosa – e ao mesmo tempo imensa – de reposicionar o equilíbrio moral do mundo com as próprias mãos. Como se, ao defender alguém já condenado simbolicamente pela estrutura, ele também estivesse tentando reparar algo maior: a própria violência institucional naturalizada naquele sistema.

É aí que reside um dos aspectos mais delicados do personagem. Existe uma exaustão em sustentar por tanto tempo a fantasia psíquica de que é possível conter, individualmente, aquilo que é produzido coletivamente por uma estrutura adoecida.

O que desgasta Higuruma não é um evento isolado, é a repetição.

Realidade, realidade, realidade.

A colisão contínua entre idealismo e estrutura.

Em Jujutsu Kaisen, o sistema jurídico japonês é apresentado a partir de um dado particularmente inquietante: taxas de condenação quase absolutas. Existe uma engrenagem que parece operar a partir de uma lógica muito mais comprometida com a manutenção da condenação do que com uma investigação genuína da verdade. A prática é essa, a regra é essa, é condenação. Temos um sistema falido moral e eticamente. A lógica institucional opera pela normalização da injustiça.

E Higuruma permanece ali dentro. Tentando. Insistindo. Observando sucessivas vezes pessoas olharem para ele como última possibilidade de salvação.

Esse detalhe é especialmente doloroso.

O olhar dos réus ocupa um lugar central na construção do sofrimento psíquico do personagem. Não se trata apenas de testemunhar sofrimento, mas de tornar-se depositário de expectativa, esperança e responsabilidade em contextos onde o fracasso não depende exclusivamente de competência ou esforço individual.

Eles olham para ele esperando que algo seja feito. Como se ele pudesse interromper o sistema. Como se fosse possível. E talvez, por algum tempo, ele próprio também tenha acreditado nisso.

É nesse ponto que Higuruma pode ser aproximado do conceito de moral injury. Segundo Lindsay B. Carey e Timothy J. Hodgson (2018), trata-se de uma síndrome relacionada ao trauma, produzida pelo impacto físico, psicológico, social e espiritual decorrente de graves transgressões morais ou violações de crenças éticas profundamente sustentadas pelo indivíduo. Esse sofrimento pode emergir tanto ao perpetrar, falhar em prevenir ou testemunhar atos percebidos como moralmente intoleráveis, quanto pela experiência de traição daquilo que é considerado correto por figuras ou instituições investidas de autoridade.

A aproximação com Higuruma torna-se particularmente pertinente porque seu sofrimento não decorre apenas de observar injustiças de forma passiva. Ele está inserido em uma estrutura institucional que o convoca reiteradamente a operar em desacordo com aquilo que organiza sua própria ética.

Ao longo de sua trajetória, o contato contínuo com condenações injustas, falhas institucionais e impotência progressiva parece produzir uma ruptura que não se restringe ao campo profissional, mas alcança sua própria organização subjetiva e moral.

Esse ponto é crucial, porque seu colapso psicológico não pode ser lido de maneira individualizante, como simples descontrole ou fragilidade intrapsíquica. Seu sofrimento está intimamente conectado a uma experiência de ruptura entre sujeito e instituição. Entre consciência e sistema. Entre ideal e realidade material.

A icônica cena em que aparece dentro da banheira, completamente vestido, sintetiza isso de maneira brilhante.

A água costuma carregar simbologias de alívio, suspensão, limpeza, vulnerabilidade, retorno ao corpo. Mas Higuruma não está despido. Ele permanece de terno. Íntegro apenas na aparência.

O terno aqui assume uma dimensão simbólica. Ele pesa. Quase é possível sentir isso visualmente. Como se tudo aquilo que ele carrega — responsabilidade, frustração, culpa, idealismo, fracasso institucional — permanecesse aderido ao próprio corpo, sem possibilidade de pausa ou descarga.

E essa imagem condensa com precisão sua exaustão moral: um sujeito imerso, cercado, tomado por algo maior do que ele, mas ainda incapaz de se despir daquilo que o constitui. Há nessa cena um confronto silencioso entre idealismo e realidade.

Como se Higuruma estivesse encurralado exatamente no ponto de colisão entre aquilo em que acredita e tudo o que a experiência concreta insiste em devolver.

E talvez a pergunta central do personagem esteja toda ali, contida nessa imagem estática: até quando um ideal consegue se sustentar quando confrontado continuamente pela realidade? Até onde alguém consegue permanecer investido em justiça, reparação e responsabilidade ética quando o mundo retorna, repetidas vezes, evidências contrárias?

E aqui vem outro detalhe extremamente simbólico, sua consciência opera como um tribunal psíquico permanente. E isso talvez seja um dos aspectos mais fascinantes do personagem: sua a própria técnica amaldiçoada externaliza essa arquitetura interna.

Sua expansão de domínio assume a forma de um tribunal. Mas não qualquer tribunal.

Seu domínio é um espaço rigidamente organizado em torno de regras, exposição de fatos e suspensão absoluta da violência física. A questão central passa a ser o julgamento. E, sobretudo, um julgamento justo.

Depois de ser atravessado por um sistema jurídico que repetidamente transformava justiça em formalidade e condenação em regra, Higuruma produz sua própria versão de ordem.

Mas a transformação mais interessante não está apenas no tribunal em si. Está no lugar que Higuruma passa a ocupar dentro dele. Antes, ele era o advogado, seu movimento inicial era direcionado ao outro: alcançar quem precisava ser defendido.

Depois da ruptura, isso muda. Higuruma abandona esse lugar,  deixando de ser defensor e tornando-se juiz.

Essa mudança é brutal porque revela uma reorganização profunda de sua relação com justiça e responsabilidade. Já não basta mais defender dentro de uma estrutura falha. Ele precisa assumir controle direto sobre o próprio julgamento. Como se, após constatar inúmeras vezes que o sistema externo falha, ele já não pudesse mais tolerar delegar justiça a ninguém.

Seu colapso psicológico culmina exatamente nesse ponto.

A técnica amaldiçoada surge no momento em que ele presencia mais um caso marcado por condenação injusta. Mais uma repetição daquilo que o vinha corroendo progressivamente. E então temos o ápice do colapso moral, onde ele assassina os juízes envolvidos e, a partir daí, passa a acumular mortes em um curto espaço de tempo, sendo apresentado inicialmente ao espectador como antagonista — alguém perigoso, instável e já atravessado por violência concreta. Essa construção é particularmente interessante porque desloca a leitura simplista de vilania.

Ainda assim, sua história não se encerra nessa quebra.

Há uma segunda ruptura importante.

Mesmo dentro do tribunal que ele próprio construiu — esse espaço quase obsessivamente organizado em torno da ideia de justiça — Higuruma é novamente confrontado com a possibilidade de erro e julgamento injusto. Nem ali há garantia absoluta. Nem mesmo sua estrutura alternativa é capaz de produzir a perfeição moral que ele parecia buscar.

Esse ponto é decisivo.

Porque ele o obriga a encarar algo particularmente doloroso: não existe sistema totalmente imune à falha. Nem o institucional. Nem o criado por ele. É justamente nesse momento, ao reconhecer essa fissura dentro da própria construção, que Higuruma parece recuperar algo que havia se perdido.

Ele volta a agir.

Dessa vez, não mais apenas como juiz ou executor de sentença, mas retomando parcialmente aquela posição inicial orientada à proteção e responsabilidade ética. De certa forma, há algo quase circular nisso.

Depois de abandonar o lugar de defensor, tornar-se juiz e atravessar a violência como resposta ao colapso, Higuruma retorna — ainda que transformado — à possibilidade de usar sua ação individual para preservar alguém.

E é isso que torna sua trajetória tão fascinante.

Higuruma não representa a linearidade moral, porque não existe essa linearidade.

Ele encarna aquilo que acontece quando um sujeito profundamente investido em justiça é empurrado repetidamente ao limite de sua própria capacidade psíquica.

Sua história não fala sobre ausência de consciência. Fala sobre o custo psíquico de possuí-la em excesso.

Referências

CAREY, Lindsay B.; HODGSON, Timothy J. Moral injury: the effect on mental health and implications for treatment. Frontiers in Psychiatry, [S. l.], v. 9, p. 619, 2018. DOI: 10.3389/fpsyt.2018.00619. 

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