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Garotas legais nunca sentem raiva de seus homens: uma análise sobre narrativa, perspectiva e construção identitária em Garota Exemplar

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Amy Dunne não é o tipo de personagem que você “entende” com facilidade – e talvez esse seja exatamente o ponto. Em Garota Exemplar, nada é entregue de forma direta, confortável ou estável. O que parece, não é. O que é dito, precisa ser questionado. E, principalmente, o que é visto depende muito mais de quem está olhando do que daquilo que de fato aconteceu.

À primeira vista, o filme se apresenta como um thriller: uma mulher desaparece no dia do aniversário de casamento, e o marido, Nick, rapidamente se torna o principal suspeito. A mídia se envolve, a opinião pública se forma, e cada detalhe da vida do casal passa a ser analisado, dissecado e reinterpretado. Mas Garota Exemplar nunca foi apenas sobre um desaparecimento. Ele é, antes de tudo, sobre como histórias são contadas – e sobre quem tem o poder de contá-las.

Amy não entra na narrativa como uma personagem qualquer. Ela já chega carregando uma espécie de legado: filha de escritores que transformaram sua infância na série de livros da Amazing Amy, Amy cresce sendo constantemente comparada a uma versão idealizada de si mesma – mais inteligente, mais talentosa, mais perfeita. Enquanto a Amy real falhava, a outra vencia. Enquanto uma errava, a outra já estava dois passos à frente. E é aí que algo fundamental se estabelece: Amy nunca teve o privilégio de simplesmente ser. Ela sempre precisou corresponder.

Ao conhecer Nick, essa lógica não desaparece, ela se reorganiza. Surge então aquilo que o próprio filme nomeia com precisão desconcertante: a Cool Girl. No famoso monólogo, Amy descreve essa figura como o sonho masculino: a mulher que bebe cerveja sem reclamar, que gosta de esportes, que ri das mesmas piadas, que não exige, não cobra, não pesa. Ela é bonita sem esforço, sexualmente disponível, emocionalmente leve  e, acima de tudo, moldável.

Essa construção, no entanto, não pode ser compreendida como uma simples escolha individual ou uma performance consciente isolada. Ela se insere em um campo mais amplo de expectativas sociais que regulam e produzem formas possíveis de ser mulher. Nesse sentido, Judith Butler (2023), contribui ao demonstrar que aquilo que chamamos de identidade de gênero não é uma essência estável ou natural, mas um efeito reiterado de práticas discursivas e normas sociais que se consolidam pela repetição. O gênero, portanto, não expressa algo interno e pré-existente, mas se realiza na própria performance que o torna inteligível socialmente. A Cool Girl, nesse contexto, não é uma exceção ou uma invenção individual de Amy, mas a expressão de um regime de inteligibilidade que define quais versões de feminilidade são reconhecidas, desejadas e legitimadas dentro das relações. 

E o que torna esse monólogo tão potente não é a denúncia de uma mentira. É justamente o contrário.

A Cool Girl não é uma farsa no sentido simplista. Ela é uma construção relacional. Uma resposta aprendida. Uma forma de existir que se organiza em função do desejo do outro. Amy não está fingindo, ela está operando dentro de uma lógica profundamente reconhecível: a de que ser amada exige adaptação, ajuste, leitura constante do que é esperado.

E isso tem um custo.

Sustentar uma versão de si que foi validada como condição para o amor exige consistência, vigilância e, sobretudo, repetição. Não é uma mentira contada uma vez, é performar com constância e coerência uma narrativa ao longo do tempo. E a exaustão que Amy descreve nasce da impossibilidade de sustentar indefinidamente uma identidade que precisa estar sempre em sintonia com o olhar do outro.

É nesse ponto que a traição de Nick ganha um peso muito mais cruel. Essa traição vai além de romper o vínculo afetivo. Ela rompe o acordo implícito que sustentava aquela construção: se você for isso, eu te amo. Quando ele deixa de validar essa versão, não é apenas a relação que se desorganiza, é a própria forma como Amy existia dentro dela.

E é aqui que Gone Girl dá um passo além. Porque Amy brilhantemente ultrapassa o que seria uma reação emocional ou passional. Ela reorganiza a narrativa, e costura com maestria todos os detalhes que a compõem. 

O diário que surge ao longo do filme tem um papel narrativo fortíssimo. Ele é uma construção extremamente coerente, emocionalmente plausível e socialmente inteligível. Amy entende algo que atravessa toda a história: não existe acesso direto ao real. Existe aquilo que pode ser contado, organizado e reconhecido como verdade.

Quem conta a história, controla a realidade.

E esse conceito é perfeitamente explicado quando Anderson e Goolishian, (2018, p. 24), trazem que os sistemas humanos são, simultaneamente, sistemas geradores de linguagem e significado. Na prática isso significa que a realidade deixa de ser compreendida como algo fixo, absoluto e anterior às relações humanas, passando a existir através das trocas, das narrativas e dos sentidos construídos coletivamente. Aquilo que se entende como “verdadeiro” não existe como fato universal, não emerge de forma isolada, mas se consolida nos consensos, nas interpretações, a partir daquilo que, dentro de determinado contexto social, se torna coerente, reconhecível e inteligível para os outros.

E Amy compreende isso com uma lucidez quase cirúrgica.

Ela entende que a percepção coletiva não se organiza necessariamente em torno da verdade factual, mas da narrativa mais emocionalmente convincente. A mídia não precisa de fatos absolutos – ela precisa de uma história coerente. O público não busca precisão – busca identificação. E Amy entrega exatamente isso. Ela constrói uma versão de si mesma que pode ser consumida, acreditada e defendida.

O diário não funciona porque é objetivamente “verdadeiro”, mas porque faz sentido dentro das expectativas sociais já estabelecidas sobre feminilidade, casamento e violência. Amy constrói uma versão de si que é imediatamente legível: a esposa delicada, silenciosamente infeliz, fragilizada dentro de uma relação deteriorada. Sua narrativa convence porque dialoga diretamente com imaginários sociais já existentes, com papéis que já foram culturalmente escritos e assimilados muito antes dela. Amy reorganiza os sentidos, e entende que aquilo que será reconhecido como real depende menos do acontecimento em si e mais da forma como ele é contado, interpretado e compartilhado socialmente.

Nesse movimento, a distinção entre “eu real” e “eu narrado” simplesmente perde força, porque essa diferença não é estável, nem acessível de forma pura, e assim começamos a falar de intersubjetividade. Amy é a Cool Girl, é a esposa ressentida, é a vítima do diário, é a estrategista que observa cada detalhe com frieza calculada. Nenhuma dessas versões anula a outra. Todas coexistem como formas possíveis de existir em contextos distintos.

A ideia de um “eu verdadeiro” que foi perdido não se sustenta aqui. O que existe são múltiplas formas de organização da identidade, cada uma respondendo a demandas específicas, a relações específicas, a narrativas específicas.

E isso torna Amy tão desconfortável. Não porque ela “finge” ser alguém, mas porque ela explicita algo que preferimos perceber como exceção quando, na realidade, atravessa todas as relações humanas: não existimos de maneira fixa, estável e isolada do outro. Cada vínculo produz uma linguagem própria, uma dinâmica própria, uma forma específica de existir. Não há um “eu verdadeiro” escondido por trás das relações, esperando finalmente ser descoberto em sua forma pura. Existem múltiplas construções de si, atravessadas pelas experiências, pelos afetos, pelas narrativas e pelos diferentes sistemas relacionais dos quais fazemos parte.

A ideia que construo sobre mim nunca será exatamente a mesma que o outro constrói sobre mim – e ambas coexistem simultaneamente. Em uma relação sou atravessada por determinadas expectativas, afetos e possibilidades; em outra, por experiências completamente diferentes. Da mesma forma, não existe uma única realidade objetiva sustentando todas as experiências humanas, mas construções coletivas de realidade que se organizam através da linguagem, da percepção e dos sentidos compartilhados entre as pessoas.

Amy apenas compreende isso de maneira radical.

Ela entende que identidade não é descoberta, é construída, negociada, sustentada e reinterpretada constantemente dentro das relações. E é por isso que ela consegue reorganizar tão bem não apenas a percepção que os outros têm dela, mas também o próprio casamento.

No fim, Amy não destrói um casamento – porque a desorganização dessa relação começa muito antes dela desaparecer. Ela começa quando Nick modifica silenciosamente toda a dinâmica entre os dois, tomando decisões unilaterais, reorganizando a própria vida e, consequentemente, reorganizando também o lugar que Amy ocupa dentro daquela relação. Aos poucos, a estrutura que sustentava a Cool Girl deixa de existir.

E isso importa porque a Cool Girl não nasce no vazio. Ela existe dentro de uma dinâmica específica, alimentada por desejo, admiração e validação. Quando a relação muda, Amy também muda dentro dela. Não porque exista uma “Amy verdadeira” escondida sob a performance, finalmente revelada, mas porque relações diferentes produzem versões diferentes de nós mesmos. A mulher leve, divertida e perfeitamente adaptável deixa de fazer sentido dentro de uma relação que já não a acolhe da mesma forma.

Então surge outra Amy. Mais ressentida, mais frustrada, mais exigente, como uma reorganização relacional. E, ironicamente, é justamente nesse momento que Nick busca outra mulher – mais jovem, mais ingênua, mais fácil, outra Cool Girl. Como se a falha estivesse na transformação de Amy, e não na própria dinâmica que exigiu dela, desde o início, uma sustentação contínua de algo impossível de permanecer intacto para sempre.

E  Amy se recusa a aceitar, fazendo o que sempre aprendeu a fazer: ela reorganiza a história como alguém que se recusa a permanecer presa a uma versão de si construída apenas para ser consumida confortavelmente pelo outro. Ela redefine os papéis, desloca as posições, muda a dinâmica entre eles até que a relação deixe de operar sob a lógica anterior. E Nick permanece. Não apesar disso, mas dentro disso.

O que existe no final ultrapassa o clichê da restauração de um casamento “verdadeiro”, ou do retorno nostálgico ao que existia antes. Existe uma nova configuração relacional, construída depois que ambos deixam de sustentar certas ilusões sobre si mesmos e sobre o outro. Amy assume o controle da narrativa dela. Reorganiza os papéis, desloca as posições e reconstrói o casamento em torno de uma nova dinâmica, muito mais explícita, consciente e brutal do que a anterior. Não existe retorno ao que eram antes, porque aquele “antes” já havia deixado de existir muito tempo antes da traição, do desaparecimento ou do diário.

O que existe no final são duas pessoas plenamente conscientes das histórias que construíram um sobre o outro – e que, ainda assim, permanecem.

Referências

ANDERSON, H.; GOOLISHIAN, H. Sistemas humanos como sistemas linguísticos. In: MCNAMEE, S.; GERGEN, K. J. A terapia como construção social. Porto Alegre: Artes Médicas, 2018.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. 24. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023. 

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