(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

A arquitetura da ansiedade: o despertar da adolescência e a reestruturação do self em ‘Divertidamente 2’

A sequência da animação da Pixar, Divertida Mente 2 (Inside Out 2, 2024), transcende o entretenimento infantil para se estabelecer como uma ferramenta pedagógica visual sobre a psicologia do desenvolvimento. Ao introduzir a puberdade na protagonista Riley, o filme ilustra, com precisão metafórica, a “reforma” neural e emocional descrita pelas neurociências durante a adolescência. O foco central recai sobre a chegada da Ansiedade, não como uma vilã, mas como uma função adaptativa que, quando desregulada, sequestra o sistema límbico e fragmenta o senso de identidade.

Segundo Papalia e Feldman (2013), a adolescência é marcada por uma maturação desigual do cérebro: o sistema límbico (responsável pelas emoções e recompensas) amadurece antes do córtex pré-frontal (responsável pelo controle inibitório e planejamento). No filme, isso é visualizado pela “demolição” da sala de comando e a introdução de novas emoções complexas: Ansiedade, Inveja, Tédio e Vergonha. Diferente das emoções primárias de Ekman (Alegria, Tristeza, Raiva, Medo, Nojo) apresentadas no primeiro filme, a Ansiedade surge com a função de projeção de futuro. Ela é a manifestação do instinto de autopreservação social, fundamental para a inserção do adolescente no grupo de pares.

Entretanto, a narrativa expõe o perigo da fusão cognitiva com a ansiedade. Ao reprimir as “memórias ruins” e as emoções primárias para moldar uma nova identidade aceitável, a personagem Ansiedade desencadeia o que a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) chamaria de “evitação experiencial” (HAYES et al., 2021). A tentativa frenética de controlar todos os cenários futuros possíveis resulta em uma crise de pânico — retratada no filme como um turbilhão paralisante. Esse momento ilustra a hiperativação da amígdala e a incapacidade momentânea de regulação emocional.

Um ponto crucial para a psicologia clínica abordado na obra é a construção do “Senso de Si” (Sense of Self). Inicialmente, a Alegria tenta construir uma identidade baseada apenas em memórias positivas (“eu sou uma boa pessoa”), criando um self frágil e incongruente com a realidade. A Ansiedade, por sua vez, constrói um self baseado na insuficiência (“eu não sou boa o suficiente”). O desfecho da obra alinha-se com as teorias de integração da personalidade: a saúde mental não reside na supressão das emoções negativas ou na busca incessante pela felicidade, mas na aceitação da complexidade da experiência humana.

Conclui-se, portanto, que Divertida Mente 2 oferece uma representação sofisticada da regulação emocional. Para o campo da Saúde Mental, o filme reforça que a ansiedade, embora desconfortável, tem função vital de antecipação e proteção. O processo terapêutico e de amadurecimento envolve, assim como na cena final do filme, não a eliminação da ansiedade, mas o seu “rebaixamento” do controle total para um papel de conselheira, permitindo que a identidade (o Self) seja uma amálgama fluida de todas as vivências, sejam elas dolorosas ou alegres.

Referências Bibliográficas:

EKMAN, Paul. A linguagem das emoções. São Paulo: Lua de Papel, 2011.

HAYES, Steven C. et al. Terapia de Aceitação e Compromisso: O processo e a prática da mudança consciente. Porto Alegre: Artmed, 2021.

PAPALIA, Diane E.; FELDMAN, Ruth D. Desenvolvimento Humano. 12. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.

SIEGLER, Robert S. et al. How children develop. 6. ed. New York: Macmillan Learning, 2020.

VYGOTSKI, Lev S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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