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O crepúsculo do cuidado: robôs na gerontologia e a terceirização do afeto

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Até que ponto as tecnologias assistivas representam uma solução para a escassez de cuidadores ou contribuem para o isolamento das conexões humanas? 

O envelhecimento populacional tem se tornado uma das principais transformações demográficas do século XXI. Com o aumento da expectativa de vida e a consequente redução das taxas de natalidade, a demanda por cuidados voltados à população idosa cresce a passos largos globalmente, acendendo um alerta emitido pela própria Organização Mundial da Saúde.

Nesse cenário, países como o Japão têm investido cada vez mais em tecnologias assistivas para auxiliar no acompanhamento e bem-estar dessa parcela da população. Robôs como a foca terapêutica PARO e o andróide Pepper já fazem parte da rotina de instituições de longa permanência, oferecendo companhia e estímulos aos idosos. Estudos indicam que a interação com esses pequenos robôs traz benefícios psicológicos importantes, como a redução expressiva do estresse e o auxílio no manejo de quadros relacionados à demência. No entanto, a crescente presença de máquinas no ecossistema do cuidado também levanta questionamentos éticos e sociais profundos. Afinal, até que ponto essas tecnologias são soluções legítimas e até que ponto elas mascaram uma sutil substituição das relações humanas genuínas? É urgente refletir sobre os limites e as consequências de automatizarmos a velhice (Tong, 2025; Eggleston, Lee e Iizuka, s.d.; Kang et al., 2020; Hung et al., 2025).

Idosos em uma sessão de terapia assistida com a foca robótica PARO| Foto: Reprodução/ Geriatricarea

 

O envelhecimento populacional contemporâneo difere das transições demográficas do passado principalmente pela velocidade de sua consolidação. Esse fenômeno pressiona estruturas projetadas para absorver tal volume de demanda. Desse modo, a introdução de dispositivos robóticos em instituições de longa permanência não pode ser compreendida apenas como uma inovação tecnológica isolada, mas sim como o reflexo de um colapso estrutural na oferta de cuidados humanos (Tong, 2025; Eggleston, Lee e Iizuka, s.d.). 

O Japão é o exemplo mais nítido dessa realidade. Com quase um terço de sua população composta por indivíduos acima de 65 anos, o país atingiu o ápice do chamado “problema de 2025”, período em que toda a geração do “baby boom” pós-Segunda Guerra ultrapassou a barreira dos 75 anos. Esse deslocamento demográfico gerou um déficit severo de mão de obra no setor de enfermagem e gerontologia. Dados do Ministério da Saúde japonês e relatórios econômicos internacionais indicam uma escassez crônica de cuidadores, com projeções apontando para um déficit que ultrapassa meio milhão de postos de trabalho para as próximas décadas (Asao et al., 2025).

A rotina de cuidados em instituições exige presença, paciência e esforço físico dos profissionais, tornando a escassez de mão de obra um problema estrutural. | Foto: Reprodução / Casa Cuidar 

 

Esse cenário de escassez está longe de ser uma exclusividade japonesa. No Brasil, o processo de envelhecimento também avança rapidamente. Dados do Ipea indicam que, se o modelo atual de assistência familiar e informal não mudar, o país enfrentará um contingente imenso de idosos desassistidos, exigindo a inserção de milhões de cuidadores remunerados no mercado até 2050. A diferença é que o Brasil ainda não tem recursos para adotar a robótica em massa, mas a tendência demográfica mostra que essa discussão é apenas uma questão de tempo (IPEA, 2025).

Foi essa pressão econômica e humana que levou o governo japonês a subsidiar, ainda na década passada, a entrada de robôs em instituições de longa permanência. No entanto, por trás da viabilidade técnica e do alívio financeiro, há uma questão ética central: ao transferir o cuidado dos idosos para as máquinas, a sociedade está resolvendo um problema de saúde ou apenas encontrando uma forma conveniente de terceirizar o afeto? (Eggleston, Lee e Iizuka, s.d.).

PARO e Pepper: A eficácia clínica do afeto programado

Se a crise demográfica exige soluções urgentes, a robótica assistiva surge como uma das principais respostas do mercado. No cenário atual de cuidados gerontológicos, dois modelos se destacam por suas abordagens distintas: o PARO e o Pepper.

O PARO, desenvolvido no Japão, assemelha-se a uma foca de pelúcia e funciona sob a lógica da terapia assistida por animais. Equipado com sensores de toque, luz e temperatura, o dispositivo utiliza inteligência artificial para adaptar suas respostas ao comportamento do usuário. Revisões sistemáticas e estudos clínicos indicam que a interação com o PARO traz benefícios práticos na qualidade de vida de idosos com demência, gerando melhoria nas expressões faciais, estímulo à comunicação e redução de indicadores fisiológicos de estresse e ansiedade (Kang et al., 2020; Rashid et al., 2023).

O robô humanoide Pepper tira uma selfie com passageira, demonstrando sua capacidade de interação e simulação de expressões. | Foto: Reprodução / O Globo 

Por outro lado, o Pepper adota uma linha humanoide. Com pouco mais de um metro de altura, o robô interage por meio de expressões faciais, reconhecimento de voz e uma tela no peito. Pesquisas realizadas em instituições de longa permanência na Europa revelam que idosos entre 79 e 93 anos engajam ativamente com o robô em dinâmicas de estímulo cognitivo. Os dados apontam melhoras na saúde mental e uma redução nos índices de solidão, com os residentes frequentemente desenvolvendo uma relação de empatia e paciência com a máquina (Eggleston, Lee e Iizuka, s.d.).

Essas evidências mostram que os robôs deixaram de ser ficção científica e já entregam resultados mensuráveis na saúde comportamental de idosos. Contudo, os benefícios documentados são majoritariamente superficiais e focados no manejo do humor. A capacidade dessas máquinas de simularem reações afetivas abre espaço para o verdadeiro debate deste artigo: até que ponto essa eficácia clínica justifica a substituição do contato humano?

Embora os dados apontem melhorias no manejo de sintomas comportamentais da demência e uma consequente redução no uso de medicamentos psicotrópicos, a literatura médica recomenda cautela. Meta-análises recentes sugerem que o impacto clínico positivo desses dispositivos, como o PARO, ainda carece de amostragens mais amplas para além do ambiente controlado de laboratório. A eficácia existe, mas ela não opera de forma mágica ou autônoma (Rashid et al., 2023). 

Além disso, a promessa de que a tecnologia aliviaria a sobrecarga dos profissionais de saúde esbarra na realidade operacional. Estudos de implementação indicam que a introdução de robôs assistivos muitas vezes aumenta a carga de trabalho dos cuidadores. Em vez de liberar tempo para o trato humano, os profissionais passam a gastar horas com monitoramento de sistemas, resolução de falhas técnicas e higienização dos aparelhos. A confiabilidade e a segurança mecânica, portanto, tornam-se novas fontes de ansiedade no cotidiano dos asilos (Tong, 2025; Eggleston, Lee e Iizuka, s.d.).

Há também um forte alerta ético no campo da saúde mental. A solidão na terceira idade já é tratada como uma epidemia de saúde pública global, o que acelera a aceitação social de paliativos tecnológicos. No entanto, bioeticistas alertam para o grave risco de um isolamento definitivo das conexões humanas genuínas (Hung et al., 2025).

 

O isolamento e a solidão na terceira idade representam um dos maiores desafios de saúde mental no século XXI, impulsionando a busca por paliativos tecnológicos. | Foto: Getty Images / BBC News Brasil 

Cria-se um cenário propício para a infantilização e o engano: pacientes com comprometimento cognitivo severo passam a interagir com um simulacro acreditando se tratar de um ser vivo dotado de sentimentos. O principal argumento crítico contra a robotização do cuidado não reside em uma incapacidade técnica da máquina, mas sim no “conforto moral” que ela confere à sociedade. Ao delegar o acolhimento do idoso a um circuito programado, a família e o Estado encontram uma justificativa conveniente para se ausentarem de suas responsabilidades afetivas. O robô, nesse sentido, passa a simular a paciência e a atenção que a sociedade contemporânea, em sua pressa utilitarista, recusa-se a oferecer à velhice (Mihailov e Wangmo, 2025; Tamir, 2026).

A inserção da robótica na gerontologia é um caminho sem volta, impulsionado por uma crise demográfica global que esvaziou os quadros de cuidadores humanos (Tong, 2025; Eggleston, Lee e Iizuka, s.d.; Asao et al., 2025). Como observado ao longo do texto, ferramentas como o PARO e o Pepper entregam resultados clínicos legítimos no alívio do estresse e no estímulo cognitivo (Kang et al., 2020; Rashid et al., 2023). Negar a utilidade dessas tecnologias seria ignorar o pragmatismo que a gestão da saúde pública exige.

Contudo, o limite da automação deve ser traçado onde termina a assistência prática e começa a dignidade humana. Os robôs devem atuar como ferramentas de suporte para o cuidador, e nunca como substitutos do afeto (Mihailov e Wangmo, 2025; Tamir, 2025). O “crepúsculo do cuidado” ocorre quando aceitamos que a velhice seja confinada a interações artificiais. Preservar o contato humano no fim da vida não é uma escolha econômica, mas o último compromisso ético de uma sociedade que se pretende humana. 

Referências:

ASAO, Kohei; SEITANI, Haruki; STEPANYAN, Ara; XU, TengTeng. The Impact of Aging and AI on Japan´s Labor Market: Challenges and Opportunities. IMF Working Paper, v. 2025, n.184. Washington: International Monetary Fund, 19 set. 2025. Disponível em: https://www.elibrary.imf.org/view/journals/001/2025/184/article-A001-en.xml. Acesso em: 14 jun. 2026.

EGGLESTON, Karen; LEE, Yong Suk; IIZUKA, Toshiaki . The impact of Robots on Nursing Home Care in Japan. Stanford: Walter H. Shorenstein Asia-Pacific Research Center (APARC), Stanford University. Disponível em: https://aparc.fsi.stanford.edu/research/impact-robots-nursing-home-care-japan. Acesso em: 13 jun. 2026.

HUNG, Lillian; ZHAO, Yong; ALFARES, Hadil; SHAFIEKHANI, Parsa. Ethical considerations in the use of social robots for supporting mental health and wellbeing in older adults in long-term care. Frontiers in Robotics and AI, v. 12, art. 1560214, 2025. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/robotics-and-ai/articles/10.3389/frobt.2025.1560214/full. Acesso em: 15 jun. 2026.

INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA). Ipea e MPO colocam o envelhecimento no centro do debate sobre o futuro. Brasília:Ipea, 2025/2026. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/categorias/45-todas-as-noticias/noticias/15974-ipea-e-mpo-colocam-envelhecimento-no-centro-do-debate-sobre-o-futuro. Acesso em: 14 jun. 2026.

KANG, Hee Sun; MAKIMOTO, Kiyoko; KONNO, Rie; KOH, In Soon. Review of outcome measures in PARO robot intervention studies for dementia care. Geriatric Nursing, v. 41, n. 3, p. 207-214, maio/jun. 2020. Disponível em:  https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0197457219305257  Acesso em: 14 jun. 2026. 

MIHAILOV, Emilian; WANGMO, Tenzin. Does Humanness Matter? An Ethical Evaluation of Sharing Care Work with Social Robots. Science and Engineering Ethics, v. 31, n. 4, art 20, 2025. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11948-025-00547-y. Acesso em: 14 jun. 2026.

RASHID, Nur Lidiya Abdul; LEOW, Yihong; KLAININI-YOBAS, Piyanee; ITOH, Sakiko; WU, Vivien Xi. The effectiveness of a therapeutic robot, ‘PARO’, on behavioural and psychological symptoms, medication use, total sleep time and sociability in older adults with dementia: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Nursing Studies, v 145, art. 104530, 2023. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0020748923000950. Acesso em: 14 jun. 2026.

TAMIR, Sivan. Ethical governance of AI-based humanoid carebots: the case for Ethics of Techno-care. Medicine, Health Care and Philosophy, v. 29, n. 1, p. 75-87. 2026. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s11019-025-10305-3. Acesso em: 14 jun. 2026.

TONG, Jingwen. Robots in elderly care: lessons from Japan. Berlim: Sinolytics Geolytics Blog, 9 set. 2025. Disponível em: https://sinolytics.de/global-business-news/blog/geolytics/robots-elderly-care-lessons-from-japan/. Acesso em: 14 jun. 2026.

Observação: artigo desenvolvido na disciplina Tecnologias Criativas, ministrada pela Professora Parcilene Fernandes. A disciplina integra o Programa Extensionista Interdisciplinar Tecnologias para a Vida dos cursos de Ciência da Computação e Engenharia de Software da Ulbra Palmas. 

 

Autoras: Maria Clara Pereira Lima e Maria Antônia Alves Curcino

Curso de Ciência da Computação – Centro Universitário Luterano de Palmas (CEULP/ULBRA) Palmas – TO

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