(En)Cena – A Saúde Mental em Movimento

Depois da bariátrica: relato de experiência

O pós-operatório foi, sem dúvida, a parte mais inesperada de todo o processo. Por mais que eu tivesse lido, ouvido relatos e conversado com profissionais, nada me preparou totalmente para o que vivi nas semanas seguintes. Eu já sabia que a adaptação seria física e emocional, mas não imaginava que o corpo pudesse responder de forma tão intensa e, ao mesmo tempo, tão silenciosa.

Nos primeiros dias, a sensação predominante era um misto de fragilidade e surpresa. Eu não sentia fome. Literalmente nenhuma. E não sinto até hoje. Algo que sempre fez parte do meu cotidiano — às vezes de forma regulada, às vezes desordenada — simplesmente desapareceu. A ausência completa de fome e, em alguns momentos, até de sede, me deixava com a impressão de que o meu corpo tinha desligado temporariamente funções que eu julgava naturais e automáticas. A cada tentativa de ingerir algo, vinha aquele enjoo rápido, quase instintivo, como se meu organismo estivesse aprendendo a se reorganizar desde o zero.

O mais difícil foi perceber que eu precisava comer mesmo sem vontade. Não por desejo, mas por necessidade vital. A relação com a alimentação deixou de ser “escolha”, e se tornou uma tarefa. E isso mexeu comigo emocionalmente. Comer sempre esteve ligado ao prazer, rotina, encontros, conforto ou escape. No pós-operatório, comer era apenas um dever fisiológico. Não tinha graça, não tinha vontade, e, às vezes, nem força emocional para insistir.

Ao mesmo tempo, meu corpo começou a mudar. Primeiro, de forma imperceptível. Depois, de modo mais evidente. A perda de peso foi acontecendo, mas acompanhada de uma sensação constante de enjoo, de fragilidade e, em alguns dias, até de tristeza. Não porque eu me arrependesse, mas porque a cirurgia coloca você diante de uma experiência muito profunda de vulnerabilidade: a necessidade de confiar nas pequenas porções, no copinho de 50 ml lá do início do pós, nas pausas longas entre goles, das esperas entre uma “refeição e outra”, se é que daria pra chamar de refeição, e na própria paciência.

Outra parte significativa desse período foi a relação com o tempo. Eu passei Agosto inteiro afastada, e isso trouxe tanto descanso quanto inquietação. Estar longe da rotina da faculdade e do estágio me dava espaço para me recuperar, mas também me deixava muito sozinha com meus pensamentos. Em alguns dias, eu me sentia orgulhosa. Em outros, me sentia exausta, irritada ou emocionalmente oscilante. A cirurgia bariátrica não transforma só o corpo — ela reorganiza a forma como a gente lida com nossas emoções mais básicas.

A ausência da fome, os enjoos constantes e a sensação de que eu não estava “atingindo nada” foram pontos que me acompanharam por semanas. E, mesmo sabendo que esses sintomas são comuns no pós-operatório de Bypass, viver isso na pele é completamente diferente de ler ou ouvir sobre.

Ainda assim, algo dentro de mim sabia que as coisas estavam caminhando. Mesmo com dificuldades, eu percebia pequenas vitórias: um dia com menos enjoo, uma hidratação melhor, uma refeição que descia com mais tranquilidade, uma caminhada mais confortável, uma noite de sono mais leve. E, principalmente, a incrível sensação de não sentir mais o refluxo que me acompanhou por tanto tempo — um alívio tão grande que, por si só, já justificaria a cirurgia.

O pós-operatório me ensinou que saúde não se constrói apenas com decisões grandes, como uma cirurgia, mas com pequenos gestos repetidos todos os dias (e ainda tô aprendendo isso). Ele também me mostrou que cuidar de mim não é só sobre corpo, mas sobre paciência, respeito aos limites e aceitação das fases. Houve dias difíceis, mas houve também a certeza contínua de que eu estava no caminho certo.

Hoje, olhando para trás, vejo que essa etapa foi uma das mais transformadoras. Não pela mudança física em si, mas pela maneira como ela me colocou em contato direto com minha própria vulnerabilidade e com a força que eu nem sabia que tinha.

Sair da versão mobile